por Oscar D'Ambrosio


 

 


Zaragoza
 

            Convite à inteligência

 

            Balzac (1799-1850), em A musa do departamento, lembra: "Quando todo
mundo é corcunda, o belo porte torna-se a monstruosidade". Essa idéia se
faz muito presente na arte contemporânea, quando crítica e público
costumam reagir mal ao artista que não apresenta uma unidade em seu
processo de criação.

Não seria uma das características mais interessantes da arte contemporânea
justamente a possibilidade de encontrar artistas que se abastecem das mais distintas
fontes, gerando uma diversidade de resultados surpreendente e, ao mesmo tempo,
cativante? 

O desafio estão seria encontrar na "monstruosidade" o "belo porte", para verificar
onde a multiplicidade converge. A obra plástica de José Zaragoza, cuja revisão de 50
anos de arte, ocorreu em novembro/dezembro de 2005, no Museu Brasileiro da
Escultura, em São Paulo, promove justamente esse debate

            Nascido em 1930 em Barcelona, Zaragoza, quando chegou ao Brasil, em
1952, já tinha na bagagem estudos na Escola de Belas-Artes da sua cidade
natal e uma primeira exposição em 1947. Daí por diante, seu trabalho
percorre diversas facetas, sempre mantendo o poder de inventar e de
gerar indagações no observador. 

            Suas obras dos anos 1950, por exemplo, entre as quais se destaca o
retrato da irmã Conchita, trabalham o óleo sobre tela de uma maneira que
evoca os mestres do gênero. Há ali a busca pela humanidade a cada traço.
Não se trata apenas de dominar a técnica, mas de atingir a essência
daquilo que se retrata.

            Essa procura se aprofunda nos anos 1960, somente que, como mostra o
retrato Monique grávida, os tons escuros ganham a companhia de uma
estruturação imagética que evoca o cubismo, principalmente alguns
retratos de Picasso, com sua habilidade toda especial de tratar a
composição de imagens humanas.

            Ainda nos anos 1960, dois momentos se destacam. A pintura Ponte talvez
seja uma das melhores que o artista já realizou. Há nela elementos do
conhecimento técnico clássico e de modernidade na forma do acabamento e
na maneira de tratar o tema. Ao se contemplar o resultado, fica claro
que aquilo, pelo trabalho realizado, não é mais uma imagem, mas sim um
trabalho pictórico da melhor qualidade.

            O mesmo caminho surge na série de crianças praticando diversas
atividades, como brincar com bola, pular corda e rabiscar. Aliás, esta
última ação Zaragoza continua realizando com vigor, sempre em busca de
respostas plásticas a indagações internas.

            Após essas obras em que a densidade se faz muito presente e que geraram,
inclusive, uma exposição na Faap, em 1963 - a primeira individual do
artista -, Zaragoza deu uma guinada para enfrentar um novo desafio:
trabalhar com o branco. Isso significava não só enfrentar o pânico da
tela limpa, mas, acima de tudo, verificar as possibilidades estéticas de
uma cor que era, em diversos aspectos, o oposto do que havia feito até
então, ou seja, o trabalho com tonalidades mais escuras.

            Nos anos 1970, surge uma nova e interessante idéia. Com títulos
extraídos de colunas sociais de Tavares de Miranda, como Tim-tim, a
produção plástica de Zaragoza torna-se plena de ironia ao status quo e
mostra como as grandes corporações preocupadas com elas mesmas e com
indivíduos de terno e gravata escura decidem, com rostos maculados à
Francis Bacon, os destinos do mundo.

            Retomando o humanismo do início da carreira, nos anos 1980, os retratos
imaginários do artista são um ato de amor à pintura. Isso se torna bem
evidente em Velho ator, pois a temática é resolvida plasticamente sem
pieguice ou lirismo fácil, mas com consciência do que significa pintar
um retrato no século XX, ou seja, a incorporação das técnicas do passado
e, simultaneamente, a busca de soluções próprias.

            Nesse sentido, a imagem de Caio Alcântara Machado, de 1976, é essencial.
Há nela muito de pintura européia, mas também de cores vinculadas à
brasilidade. A extinção do rosto e o trabalho com as linhas e manchas do
corpo criam uma realidade dinâmica e emotiva.

            Em se falando em impacto e presença do coração nas telas, isso ocorre,
com grande expressividade, na série Não Matarás, de 1986. Pessoas sendo
torturadas e/ou encapuzadas são desenhadas de maneira bastante livre, em
papel kraft, acentuando a habilidade do artista e a sua capacidade de
criar estados de espírito e de transmitir a agonia de almas.

            Seja nos Retratos imaginários ou nos trabalhos mais engajados
politicamente, subsiste o mesmo talento de transmitir emoção pelo uso
dos mais variados materiais. Em 1989, os trabalhos em que retira as
cores da bandeira brasileira ou cria mapas paulatinamente escurecidos e
devastados de sua alegria e verde mostram a Pátria brasileira, por um
lado, perdendo as suas florestas, mas gerando, paradoxalmente, uma
grande obra plástica.

            Os trabalhos de Zaragoza costumam impressionar em termos de tamanho e de
capacidade de propiciar novas leituras. É o caso das séries Windows, de
1989, e Chaves, de 1995. Elas integram objetos do cotidiano ao trabalho
do artista. A primeira apresenta o universo urbano dos prédios sob
diversos ângulos e cores, com esquadrias móveis servindo como molduras.
Estabelece-se assim um universo lúdico em que a ação de abrir uma janela
significa estar de frente a edifícios com infinitas luzes por andar,
solucionadas com pinceladas precisas e vigorosas.

            As chaves geram já um outro efeito. Muito mais importante que o seu
simbolismo mais evidente - de abrir/fechar caminhos existenciais - é a
impressão plástica de vê-las colocadas umas juntas a outras ou nas mais
variadas combinações, sempre a alertar que são objetos apropriados por
um artista plástico e não mais chaves do mundo cotidiano.

            As janelas e chaves, quando nas mãos e na mente de Zaragoza, são
renovadas. Propiciam um caminho até para uma maior compreensão da arte
pelo observador, obrigado a ver cada trabalho como a realização
imagética de um projeto estético, mas não por isso frio ou desumano.
Planejamento, neste caso, significa coerência artística na busca de
elementos motivadores para dar o melhor de si mesmo em cada experiência
técnica ou temática.

            É o caso de Yellows, de 2001, onde o universo do amarelo é explorado,
assim como ocorrera com o branco, há três décadas. Ampla experimentação
com materiais rege um universo em que o uso de tinta e de elementos
naturais, como grãos de arroz, convive com o sentido maior da obra de
Zaragoza: o inconformismo com as próprias possibilidades.

            Como apontava Balzac, "o belo porte" está muitas vezes onde muitos não
sabem encontrá-lo. Zaragoza revela-se um perito na habilidade de
surpreender e maravilhar pela diversificação. Sua "monstruosidade" em 50
anos de arte está na capacidade de não oferecer respostas e de indagar,
tanto na temática como na técnica, a inteligência do público de maneira
mais ou menos sutil, mas sempre essencial e contundente: "Quem sou eu?
Quem é você? Aceite encarar esses desafios e partilhe comigo uma viagem
pelas nossas inteligências!". 

            

Oscar D'Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA)
da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de
Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov
(Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo). 
 

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  Publicado na Revista Playboy Setembro de 1987
Óleo sobre tela

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