por Oscar D'Ambrosio


 

 


Zeílton Mattos

 

            A poética da alegria

 

            A arte alimenta-se dos sentimentos humanos. São eles que geram as mais variadas interpretações da realidade. A partir do mundo que está ao seu redor, o artista cria todo tipo de relação com o seu material pictórico, construindo a sua própria poética, ou seja, a sua visão daquilo que o cerca, na linguagem que julga mais adequada.

            Radicado em Cuiabá, Estado de Mato Grosso, Zeílton Mattos estabelece os seus elos com a arte por meio de algumas marcas registradas. Uma delas está nas mulheres de braços fartos e alongados que caracterizam o seu estilo. Suas formas arredondadas apresentam muito mais do que sensualidade. Criam um clima de aconchego que interroga o espectador.

Dentro desses braços podem ser encontrados diversos elementos. Há frutas, como abacaxis e cajus, ou flores. O importante está na forma pictórica como os membros superiores são construídos. Parece que eles tem o poder de abraçar a humanidade e de protegê-la de todos os males, num denso sentimento maternal.

            Isso não despe esses braços de sensualidade. Pelo contrário, ao mesmo tempo que convidam à proteção parecem ser capazes de mil e um carinhos. E essa visão é reforçada pelos vestidos coloridos e atraentes das mulheres e, principalmente, pelos lábios carnudos e coxas voluptuosas.

A pintura de Zeílton Mattos, porém, não se limita aos elementos mencionados. Há, pelo menos, mas dois que são recorrentes: as galinhas d’angola e os peixes. Ambos aparecem em numerosos quadros, às vezes com um destaque maior e em outras oportunidades como meros acessórios ao conjunto.

As mulheres maternais e sensuais descritas surgem também em cenas de colheita, ladeadas por homens que também assumem uma postura protetora e paternal. Existem trabalhos que tomam como referência colheitas de algodão, em que o produto surge nos braços desses trabalhadores como se fosse um bebê. Homens e mulheres portam o algodão no colo com uma delicadeza quase sagrada. O trabalho árduo ganha assim dignidade de sublime obra de arte pela poética de Zeílton Mattos.

Diversas tonalidades de verde, utilizadas principalmente para retratar papagaios ou plantações, merecem referência, assim como os azuis utilizados na composição do céu. Esses elementos da natureza são muitas vezes associados com a viola-de-cocho, violão de cinco cordas de raiz popular típico do Estado do Mato Grosso, e até com o intenso colorido de onças que também se aconchegam com prazer nos arredondados braços.

Com suas mulheres pessoais e misteriosas, donas de braços que parecem polvos a nos atrair em mil e uma posições, o trabalho pictórico de Zeílton Mattos cativa. Há nele o poder de uma estética pessoal e indagadora que seduz à primeira vista e nos indaga a buscar um mergulho cada vez maior em suas ricas e plásticas imagens que extravasam a alegria e o prazer no ato de pintar.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo) e Contando a arte de Ranchinho (Editora Noovha América).

 

 

 

 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

 


Mulheres na colheita de algodão


acrílica sobre tela
90 cm x 130 cm - 2004

Zeílton Mattos

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Galeria de Fotos

 

Oscar D’Ambrosio