por Oscar D'Ambrosio


 

 



  

            Wilma Ramos

 

            A senhora dos verdes

 

            Quantas tonalidades tem o verde? Quem quiser responder a esta pergunta precisa passar pelas telas alegres de Wilma Ramos, uma artista versátil capaz de pintar virgens estilizadas em defesa da natureza, a Festa do Divino Espírito Santo, casamentos caipiras, cenas de candomblé, pássaros brasileiros e o jesuíta José de Anchieta em meio a um Paraíso ecológico.

            Os fundos verdes de Wilma encantam pela delicadeza e pelo detalhe. Se, às vezes se  aproximam do pontilhismo, em outras telas apresentam uma maior textura, compondo obras que vão desde uma colheita num canavial a cenas populares de pescadores ou de baianas vendendo cocadas e outros quitutes pelas ladeiras da Bahia.

            A Festa do Divino é outra presença essencial. A celebração, herança da colonização portuguesa, é uma das principais matérias-primas da artista, que desfila nas festividades e já pintou um auto-retrato em que aparece carregando a bandeira vermelha. Os anjos e procissões que acompanham o evento também surgem em numerosas telas, assim como outros elementos do folclore, como o bumba-meu-boi, a congada, o candomblé, o moçambique, as festas juninas e a malhação de Judas.

Madonas em estilo primitivista, sereias e virgens são também objeto de diversas telas, assim como feiras e mercados. Cada quadro desses ganha estrutura autônoma pelos elementos internos que o compõem, como os grandes olhos amendoados, as cores intensas e uma contagiante alegria, expressa em imagens que fascinam pela riqueza imaginativa e detalhamento.

            Nascida em Mogi das Cruzes, em 22 de julho de 1940, e falecida, em São Paulo, SP, dia 26 de abril de 2009, Wilma, já, aos quatro anos, gostava de desenhar em papel de embrulho de pão. A partir dos 14 anos, surgiram as primeiras telas ligadas ao folclore de sua cidade natal. A temática e a qualidade de seus trabalhos despertou a atenção de Rossini Tavares de Lima, diretor do Museu de Folclore de São Paulo.

Posteriormente, ela recebeu o estímulo de Maria José Calheiros, a pintora Marjô, de São Paulo, SP, iniciando uma carreira vitoriosa, cuja estréia oficial ocorreu, em 1967, no Salão de Arte Contemporânea de Campinas. No ano seguinte, Wilma fez sua primeira individual, na Prefeitura da cidade natal. Entre 1974 e 1976, ela expôs seus quadros na Praça da República, em São Paulo, SP.

Foi lá que um casal de espanhóis reconheceu na pintora um talento autenticamente brasileiro. Surgiu assim o convite para ficar três meses em Palma de Mallorca. A estadia, no entanto, estendeu-se de 1977 a 1979. Embora tivesse convites para permanecer na Europa, Wilma sentiu que havia chegado o momento de voltar.

Seu currículo, que inclui exposições nos EUA, Inglaterra, Itália e Espanha, além de quadros no Chile e no Vaticano, também se enriqueceu por comentários elogiosos de críticos de renome, como o norte-americano Selden Rodman e o italiano Gianni Gelleni; além do brasileiro Geraldo Edson de Andrade, admirador de suas festas populares.

            Wilma, que também ilustrou cartões da Unicef e o calendário da indústria química Basf, em 1991, desenhou a imagem reproduzida nos cartazes da Festa do Divino de 2001 de Mogi. Essa fascinante versatilidade torna a artista difícil de se encaixar em rótulos fáceis. Se é primitivista devido ao seu autodidatismo, ao contrário de alguns pintores do estilo, não repete fórmulas prontas, correndo riscos ao enfrentar grande variedade de temas. 

Sua marca registrada está na assinatura: um peixe, símbolo de Oxum, divindade do candomblé protetora da artista, vinculada ao amarelo e aos rios. O peixe, também símbolo do cristianismo, é colocado pela artista na tela e no verso, o que gera uma curiosa dupla assinatura de cada tela.   

            Virgens ecológicas protetoras da defesa do verde das matas, baianas, festas de Santo Antônio, colheitas de diversos produtos agrícolas, aves tropicais, virgens nus com anjos, pescadores, congada, feiras populares e imagens do Vale do Paraíba integram o universo mental e pictórico de Wilma Ramos, uma defensora da diminuta natureza virgem que ainda resta.

            A artista mogiana trabalha as cores com desenvoltura e dá aos seus verdes matizes muito pessoais. Colocados ao fundo das colheitas ou de outras cenas, são um traço distintivo e apontam para um domínio técnico elevado, posto à serviço das mais diversas imagens, todas vinculadas a um Brasil harmonioso e equilibrado e a uma natureza ainda preservada, exibida com encantadoras folhas, colheitas e pássaros verdes, únicos em suas tonalidades.

            Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).

 

 

 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

"Corte de Cana"

A-S-T - 50X70 -2001

Wilma Ramos

 

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Galeria de Fotos

 

Oscar D’Ambrosio