por Oscar D'Ambrosio


 

 


  Zezão

 

            A estética das galerias

 

            A produção de Zezão, qualificada por muitos como arte subterrânea, ganha uma dimensão social já  ressaltada em diversos textos e reportagens, mas ainda não devidamente pensada no que ela tem de mais importante. Trata-se de um salto de galerias: das pluviais para as de arte.

            Isso significa que o seu trabalho realiza um percurso absolutamente paradigmático no sentido de indicar como a arte, muitas vezes jogada ao largo da sociedade, junto ao lixo, a cães mortos e a móveis usados, pode conquistar o espaço que lhe é de direito com perseverança.

             José Augusto Amaro Capela conquista literalmente o underground, em tampas de bueiro, escombros, prédios abandonados, becos e sombras de viadutos. Ao deixar ali seu flop, ou seja, sua marca registrada, uma assinatura em azul, chama a atenção para um mundo urbano que muitos não querem ver.

            No momento em que sua linguagem plástica, seja em fragmentos de material, via vídeo ou fotografia, começa a ser incorporada por galerias de arte, tanto no exterior como no Brasil, instaura-se uma nova realidade, relacionada com a questão da mobilidade social e com a discussão do que é feio ou bonito.

            Se o lixo pode ser luxo, como apontava o carnavalesco Joãosinho Trinta, bem antes do modismo da reciclagem, Zezão alerta que o submundo que está embaixo das grandes cidades pode vir à tona não apenas plasticamente, mas, principalmente, tornando-se visível como objeto de discussão.

            Assim como o artista vai desvendando galerias pluviais, trazendo-as à luz, seu trabalho cada vez mais não se limita aos locais escuros, mas literalmente vem à tona, sem metáforas, oferecendo uma visão diferenciada do mundo. Com produções de grafite, street art, arte digital, decoração e publicidade, sua arte conquista outros espaços.

            A galeria de arte não pode, nessa perspectiva, ser vista como uma continuação da galeria pluvial. É outro espaço no qual, além de discutir o que é feito no espaço underground é preciso introduzir novos elementos, como ele fez na galeria Choque Cultural, onde entram elementos coloridos, abstratos, próximos ao psicodélico.

            A arte de Zezão promove um saudável diálogo. Leva a caligráfica arte que faz nos subterrâneos e bueiros para as galerias e, em breve, acredito, fará o oposto, ou seja, transportará para as galerias pluviais parte do que hoje produz para galerias e em meio digital.  Nesse saudável diálogo,  a sua arte pode se renovar continuamente.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

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 Intervenção urbana pintura em bueiro

 Zezão

 

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