Zeílton Mattos
A poética da alegria
A arte alimenta-se dos sentimentos humanos. São eles que
geram as mais variadas interpretações da realidade. A partir do
mundo que está ao seu redor, o artista cria todo tipo de relação
com o seu material pictórico, construindo a sua própria poética,
ou seja, a sua visão daquilo que o cerca, na linguagem que julga
mais adequada.
Radicado
em Cuiabá, Estado de Mato Grosso, Zeílton Mattos estabelece os
seus elos com a arte por meio de algumas marcas registradas. Uma
delas está nas mulheres de braços fartos e alongados que
caracterizam o seu estilo. Suas formas arredondadas apresentam
muito mais do que sensualidade. Criam um clima de aconchego que
interroga o espectador.
Dentro
desses braços podem ser encontrados diversos elementos. Há
frutas, como abacaxis e cajus, ou flores. O importante está na
forma pictórica como os membros superiores são construídos.
Parece que eles tem o poder de abraçar a humanidade e de protegê-la
de todos os males, num denso sentimento maternal.
Isso não
despe esses braços de sensualidade. Pelo contrário, ao mesmo
tempo que convidam à proteção parecem ser capazes de mil e um
carinhos. E essa visão é reforçada pelos vestidos coloridos e
atraentes das mulheres e, principalmente, pelos lábios carnudos e
coxas voluptuosas.
A
pintura de Zeílton Mattos, porém, não se limita aos elementos
mencionados. Há, pelo menos, mas dois que são recorrentes: as
galinhas d’angola e os peixes. Ambos aparecem em numerosos
quadros, às vezes com um destaque maior e em outras oportunidades
como meros acessórios ao conjunto.
As
mulheres maternais e sensuais descritas surgem também em cenas de
colheita, ladeadas por homens que também assumem uma postura
protetora e paternal. Existem trabalhos que tomam como referência
colheitas de algodão, em que o produto surge nos braços desses
trabalhadores como se fosse um bebê. Homens e mulheres portam o
algodão no colo com uma delicadeza quase sagrada. O trabalho árduo
ganha assim dignidade de sublime obra de arte pela poética de Zeílton
Mattos.
Diversas
tonalidades de verde, utilizadas principalmente para retratar
papagaios ou plantações, merecem referência, assim como os
azuis utilizados na composição do céu. Esses elementos da
natureza são muitas vezes associados com a viola-de-cocho, violão
de cinco cordas de raiz popular típico do Estado do Mato Grosso,
e até com o intenso colorido de onças que também se aconchegam
com prazer nos arredondados braços.
Com
suas mulheres pessoais e misteriosas, donas de braços que parecem
polvos a nos atrair em mil e uma posições, o trabalho pictórico
de Zeílton Mattos cativa. Há nele o poder de uma estética
pessoal e indagadora que seduz à primeira vista e nos indaga a
buscar um mergulho cada vez maior em suas ricas e plásticas
imagens que extravasam a alegria e o prazer no ato de pintar.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de
Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil) e é autor de Os
pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de
Deus (Editora UNESP e Imprensa Oficial do Estado de São
Paulo) e Contando a arte de Ranchinho (Editora Noovha América).