por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Yuji Arimizu

O Brasil oriental

A mescla de tradicionais imagens japonesas com o tempero brasileiro é a marca registrada da arte do pintor primitivista paulistano de ascendência nipônica Yuji Arimizu. Dessa combinação, surgem resultados surpreendentes, em que a disciplina oriental se mescla à representação de personagens mulatos.

Nascido em 18 de setembro de 1952, Yuji absorveu a influência artística do pai, Konosuki Arimizu, também pintor, e do convívio com os irmãos Caetano no Embu. Desse background surge uma obra muito peculiar, facilmente identificável pela temática, disposição das figuras e , principalmente, pelas cores.

Predomina em Yuji um especial tom marrom. A cor permeia suas composições, caracterizadas pela presença de pescadores e homens com enxadas. Eles surgem de frente ou de perfil, muitas vezes vestidos de branco, em meio a grupos em que mulheres com roupas de baianas e crianças aparecem ao lado de potes e cestos, às vezes cheios de frutas.

O mais curioso nesses quadros está no fundo. Plantações ou pequenos vilarejos são retratados com luxo de detalhes. Na parte superior, há representações ainda mais significativas, como conjuntos de colinas ou lagos azuis que possivelmente provêm da influência oriental do artista.

As roupas dos trabalhadores são um tópico especial. O branco surge muitas vezes mesclado a outras cores, em camisas masculinas quadriculadas ou vestidos listrados. Dezenas de personagens são assim apresentados, todos mulatos, numa atmosfera em que a disciplina e o rigor formal se fazem presentes.

O fato que mais chama a atenção nas telas é justamente essa ordem. Pessoas carregam objetos ou se sentam no chão em imagens que mostram detalhismo e, acima de tudo, auto-controle. Não há nelas, por exemplo, as cores quentes ou explosões de movimento, mas tonalidades sóbrias e uma delicada contenção de emoções.

Os chapéus usados pelos homens também são muito curiosos. Logo à primeira vista, trazem à lembrança pinturas clássicas de pescadores japoneses, que se articulam harmonicamente com as figuras tipicamente brasileiras das baianas. É criada assim uma sociedade próxima ao realismo fantástico, em que traços da realidade são trabalhados com criatividade para introduzir o observador numa nova dimensão.

Sem compromisso com o real, como reza a boa arte primitivista, as obras de Arimizu estimulam a imaginação pela riqueza de imagens, que podem ser isoladas em nome de uma análise mais detalhada do todo. Assim, cada parte é autônoma, mas ganha maior sentido quando recolocada no quadro a que pertence.

A proximidade e a integração entre as crianças e os adultos é um dos pontos mais fortes da estética toda pessoal de Arimizu. Meninos são colocados nos ombros dos pais e as meninas, recostadas às mães, em uma mistura curiosa e original entre um mercado do Nordeste brasileiro e uma aldeia de trabalhadores japoneses.

Yuji Arimizu realiza em seus quadros repletos de personagens uma ponte de elevado senso estético entre Brasil e Japão, caracterizada pela quebra de proporções entre as figuras, característica própria do mundo naïf. A beleza de seus quadros, porém, à parte o estilo, está justamente no talento de fundir, com imagens vinculadas ao trabalho e à disciplina, alguns traços da arte oriental à tez morena de personagens brasileiras.

Oscar D’Ambrosio é jornalista, integra a Academia Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).


  

 

 

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