por Oscar D'Ambrosio


 

 


.

Wilson Tafner

 

Perspectivas: recortes de um adolescer

 

O branco e preto e o ocre dão o tom da exposição Perspectivas: recortes de um adolescer, do artista plástico Wilson Tafner. Estão ali desenhos em carvão e objetos que se integram não só pelo tema da infância perdida e da violência urbana. Eles também estabelecem um ambiente que discute a violação de direitos fundamentais e a  marginalização de jovens e adolescentes

Embora o assunto seja de gravidade inegável, não pode – nem deve – se sobrepor ao trabalho de Tafner. O desafio do artista é o de motivar a observação atenta de suas criações para refletir sobre uma dramática questão social, que leva a ter uma geração perdida.

Os desenhos em carvão funcionam como uma síntese do conjunto. Há uma mãe pobre, provavelmente chefe de uma família desestruturada, com uma criança desfalecida para a qual há dois grandes caminhos possíveis: a infância idealizada, com pipas, futebol e bolinhas de gude; ou a realidade do tráfico de drogas, da prostituição do subemprego ou da marginalidade.

As jornadas estão presentes na instalação que convida o público a participar de uma escolha ao oferecer a opção de construir um muro com nomes de jovens excluídos ou de escrever uma mensagem numa lousa. Estão aí as perspectivas da sociedade brasileira: o muro da prisão ou da escola;  as primeiras letras da educação ou as grades.

Corpos modelados no chão, na posição conhecida como “Valete” entre os jovens infratores, sempre deitados do lado oposto a quem está ao seu lado, de modo que cabeças e pés se alternam no solo, reforçam a atmosfera opressiva. Eles têm visões diferentes, embora limitadas pelo ambiente, cercado por notícias de jornais sobre atos de violência cometidos dentro da Febem.

Aliás, distintas jornadas existenciais são também sugeridas por uma espécie de roda da fortuna, objeto de parede em que numerosos elementos indicam diversas possibilidades do trabalho infantil, assunto expresso ainda em trabalhos em carvão que enfocam prostituição infantil, mendicância e uso drogas, entre outras possibilidades existenciais.

O relevo com a barriga de uma mulher grávida aprisionada numa gaiola, o prato luxuoso que oferece a refeição de uma lata de cola de sapateiro com pedras de crack e fotos realizadas por Tafner de jovens marcados pela violência ou felizes por receber refeições colocadas sobre um suporte de madeira atrás de uma grade completam a exposição.

O conjunto impressiona pelo seu valor plástico e por estar repleto de vivência do tema. O artista não é mais um criador que se debruça com um olhar complacente e assistencialista sobre a exclusão social. Pelo contrário, ele pratica a arte a partir do que vivencia e conhece.

Promotor de Justiça da Infância e da Juventude, ele enfocou o tema da violência contra os jovens na exposição Ninguém nasce bandido, de 2005, na própria Casa Galeria, com curadoria de Carmen Aranha. A sua perspectiva, desde então, é discutir se pode haver um sentimento de esperança na realidade que ele conhece tão bem.

Se uma perspectiva é, nas artes visuais, uma técnica de representação tridimensional que dá ilusão de espessura e profundidade, também é a chance de discutir a falta de oportunidade para pessoas sem passado, presente ou futuro, que, em sua maioria, caminham para engordar os números nacionais de marginalidade e violência.

Nesse aspecto, a exposição se ergue como um ato de protesto plasticamente construído e um alerta visualmente imponente. Choca na sua denúncia e interroga em sua temática. Trata das crianças que o país perde e dá um passo importante para que, cada vez mais, Wilson Tafner seja um artista que atua como Promotor – e não o inverso.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

 

 Valete
1,65 cada estátua Arame com papel machê e estrume seco 2007

Wilson Tafner

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio