Waldomiro de Deus
O Inverso do Camaleão
Criativa e surpreendente. Esses são os
principais adjetivos utilizados pela crítica especializada para
caracterizar a vida e a obra de Waldomiro de Deus, reconhecido
internacionalmente como um dos maiores pintores naïfs. Graças a uma
carreira com mais de 150 exposições na Itália, Bélgica, França,
Israel e quase todo o Brasil, Waldomiro é uma referência obrigatória
do gênero, sendo citado no capítulo "Six Popular Masters" do
livro Genius in the Backlands: Popular Artists of Brazil, lançado
em 1976, do conceituado crítico Selden Rodman.
Ao ver os rostos criados por Waldomiro,
o pesquisador norte-americano os compara aos fantasmas neuróticos
pintados por Munch, aos pesadelos imaginados por Fuseli, às imagens estáticas
e santos de El Greco, aos Cristos bizantinos e ao célebre quadro Cigana
adormecida, de Rousseau.
Nascido em Itajibá, no sertão da
Bahia, em 1944, Waldomiro de Deus vem, ainda menino, num pau-de-arara
para São Paulo. Foi trabalhando, na capital paulista, como jardineiro
na casa de um imigrante italiano, que realizou suas primeiras obras,
guaches sobre cartolina. Empolgado com a descoberta, passou a pintar a
noite toda e a dormir de dia. Acabou demitido.
Levou então os seus desenhos ao
Viaduto do Chá, em pleno centro da cidade, sendo descoberto pelo
compositor Teodoro Nogueira. A partir daí, a carreira de Waldomiro,
incentivada pelo físico e crítico de arte Mário Schemberg, começou a
crescer, incluindo a participação, em 1967, na IX Bienal de São
Paulo.
Nesse período, Waldomiro torna-se pinbahippie,
freqüenta a movimentada rua Augusta dos anos 60, viaja em seguida à
Europa, realizando exposições coletivas e individuais na França, Itália
e também nos EUA e em Israel, onde passa a acreditar em Deus após uma
experiência mística.
De volta ao Brasil, passa a dividir seu
tempo entre Osasco, onde morou, por muitos anos, numa casa com um caixão
que usava para dormir, e em Goiânia, onde se tornou um líder
religioso. Atualmente, é possível encontrar suas telas na Pinacoteca
do Estado de São Paulo, no Museu de Arte Contemporânea da USP, no
Museu Internacional de Arte Naïf, no Rio de Janeiro, em museus,
galerias e colecionadores de Moscou, Jerusalém, Londres, Frankfurt,
Nova York, Bolonha, Varsóvia, Florença e Tel Aviv.
Sem nunca ter freqüentado os bancos
escolares, Waldomiro de Deus vai do cotidiano à religiosidade popular
com a mesma simplicidade e poder criativo. Folclore, crítica social,
religião, mundo aquático, preocupação com a política e personagens
que tiram os pés do chão são alguns de seus temas preferidos,
retratados com cores fortes e em uma ausência de perspectiva que cria a
impressão de que suas figuras pairam, muitas vezes sem proporção
dentro de uma lógica cartesiana, mas em disposições espaciais que
encantam desde o primeiro quadro.
Reconhecido hoje como um dos principais
pintores naïfs brasileiros, Waldomiro recebe numerosos elogios de críticos
nacionais e internacionais. Suas cores, seus temas, sua simbologia, sua
personalidade e religiosidade se entrelaçam e confundem. Ele tem no
cotidiano, como em notícias que vê pela televisão, sua grande matéria,
mas também pinta o que não vê, como planetas ainda não conhecidos
pela ciência ou astronautas brasileiros na lua, como fez no final dos
anos 1960.
Waldomiro não é um pintor. É vários.
Começou retratando o folclore e passou por foguetes, críticas sociais,
planetas, peixes e flores. Há também imagens sensuais e erotismo,
assim como pureza e encantamento de namorados. Tudo é motivo para ele
exibir uma técnica que aprendeu sozinho, sem nunca ter pisado numa
escola de qualquer espécie.
Expressão crítica da sociedade
contemporânea, a arte de Waldomiro merece uma maior divulgação. Seu
trabalho, talvez não facilmente digerível num primeiro momento, nem
sempre agrada, mas pelo menos incomoda, o que não é pouco no marasmo
atual da produção artística e cultural brasileira.
Waldomiro vai de uma Nossa Senhora com
Minissaia, quadro que o levou a ser perseguido pelas alas mais radicais
da Igreja Católica no final dos anos 1960, a uma alegórica travessia
do milênio com corpos e rostos morenos rumo a um utópico Brasil
socialmente harmônico do ano 2050.
Para o pintor baiano, a vida é tudo
menos estaticidade. Por isso, comporta-se como camaleão. Está sempre
mudando. Porém, enquanto o animal muda para não ser visto no ambiente
em que se encontra, fugindo dos predadores, Waldomiro de Deus funciona
ao inverso. Isso significa que muda antes do meio que o cerca.
Coloca-se, portanto, na vanguarda, esperando que os que estão ao seu
redor o sigam. Teremos essa capacidade?
Oscar D’Ambrosio