Waldomiro
Sant’Anna
Lirismo
em telas
Há
artistas que podem ter sua criação em parte decifrada pela visão
atenta de uma tela. É o caso de Waldomiro Sant’Anna, pois cada
imagem criada é um exercício lírico com uma poética em que
predomina a delicadeza a visão da vida com uma mescla intrigante
entre credulidade e desilusão.
Paisagens
urbanas de um domingo à tarde no interior paulista, com pessoas
andando de bicicleta e casais namorando junto a janelas são o
retrato harmonioso de uma vida que passa sem deixar cicatrizes,
mas, também, sem gerar grandes emoções, numa temperatura amena
e modorrenta.
Essa
habilidade do artista, nascido em Itápolis, interior de São
Paulo, em 1952, de mesclar a ansiedade do ser metropolitano à
característica observadora do habitante do interior se faz muito
presente nas cenas da capital paulista em que pessoas observam
paisagens geométricas de casas e edifícios.
O
ludismo de brincadeiras infantis é muito presente, e as imagens
das crianças surgem em movimentos contidos, nos quais as formas
de jovens integram-se ao ambiente retratado, convidando o
observador a considerar quem brinca e o universo circundante como
um só material pictórico.
A
mesma habilidade é evidenciada quando o tema é a leitura. Jovens
ou casais lendo são retratados como totalmente embebidos naquilo
que estão fazendo e, principalmente, como elementos
co-participantes dos cenários em que estão. Leitor, livro e ato
da leitura fundem-se harmoniosamente, de modo que personagem
criado e criador começam a se mesclar.
Sant’Anna
obtém esse tipo de efeito em seus quadros sobre música, seja
quando mostra pífaros, violões, bandas do interior, flautistas
ou jovens fazendo serenatas para amadas. As cores das telas
funcionam com a harmonia de uma partitura musical. É possível
ouvir a palheta utilizada pelo artista paulista, radicado em
Ribeirão Preto, SP.
Cores
terrosas, com uma gradação muito pessoal, adaptam-se às mais
variadas situações. Mesmo quando as cores quentes entram no
quadro, são aplicadas com parcimônia. Refletem aspectos da vida
tratados com a mesma singeleza que um poeta dedica a sua musa.
A
poesia de um casal se beijando junto a um poste numa pequena
cidade define bem a forma de pintar de Waldomiro Sant’Anna. Seus
músicos e cores não gritam, mas sussurram com delicadeza como véus
a se espalharem pelas salas de exposições. Seu poder de
encantamento está no reino das sugestões, onde cada pequeno
detalhe e nuance de cor é um convite a uma observação sutil e
participante, plena de um sentido adquirido aos poucos, sem
pressa, como um longo beijo embaixo do farol semi-apagado de uma
praça centenária, plena de líricas histórias e esmaecidas
recordações.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo
Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov
(Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor
naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do
Estado de São Paulo).