por Oscar D'Ambrosio


 

 


Waldomiro Sant’Anna

 

            Lirismo em telas

 

            Há artistas que podem ter sua criação em parte decifrada pela visão atenta de uma tela. É o caso de Waldomiro Sant’Anna, pois cada imagem criada é um exercício lírico com uma poética em que predomina a delicadeza a visão da vida com uma mescla intrigante entre credulidade e desilusão.

            Paisagens urbanas de um domingo à tarde no interior paulista, com pessoas andando de bicicleta e casais namorando junto a janelas são o retrato harmonioso de uma vida que passa sem deixar cicatrizes, mas, também, sem gerar grandes emoções, numa temperatura amena e modorrenta.

            Essa habilidade do artista, nascido em Itápolis, interior de São Paulo, em 1952, de mesclar a ansiedade do ser metropolitano à característica observadora do habitante do interior se faz muito presente nas cenas da capital paulista em que pessoas observam paisagens geométricas de casas e edifícios.

            O ludismo de brincadeiras infantis é muito presente, e as imagens das crianças surgem em movimentos contidos, nos quais as formas de jovens integram-se ao ambiente retratado, convidando o observador a considerar quem brinca e o universo circundante como um só material pictórico.

            A mesma habilidade é evidenciada quando o tema é a leitura. Jovens ou casais lendo são retratados como totalmente embebidos naquilo que estão fazendo e, principalmente, como elementos co-participantes dos cenários em que estão. Leitor, livro e ato da leitura fundem-se harmoniosamente, de modo que personagem criado e criador começam a se mesclar.

            Sant’Anna obtém esse tipo de efeito em seus quadros sobre música, seja quando mostra pífaros, violões, bandas do interior, flautistas ou jovens fazendo serenatas para amadas. As cores das telas funcionam com a harmonia de uma partitura musical. É possível ouvir a palheta utilizada pelo artista paulista, radicado em Ribeirão Preto, SP.

            Cores terrosas, com uma gradação muito pessoal, adaptam-se às mais variadas situações. Mesmo quando as cores quentes entram no quadro, são aplicadas com parcimônia. Refletem aspectos da vida tratados com a mesma singeleza que um poeta dedica a sua musa.

            A poesia de um casal se beijando junto a um poste numa pequena cidade define bem a forma de pintar de Waldomiro Sant’Anna. Seus músicos e cores não gritam, mas sussurram com delicadeza como véus a se espalharem pelas salas de exposições. Seu poder de encantamento está no reino das sugestões, onde cada pequeno detalhe e nuance de cor é um convite a uma observação sutil e participante, plena de um sentido adquirido aos poucos, sem pressa, como um longo beijo embaixo do farol semi-apagado de uma praça centenária, plena de líricas histórias e esmaecidas recordações.

           

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

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Menina de vermelho
40 cm x 50 cm -acrílica sobre tela 2005

Waldomiro Sant'Anna

 

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