Waldrix
O poder da imagem
Uma das principais características da arte primitivista é
o trabalho com cores, geralmente primárias, em tons quentes,
oferecendo um resultado em que forma e fundo se relacionam de
maneira intensa, não havendo predominância de uma sobre a outra,
mas sim um diálogo pleno em dinamismo, que gera imagens fortes e,
não raro, inesquecíveis.
É o que ocorre com as telas
do pintor Waldrix, falecido em 24 de janeiro de 2008. Seu trabalho
tem um significativo poder de lidar com as cores. Ele utiliza
pouco o meio tom, criando imagens de grande impacto comunicativo,
que captam a atenção do espectador. Seus temas – que vão das
telenovelas à política – são o pretexto para uma arte que
merece observação atenta.
Nascido em 1958, em Neves Paulista, SP, cidade colonizada
por espanhóis próxima a São José do Rio Preto, Walter Sanches
Jr. definia-se como um menino introspectivo, que gostava de
desenhar nas porteiras das fazendas e que entalhava com canivete
desenhos nas árvores nas estradas por onde passavam as boiadas.
As primeiras criações do
artista, portanto, foram realizadas com carvão nas casas de tábuas
dos sítios. Aos 12 anos, Sanches, já em São José do Rio Preto,
pintava em telas e participou de exposições juvenis na casa de
Cultura local, incentivado pela diretora, a escritora Dinorath do
Valle.
O jovem também freqüentava a
biblioteca, onde conheceu o artista primitivista José Antonio da
Silva, que ali trabalhava como servente e tentava fundar o
primeiro museu primitivista do País. Com o estímulo de Silva e
do crítico de arte Ernesto Kawal, Sanches – que já assinava
Waldrix – deu prosseguimento à sua carreira.
A
convite de Romildo Sant’Anna, curador do Museu de Arte
Primitivista José Antônio da Silva, Waldrix, em 2001, restaurou
11 telas do acervo, em estado de deterioração. Participou ainda
de várias exposições individuais e coletivas, integrando, a
partir daquele ano, o acervo permanente do Museu Internacional de
Arte Naïf do Rio de Janeiro (MIAN).
Em telas como O cadeirudo,
o artista se aproxima do realismo fantástico, com a quebra de
proporção e a visão de uma cidade com casas em que a
perspectiva ganha uma dimensão toda pessoal. O céu estrelado
entra em choque com um sol de intenso amarelo, enquanto o
personagem que intitula a tela surge com uma sombra ameaçadora
deixando, no meio do asfalto, uma mulher nua, próxima à figura
de um animal feroz, meio cão/meio lobo.
A noiva fujona já apresenta um tom mais idílico,
com um homem pescando, animais no rio e bois pastando. O tom humorístico
é dado pela noiva que foge de bicicleta, passando com seu vestido
de cauda sobre uma ponte, sem proporções acadêmicas bem dentro
das características naïfs.
A violência urbana se faz presente em Refém,
tela em que um homem negro, com um revólver na mão aparece abraçando
uma mulher branca e loira, com seios fartos e bochechas pintadas.
O olhar de agressividade dele contrasta com a incredulidade da moça,
enquanto, na parede, está a inscrição “Sevícias do poder”
e, em prateleiras, numerosas garrafas de bebida.
O engajamento de Waldrix é ainda mais evidenciado
na tela Caras pintadas, de 1992, em que manifestantes são
pintados carregando faixas contra o então presidente Fernando
Collor, com mensagens pedindo justiça, ordem e ética,
condenando, portanto, a impunidade aos bandidos e aos
“fantasmas” da máquina burocrática pública que recebem sem
trabalhar.
A
arte de Waldrix se destaca precisamente pela capacidade de enfocar
diversos temas com a mesma espontaneidade. Seu azul tem um tom
muito peculiar e as imagens que oferece mesclam a crítica social
ao bom humor, numa combinação plena de autenticidade que merece
receber maior atenção da crítica de arte e dos especialistas em
arte primitivista.
Oscar D’Ambrosio é jornalista, autor de Os
pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora UNESP) e responsável pela página www.artcanal.com.br/oscardambrosio