Yuji Arimizu
O Brasil oriental
A mescla de tradicionais imagens
japonesas com o tempero brasileiro é a marca registrada da arte
do pintor primitivista paulistano de ascendência nipônica Yuji
Arimizu. Dessa combinação, surgem resultados surpreendentes, em
que a disciplina oriental se mescla à representação de
personagens mulatos.
Nascido em 18 de setembro de 1952,
Yuji absorveu a influência artística do pai, Konosuki Arimizu,
também pintor, e do convívio com os irmãos Caetano no Embu.
Desse background surge uma obra muito peculiar, facilmente
identificável pela temática, disposição das figuras e ,
principalmente, pelas cores.
Predomina em Yuji um especial tom
marrom. A cor permeia suas composições, caracterizadas pela
presença de pescadores e homens com enxadas. Eles surgem de
frente ou de perfil, muitas vezes vestidos de branco, em meio a
grupos em que mulheres com roupas de baianas e crianças aparecem
ao lado de potes e cestos, às vezes cheios de frutas.
O mais curioso nesses quadros está no
fundo. Plantações ou pequenos vilarejos são retratados com luxo
de detalhes. Na parte superior, há representações ainda mais
significativas, como conjuntos de colinas ou lagos azuis que
possivelmente provêm da influência oriental do artista.
As roupas dos trabalhadores são um
tópico especial. O branco surge muitas vezes mesclado a outras
cores, em camisas masculinas quadriculadas ou vestidos listrados.
Dezenas de personagens são assim apresentados, todos mulatos,
numa atmosfera em que a disciplina e o rigor formal se fazem
presentes.
O fato que mais chama a atenção nas
telas é justamente essa ordem. Pessoas carregam objetos ou se
sentam no chão em imagens que mostram detalhismo e, acima de
tudo, auto-controle. Não há nelas, por exemplo, as cores quentes
ou explosões de movimento, mas tonalidades sóbrias e uma
delicada contenção de emoções.
Os chapéus usados pelos homens
também são muito curiosos. Logo à primeira vista, trazem à
lembrança pinturas clássicas de pescadores japoneses, que se
articulam harmonicamente com as figuras tipicamente brasileiras
das baianas. É criada assim uma sociedade próxima ao realismo
fantástico, em que traços da realidade são trabalhados com
criatividade para introduzir o observador numa nova dimensão.
Sem compromisso com o real, como reza
a boa arte primitivista, as obras de Arimizu estimulam a
imaginação pela riqueza de imagens, que podem ser isoladas em
nome de uma análise mais detalhada do todo. Assim, cada parte é
autônoma, mas ganha maior sentido quando recolocada no quadro a
que pertence.
A proximidade e a integração entre
as crianças e os adultos é um dos pontos mais fortes da
estética toda pessoal de Arimizu. Meninos são colocados nos
ombros dos pais e as meninas, recostadas às mães, em uma mistura
curiosa e original entre um mercado do Nordeste brasileiro e uma
aldeia de trabalhadores japoneses.
Yuji Arimizu realiza em seus quadros
repletos de personagens uma ponte de elevado senso estético entre
Brasil e Japão, caracterizada pela quebra de proporções entre
as figuras, característica própria do mundo naïf. A beleza de
seus quadros, porém, à parte o estilo, está justamente no
talento de fundir, com imagens vinculadas ao trabalho e à
disciplina, alguns traços da arte oriental à tez morena de
personagens brasileiras.
Oscar D’Ambrosio é jornalista,
integra a Academia Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e é
autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp).