Zé
Damas
Artista
de uma travessia
O
mineiro de Cordisburgo João Guimarães Rosa alertava que “A coisa
não está nem na partida e nem na chegada, mas na travessia...”.
Esse conceito torna-se evidente em cada imagem criada pelo artista
plástico Zé Damas, que tem a cidade de Tiradentes, MG, como ponto
inicial de seu trabalho plástico, fascinante pelo poder de
estabelecer uma linguagem visual harmoniosa e internamente coerente
sobre um município muito peculiar em sua beleza arquitetônica.
Destaca-se
na cidade, berço de Zé Damas, a Igreja Matriz de Santo Antônio,
com projeto da fachada de Aleijadinho. Ela é um dos assuntos
preferidos das pinturas do artista mineiro que, com seu estilo naïf,
leva para telas, pedras, cuias, cabaças e gamelas as mais
diferentes visões de Tiradentes.
Foi,
em 1991, ao se aposentar da profissão de ourives, que Zé Damas –
nome que vem do avô, já que ele foi batizado como José Vicente
Ferreira – começou a pintar. Autodidata, tomou a cidade natal
como ponto de partida de imagens líricas em que as mais diversas
vistas locais ganham novas projeções e composições.
Além
do trabalho em tela, Zé Damas iniciou a pegar pedras da região,
aplicando nelas tintas e adaptando seu imaginário visual ao formato
de cada uma delas, atingindo assim grande liberdade de composição,
fundindo a real Tiradentes com aquela que está em sua mente.
O
grande mérito do artista está justamente em tornar seu trabalho a
memória de uma cidade. Tendo já realizado uma exposição em
Washington D.C., EUA, graças a José Neistein, do Instituto
Cultural Brasileiro-Americano, em 1997, ele encanta por levar sua
simplicidade diretamente para os suportes com os quais trabalha.
Não
se trata de obra pretensiosa, como é cada vez mais comum na arte
contemporânea, mas sim de um constante fazer e refazer sobre a
realidade circundante, que ganha um atrativo especial quando cenas
de festas populares são somadas às igrejas e casarios de
Tiradentes.
Retomando
Rosa, a pintura de Zé Damas é
uma travessia. Trata-se de um caminhar constante pela cidade natal
do artista. Nesse aspecto, uma das construções plásticas mais
interessantes é a que coloca a casa do artista em primeiro plano,
deixando ao fundo a mencionada igreja, principal atração turística
da cidade.
Talvez
esteja nessa imagem a demonstração de uma das maravilhas da arte,
a saber, a capacidade de ela apresentar o mundo da maneira que um
indivíduo julga mais adequada. Suscita ainda novos olhares e
proporciona oportunidades de refletir aquilo que observamos muitas
vezes passivamente sem nos dar a liberdade de lançar um novo olhar.
Zé
Damas, com seu vislumbrar primitivista, oferece ao observador uma
Tiradentes marcada por cores vibrantes entremeada, nas melhores
realizações, por imagens de festas populares. Ele capta a cidade o
seu modo e a expõe em diversos suportes, mas sempre com a mesma
característica: o respeito pelo município onde nasceu e que o
abriga como um de seus representantes plásticos absolutamente
comprometido com sua história e cultura, imortalizando o presépio
urbano mineiro que adorna a Serra de São José.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista e crítico de arte, é mestre em Artes
Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA - Seção Brasil).