Yara Tupynambá
Ícones universais
Além de ser o mais
montanhoso dos Estados brasileiros, com serras e planaltos com
altitude média de 800 m, Minas Gerais é berço e lar de adoção
de alguns dos mais importantes artistas brasileiros. Talvez o
fato de estar entre colinas
longe do mar motive os nascidos na região a cultivarem a
introspecção, seja na pintura, na literatura ou na música.
O fato é que a força
pictórica mineira, que tem em Aleijadinho o seu maior mestre,
além de representantes posteriores como Guignard, encontra
prosseguimento até hoje. Cada um segue o seu caminho, mas
geralmente com um curioso e significativo amor pela
verticalidade.
Nascida em Ontes
Claros, Yara Tupynambá dá prosseguimento a essa tradição à
sua maneira. Capaz de colocar sol e lua numa mesma imagem, dá
aos casarios de seu Estado uma nova dimensão. Em tons de
vermelho, de azul ou de amarelo que utiliza com intensidades
variadas cria o seu próprio universo.
O observador de suas
telas não está mais em Minas Gerais, mas em cidades universais
que podem evocar os municípios históricos mineiros, mas, acima
de tudo, encantam pela sua qualidade intrínseca de objeto estético,
sempre pronto a desafiar e a interrogar, pois cada imagem guarda
no mínimo um segredo de composição bem articulado.
Três principais temáticas
se intercruzam as criações de Yara: a dos casarios, a das
festas populares e a das flores. As suas telas mais indagadoras
são justamente aquelas que conseguem compor esses três
elementos de modo que eles estabelecem um diálogo de cores e
formas.
Os amarelos e lilás
de flores são encontrados nas imagens das cidades em combinações
harmônicas às vezes acrescidas por portas abertas que evocam
tanto a arquitetura e a arte barroca como os pequenos oratórios
que ainda podem ser encontrados no Estado de Minas.
Às vezes o ambiente
dessas fantásticas paisagens mineiras é enriquecido por
mastros e bandeirinhas, imagens vinculadas às festividades
juninas. Cidades, bandeirolas e arabescos barrocos nos
introduzem num mundo algumas vezes enigmático, em que as
construções constituem ricos jogos arquitetônicos.
Os casarios
delineados geralmente em planos horizontais ganham verticalidade
pela sobreposição de imagens e pela presença de algumas
torres e pináculos. O conjunto apresenta-se assim uniforme em
sua poeticidade, ainda mais quando ocorre o uso de cores
quentes, em que o céu parece se iluminar com fogos de artifício.
Mineira, mas
universal; criadora de casarios, mas também de fundos líricos;
mestre no trabalho com flores e oratórios, mas sabedora dos
desafios de compor harmonicamente linhas horizontais e
verticais; a artista plástica Yara Tupynambá ultrapassa as
fronteiras dos ícones do Estado de Minas Gerais, merecendo ser
vista como uma pintora de imagens fantásticas e plenas de símbolos
que povoam os sentidos dos admiradores da arte que cativa os
sentidos e a alma do observador.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista, é Mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP,
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte
(AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de
Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e
obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).