por Oscar D'Ambrosio


 

 


Wesley Duke Lee

Castelinho triste

 

Heidegger, em seu ensaio A origem da obra de arte, aponta que “qualquer que seja a solução, a pergunta sobre a origem da obra de arte se transforma na pergunta sobre a essência da arte”. A exposição de Wesley Duke Lee, na Valu Oria Galeria de Arte, de 6 de abril a 6 de maio de 2006, em São Paulo, SP, remete a esse pensamento do filósofo alemão, uma excelente e esquecida sugestão de possibilidade de entrada para o estudo de artes plásticas.

A exposição, com obras dos nos 1950 aos 1990, pode ser cristalizada no trabalho Castelinho triste, de 1957, em óleo sobre papel, com medidas de 24,5 x 45 cm. Realizado com extrema delicadeza, lirismo num primeiro olhar, guarda, porém, em seu interior, características que seriam depois desenvolvidas nas numerosas vertentes que o artista explorou.

Afinal, seja como pintor, desenhista, gravador ou artista gráfico, esse paulistano nascido em 1931, realizou as mais diversas atividades plásticas, sempre com o compromisso com a originalidade e a irreverência, mas sem perder de vista a qualidade de seu trabalho e o cuidado na forma de melhor apresentá-lo.

Uma das primeiras referência de Wesley foi Karl Plattner, que viveu em São Paulo, nos anos 1950, formando diversos pintores brasileiros. Do mestre italiano, com um trabalho importante no estudo do corpo humano, Duke Lee retirou importantes informações estéticas para o prosseguimento de sua obra.

Castelinho triste, no entanto, vai além desses ensinamentos. Há ali atmosfera medieval, certo romantismo e a predominância de ocres, responsáveis pela “melancolia” do título. Existem ali, no entanto, acima de tudo, formas plásticas de composição que remetem a dois ícones da arte mundial.

De um lado, está Klee, com seus célebres “quadradinhos de cor” e o saudável hábito de realizar sucessivas pesquisas em locais de pessoas internadas por serem consideradas loucas, como alimento para suas soluções plásticas; e Kandinsky, pela liberdade de combinar linhas com explosões de cor.

Em 1963, com Pedro Manuel Gismondi, Wesley criou o movimento Realismo Mágico, que propunha olhar o mundo a partir dos elementos mágicos que energizam a realidade objetiva. Parte desse mundo já está no castelo triste que ele criou em 1957, principalmente pelo assunto escolhido.

Afinal, o castelo é justamente a instauração de um mundo imaginário. Dentro dele, pode acontecer de tudo. O que se chama realidade não tem sentido nesse novo mundo que ganha a dimensão que a própria arte de qualidade instaura: a de um microcosmos em que todo tipo de relação é possível, desde que internamente coerente.

A imagem nos convida a entrar nela e nos aprisiona em seus efeitos de transparência. Queremos saber o que há de fascinante em cada detalhe cuidadosamente apresentado. A torre, as entradas, o céu, a construção das paredes, tudo oferece o mistério de uma cidadela a ser desvendada.

Quando, em 1964, Wesley filiou-se ao movimento surrealista Phases, de Paris, não seria de surpreender para quem conhecia o triste castelo, pois nele existe a proposta de caminhar em uma dimensão que não esta. Trata-se de uma vereda em que, muito mais do que o automatismo psíquico, está a idéia de propor questionamentos sobre aquilo que se vive com toda intensidade como se fosse a única verdade existencial possível.

A interrogação sobre o real de Wesley dá origem, em 1965, no João Sebastião Bar, em São Paulo, SP, a sua exposição Ligas, o primeiro happening brasileiro. O castelo já não se faz mais necessário. Após observá-lo atentamente e perceber que ele oferece um novo mundo, o natural passo seguinte era entrar nele e promover a sua destruição conceitual em nome da vivência de novas experiências.

Esse processo criativo, metaforicamente presente em Castelinho triste, revela a grande característica plástica de Wesley Duke Lee, a inteligência formal. Isso significa que ele nunca adorou a arte em si mesma como uma deusa do conhecimento, pronta a justificar todo, mas sim como um caminho para questionar o que significa ser artista, o que é arte de qualidade e os próprios dilemas da existência humana.

Refinado em sua arte, como nos traços do Castelinho, e irônico na maneira como concebe a arte e o mundo das galerias e museus, Wesley nos traz, a cada trabalho, uma pergunta. O pequeno castelo, nesse sentido, pode ser (por que não?), a nossa própria mente, muitas vezes fechada ao novo.

Duke Lee não caiu nessa armadilha. Boa parte de sue trabalho plástico é feito a partir da justaposição de segmentos de memória. E aí temos desde a Idade Média até a mitologia grega. O assunto, novamente, é o menos importante. A diferença do trabalho do artista paulistano reside na forma como as lembranças pessoais e coletivas são apropriadas e devolvidas ao observador, que não permanece indiferente.

Wesley gosta de usar fragmentos de imagens e isso é anunciado no Castelinho. O trabalho pode ser divido em numerosas obras ainda menores em tamanho, mas que não perderiam a sua autonomia como objeto estético pela força de sua composição e a pesquisa com a cor e a forma.

Se o artista se vale ainda de anotações anárquicas, elas não indicam surrealismo no sentido de uma irracionalidade, mas sim uma falta de ordenação baseada no princípio de que o poder em si mesmo existe para ser destruído. A desordem de Wesley é uma forma de indagar a ordem instituída.

O castelo que surge nesse processo é o dominado pela arte. Dentro dele, a gestualidade solta é o rei, e técnicas como assemblage, frottage, fotografia e fotocópia são um conjunto de rainhas. O assunto pode ser erótico, político, filosófico ou mitológico. Vale tudo, desde que não se perca a habilidade artística.

Ao realizar, em 1991, dois painéis, cada um de 40 metros, para a Estação Trianon do Metrô, em São Paulo, sobre o desenvolvimento da pintura no Brasil, Wesley Duke Lee faz dois novos “castelinhos tristes”. Eles guardam em si mesmos parte da história da arte brasileira e, analogamente, essas influências, de uma forma ou de outra, estão presentes nas obras anteriores e posteriores do criador paulistano.

Castelinho triste traz em si o bojo do pensamento de Wesley Duke Lee. Pintura de qualidade, convida a um mergulho que abre portas, janelas e pontes para alcançar salões e torres onde os dragões são vencidos pela lança iluminada do talento. É ela que permite conquistar a princesa artista que está bem guardada no alto do castelo.

É essa princesa que acompanha Wesley Duke Lee ao longo de sua trajetória. Cada trabalho contém em si um pedacinho do Castelinho triste. O conhecimento das técnicas do passado, aliado à capacidade de sempre estar a imaginar novas situações, com processos atualizados, permite a renovação constante de seu repertório.

Mitologia grega, Idade Média, Renascença, como os trabalhos que tomam Leonardo da Vinci como referência, Pop Art e numerosos procedimentos atribuídos à modernidade se fazem presentes, das formas mais variadas em Wesley Duke Lee, um artista muitas vezes visto nas enciclopédias e sínteses apenas como um criador ligado à Pop Art, aposto que não lhe faz, de longe, a merecida justiça histórica.

O Castelinho triste é, na verdade, a cristalização de um momento e o anunciador de uma postura perante a arte que, pela honestidade intelectual e busca constante de respostas técnicas a indagações humanas, atinge um lugar único – nem sempre devidamente reconhecido – nas artes nacionais. Talvez por isso, o castelinho já fosse triste.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

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Castelinho triste
óleo sobre papel 24,5 x 45 cm 1957

Wesley Duke Lee

 

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