por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Walmor Corrêa

 

            Ciência com alma artística

 

            Para Rabelais (1490?-1553), “ciência sem consciência não passa de ruína da alma”. O espírito dessa frase provavelmente sempre esteve presente na trajetória artística de Walmor Corrêa. Seus desenhos e pinturas, ao construir um mundo fictício de animais biologicamente possíveis, derrubam todos os limites entre ciência e arte, introduzindo o observador num universo lúdico, em que o imaginário se torna real.

            Nascido em Florianópolis, SC, em 5 de outubro de 1961, e radicado em Porto Alegre, RS, Walmor Corrêa aponta que uma de suas principais influências foram as aulas de biologia no ensino médio. Amante da prática do desenho desde criança. Freqüentou, em Porto Alegre, o curso de ateliê livre da prefeitura. Embora autodidata, foi nesse ambiente que encontrou a possibilidade de conhecer artistas, trocar experiências e aprender novas técnicas.

            O trabalho de Corrêa, por estar ligado à ciência, constitui um desafio permanente para ele mesmo e para o público. O desenho e a pintura são os elementos utilizados para que o espectador questione qualquer tipo de certeza que possa ter sobre aquilo que enxerga e que tende, na maioria dos casos, a aceitar passivamente.

            O fascinante de seu trabalho não está tanto na habilidade de desenhar seres fantásticos, como uma tartaruga com cabeça de macaco, mas na forma como isso é apresentado, com uma cenografia, edição e curadoria que dão ar de verdade ao que surge de sua mente criativa.

            Os nomes em latim e alemão, os pequenos textos com descrições bem-humoradas e irônicas dos hábitos desse animais e, principalmente, o primor do detalhe em cada uma dessas ações são a construção de um universo próprio. Há descrição de ossos e também fabulação, numa arte que conjuga o rigor técnico do desenhista ao dos livros imaginários medievais, tão bem recuperado na literatura de Jorge Luis Borges.

            A ciência desenvolvida por Corrêa é a do poder criador da arte disfarçado de catalogação. Em seu prazer de criar, o artista mantém a coerência do objeto criado, estabelecendo uma admirável lógica interna, em que regras internas são estabelecidas para que o espectador possa entrar num universo todo peculiar, em que o estético e o lúdico falam mais alto.

            Do mesmo modo que um cientista cataloga borboletas ou insetos, Corrêa cria o seu próprio mundo de animais – e os ordena com primor lógico. Se a própria natureza surpreende a ciência com fatos de impossível explicação ou animais tão belos ou feios que parecem criados pela mente de um artista, Corrêa faz o inverso.

            Enquanto Sêneca acreditava que “toda arte é imitação da natureza”, o artista catarinense recria o mundo natural e o subverte e dessacraliza o conhecido e cria uma ciência artística, na qual tudo é possível desde que tratado com coerência interna, tópico em que Corrêa é um maestro. Carnavaliza o que conhece e estabelece o que parece impossível: uma arte com alma disfarçada regiamente de ciência.

           

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

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 Gaveta entomológica 
acrílica e grafite sobre tela 33x60 cm 2003
Walmor Corrêa

 

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