Zearomm
As naturezas-mortas vivas
Para o filósofo norte-americano Ralph
Waldo Emerson (1803-1882), “a Natureza é uma nuvem mutável,
sempre e nunca a mesma”. Sob esse ponto de vista, os quadros de
Zearomm ganham novas perspectivas, pois têm o poder de atrair o
espectador pela capacidade de gerar perguntas.
Há algo nas naturezas-mortas do
artista que fascina logo à primeira vista, mas não é simples
definir o que seja. O segredo está na composição, no uso das
cores, e, principalmente, no poder de gerar pequenas mutações na
natureza que dão ao conjunto um aspecto renovador e vigoroso.
Se o ofício da arte, conforme pensava
Picasso, era inquietar, Zearomm atinge esse objetivo. Pequenos
grafismos que coloca em suas telas indicam movimento e – como
ocorre no desenho animado – dão vida às imagens, sejam
composições com flores, folhas, frutas ou livros.
As naturezas-mortas de Zearomm são
muito vivas. Folhas em posições originais, às vezes próximas
do surrealismo, ilustram bem esse desejo de comunicação dos
elementos que integram as suas telas. Elas não esperam
passivamente o olhar de quem as observa, mas realizam um esforço
quase consciente de aproximação.
Nascido em Jundiaí, em 17 de janeiro
de 1958, o artista também consegue esse efeito pela textura
diferenciada de seus quadros. Há nelas um quê de áspero e de
concreto que torna cada tela uma janela para novos mundos – algo
bastante comum na pintura acadêmica, mas difícil de ser
encontrado quando se trata de naturezas-mortas.
Cada pintura de Zearomm oferece o
desafio lúdico de verificar qual é o ponto que apresenta um
certo dinamismo. Esse combate ao estático relembra que a
natureza, como apontava Emerson, é um convite ao movimento
permanente num jogo entre o que é, o que pode ser e o que poderá
ser.
As pinturas têm um intrigante
desequilíbrio interno que rompe o academicismo e inaugura um
portal de reflexões sobre o próprio significado da arte em sua
infinita capacidade de recriar a realidade a todo instante, em
nome das célebres indagações socráticas de onde viemos, o que
somos e para aonde vamos.
Parece incrível que uma
natureza-morta gere esse tipo de interrogação existencial, mas
esse é apenas um dos efeitos que as telas de Zearomm provocam.
Outro está na agradável sensação que se tem perante a
combinação de cores utilizada pelo artista. Azuis e amarelos
pálidos e alguns tons róseos compõem atmosferas de
encantamento, que convidam a um mergulho interior.
Merecem referência os recipientes
pintados pelo artista. Jarros e vasos não têm cores ou formatos
tradicionais. Há quase sempre neles algum detalhe que os
diferencia, geralmente nas bordas não-lineares. Como costumam
surgir em tom pastel, eles permitem que os outros elementos da
tela apareçam com mais força, principalmente as frutas, com
cores mais vivas, como amarelo, laranja ou vermelho.
Zearomm transforma cada natureza-morta
num mundo peculiar de relações entre cores e formas. Cada
composição ganha interesse por conter elementos próprios, que
não se repetem, mas acentuam um estilo bem definido, logo
reconhecível, em que cada quadro indaga os limites da própria
arte como motor propulsor de reflexões. Afinal, se como diz
Emerson, a natureza é mutável, por que não retratar isso em
telas?
Oscar D’Ambrosio é jornalista,
integrante da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA)
e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp