por Oscar D'Ambrosio


 

 


Yasushi Taniguchi

 

            O lirismo das lâminas

 

            O poeta francês Jean Cocteau (1889-1963) apontava que “o corpo é um parasita da alma”. Essa complexa relação entre o concreto e o abstrato ganha uma dimensão enriquecedora no trabalho do artista japonês Yasushi Taniguchi, que realizou, de 21 de janeiro a 15 de março de 2006, a primeira exposição individual no Brasil, intitulada “Simbiose”, na Galeria Deco, em São Paulo, SP.

            O que fascina em seu trabalho é a mescla da delicadeza com a agressividade, num resultado plástico indagador, que incomoda desde o primeiro momento. Os suports são lâminas dentadas de serras, com todo seu potencial de destruição impiedosa. O uso da tinta acrílica, com pequenas figuras femininas nuas, e da oxidação, que cria uma atmosfera de envelhecimento da matéria, geram um universo de harmônicas contradições.

            Trabalhar com lâminas significa penetrar no mundo de chapas delgadas de metal de formatos variados. São folhas de instrumentos cortantes que podem destruir e abrir caminho. Estabelece-se a possibilidade de uma poderosa arma de recriação do mundo, análoga ao potencial de ruptura da paixão alucinada ou do infinito poder humano de criar.

            As lâminas são de serras, instrumentos cortantes que têm como peça principal lâminas ou discos de aço. Sua forma evoca diretamente a capacidade de incisão, ou seja, de criar novos modelos e paradigmas a partir de uma certa realidade. A lâmina da serra corta, ou seja, propõe novas realidades, criando novos mundos.

            A presença de corpos pintados em tinta acrílica nas lâminas das serras gera estranhamento. O contraponto entre o corpo nu, geralmente em posições de recolhimento, com as costas inclinadas em posição fetal, apresenta o diálogo entre a delicadeza de um corpo frágil e a violência sugerida pelos dentes da serra.

            A oxidação do aço acentua esses efeitos, pois introduz mais uma variável: a ação do tempo. É a fixação do oxigênio em um corpo que leva à criação da ferrugem.  Essa interferência do tempo possibilita a reflexão sobre analogias de como a beleza e o lirismo dos corpos nus podem ser serrados pela cruel passagem do tempo e pela paixão que pode destruir até as maiores belezas.

            Yasushi Taniguchi consegue criar a ilusão de estacionar o tempo. Suas pequenas mulheres nuas ocupam os dentes de grandes serras oxidadas num alerta para o poder do tempo de destruir os mais líricos pensamentos e relacionamentos. As imagens que estabelece alertam para o poder da arte de harmonizar contrários, mostrando que o corpo, se mal tratado, pode ser o parasita a destruir a alma.

As lâminas líricas do artista japonês evidenciam que, ao contrário do que muitos dizem, a arte não está morta e a criatividade ainda se faz presente, obrigando o ser humano a exercer o seu maior dom: a capacidade de relacionar elementos aparentemente díspares, estabelecendo simbioses entre serras e mulheres, onde corpos surgem prontos a serem transformados pelos dentes cortantes de máquinas destruidoras.

                       

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

 
  Exposição Simbiose 
tinta acrílica e oxidação sobre lâminas de serra tamanhos variáveis 2006

Yasushi Taniguchi 

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio