Wilma Ramos
A
senhora dos verdes
Quantas
tonalidades tem o verde? Quem quiser responder a esta pergunta
precisa passar pelas telas alegres de Wilma Ramos, uma artista
versátil capaz de pintar virgens estilizadas em defesa da
natureza, a Festa do Divino Espírito Santo, casamentos caipiras,
cenas de candomblé, pássaros brasileiros e o jesuíta José de
Anchieta em meio a um Paraíso ecológico.
Os
fundos verdes de Wilma encantam pela delicadeza e pelo detalhe.
Se, às vezes se aproximam
do pontilhismo, em outras telas apresentam uma maior textura,
compondo obras que vão desde uma colheita num canavial a cenas
populares de pescadores ou de baianas vendendo cocadas e outros
quitutes pelas ladeiras da Bahia.
A
Festa do Divino é outra presença essencial. A celebração,
herança da colonização portuguesa, é uma das principais matérias-primas
da artista, que desfila nas festividades e já pintou um
auto-retrato em que aparece carregando a bandeira vermelha. Os
anjos e procissões que acompanham o evento também surgem em
numerosas telas, assim como outros elementos do folclore, como o
bumba-meu-boi, a congada, o candomblé, o moçambique, as festas
juninas e a malhação de Judas.
Madonas em estilo
primitivista, sereias e virgens são também objeto de diversas
telas, assim como feiras e mercados. Cada quadro desses ganha
estrutura autônoma pelos elementos internos que o compõem, como
os grandes olhos amendoados, as cores intensas e uma contagiante
alegria, expressa em imagens que fascinam pela riqueza imaginativa
e detalhamento.
Nascida
em Mogi das Cruzes, em 22 de julho de 1940, e falecida, em São
Paulo, SP, dia 26 de abril de 2009, Wilma, já, aos quatro anos,
gostava de desenhar em papel de embrulho de pão. A partir dos 14
anos, surgiram as primeiras telas ligadas ao folclore de sua
cidade natal. A temática e a qualidade de seus trabalhos
despertou a atenção de Rossini Tavares de Lima, diretor do Museu
de Folclore de São Paulo.
Posteriormente,
ela recebeu o estímulo de Maria José Calheiros, a pintora Marjô,
de São Paulo, SP, iniciando uma carreira vitoriosa, cuja estréia
oficial ocorreu, em 1967, no Salão de Arte Contemporânea de
Campinas. No ano seguinte, Wilma fez sua primeira individual, na
Prefeitura da cidade natal. Entre 1974 e 1976, ela expôs seus
quadros na Praça da República, em São Paulo, SP.
Foi lá que um
casal de espanhóis reconheceu na pintora um talento
autenticamente brasileiro. Surgiu assim o convite para ficar três
meses em Palma de Mallorca. A estadia, no entanto, estendeu-se de
1977 a 1979. Embora tivesse convites para permanecer na Europa,
Wilma sentiu que havia chegado o momento de voltar.
Seu currículo,
que inclui exposições nos EUA, Inglaterra, Itália e Espanha, além
de quadros no Chile e no Vaticano, também se enriqueceu por
comentários elogiosos de críticos de renome, como o
norte-americano Selden Rodman e o italiano Gianni Gelleni; além
do brasileiro Geraldo Edson de Andrade, admirador de suas festas
populares.
Wilma, que também ilustrou cartões da Unicef e o calendário
da indústria química Basf, em 1991, desenhou a imagem
reproduzida nos cartazes da Festa do Divino de 2001 de Mogi. Essa
fascinante versatilidade torna a artista difícil de se encaixar
em rótulos fáceis. Se é primitivista devido ao seu
autodidatismo, ao contrário de alguns pintores do estilo, não
repete fórmulas prontas, correndo riscos ao enfrentar grande
variedade de temas.
Sua marca
registrada está na assinatura: um peixe, símbolo de Oxum,
divindade do candomblé protetora da artista, vinculada ao amarelo
e aos rios. O peixe, também símbolo do cristianismo, é colocado
pela artista na tela e no verso, o que gera uma curiosa dupla
assinatura de cada tela.
Virgens
ecológicas protetoras da defesa do verde das matas, baianas,
festas de Santo Antônio, colheitas de diversos produtos agrícolas,
aves tropicais, virgens nus com anjos, pescadores, congada, feiras
populares e imagens do Vale do Paraíba integram o universo mental
e pictórico de Wilma Ramos, uma defensora da diminuta natureza
virgem que ainda resta.
A
artista mogiana trabalha as cores com desenvoltura e dá aos seus
verdes matizes muito pessoais. Colocados ao fundo das colheitas ou
de outras cenas, são um traço distintivo e apontam para um domínio
técnico elevado, posto à serviço das mais diversas imagens,
todas vinculadas a um Brasil harmonioso e equilibrado e a uma
natureza ainda preservada, exibida com encantadoras folhas,
colheitas e pássaros verdes, únicos em suas tonalidades.
Oscar
D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor Os
pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp).