por Oscar D'Ambrosio


 

 



Ateliê Vivart

 

A arte da coerência

 

O filósofo e poeta norte-americano Ralph Waldo Emerson (1803-1882) dizia que “toda obra de arte genuína tem tanta razão de ser como a Terra e o Sol”. Em poucos casos, isso se torna tão verdadeiro como no trabalho realizado no Ateliê Vivart, sediado numa harmoniosa residência no paradisíaco Parque Nacional de Itatiaia, no Rio de Janeiro.

Emerson pregava o desprezo às riquezas materiais e a convicção de que a alegria era a melhor forma de se chegar a Deus. O casal responsável pelo Ateliê, formado pela artista plástica e designer carioca Miriam Leite, formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, e o artista plástico, tecelão, recuperador e transformador de materiais catarinense Dioclésio José dá claros indícios de acreditar nisso.

Uma visita ao Ateliê, em meio à vegetação nativa da Serra da Mantiqueira, é um momento inesquecível. É nesse ambiente, propício à reflexão sobre a existência do mundo, da natureza e do ser humano, que Miriam e José realizam seu trabalho. O cenário ideal serve não só como inspiração, mas como possibilidade de retirar de dentro de si o máximo do potencial artístico.

Dioclésio trabalha com a tecelagem, cujos referenciais mais antigos, produzidos a cerca de 7 mil anos, foram encontrados, em 1861, numa aldeia próxima ao lago Pfaefaknon, na Suíça. Uma pintura mural egípcia de 2 mil a.C. mostra equipamentos de fiação e tecelagem e um tear vertical é visto num vaso grego do século IV a.C.

O artista viveu em comunidades alternativas no interior de Goiás, Brasil, e optou por construir sua carreira fora de mostras competitivas regidas por princípios estabelecidos por críticos de arte. “Como uma pessoa pode avaliar a arte que brota do mais íntimo e das necessidades interiores de uma outra pessoa?”, indaga.

Ao utilizar teares manuais verticais de tradição indígena sul-americana, mais próprios para o trabalho com figuras geométricas, e puro algodão de várias espessuras, Dioclésio se afasta da tradição européia, que prefere teares horizontais, que também permitem um melhor trabalho com figuras. Cada obra exige um cuidadoso projeto de pontos e de relações de cores, pois é necessário calcular a quantidade de fios e proporções de cada tonalidade.

O resultado são bordados em alto relevo, de grande minúcia, cuidado e detalhe. Dioclécio cria assim centros de mesa, painéis, estandartes e tecidos, geralmente de presença forte no ambiente. Há em sua arte a mescla da ritualística indígena com a criatividade artística, num rico jogo entre a tradição e a contemporaneidade.

Miriam, por sua vez, pinta, realiza design de jóias e trabalha bastante com técnicas mistas. No Ateliê, além de expor trabalhos em pastel e da aquarela, destaca-se o seu trabalho com numerosas mandalas, cada qual com seu próprio significado. “Elas cultivam o equilíbrio psíquico, proporcionando o desabrochar de potenciais criativos”, afirma a artista. “São particularmente eficazes em situação de estresse físico, mental, emocional e/ou espiritual”.

As mandalas, palavra hindu que significa “círculo”, são formas geométricas rituais que, introduzidas no Tibet vindas da Índia, espalharam-se pelo Oriente como forma de contemplação e concentração. Em síntese, segundo o Dicionário dos símbolos, de Juan-Eduardo Cirlot, “a mandala cumpre a função de ajudar o ser humano a aglutinar o disperso em torno de um eixo”. “As cores e ritmos repousam a mente das atribulações e abrem espaço para a riqueza do silêncio interior. Desse mergulho em suas profundezas fecundas, emergimos com força restaurada e confiança renovada”, explica a artista.

O restante do trabalho pictórico de Miriam, que inclui paisagens e a série “Tribo Arco-Íris”, entre outras obras, mostra como a artista possui uma coerência e confiança em seu próprio trabalho em termos de busca do belo e de comunhão com a natureza, partindo daquilo que existe de bonito no mundo para atingir uma realidade artística igualmente encantadora.

A mencionada série “Tribo Arco-Íris”, por exemplo, inclui três telas compostas em técnicas mistas. Cada uma apresenta um resultado visual bem diferente, mas todas se coadunam na impressão causada no espectador. Um exemplo é o destaque dado por Miriam ao olhar das figuras. Muito mais do que espelhos d’alma, elas são retratos delicados de uma forma de conceber o mundo, voltada para a natureza e para aquilo que existe de verdadeiramente essencial.

A imagem mais sensível talvez seja o close de uma menina índia, com marcas de arco-íris próximas às bochechas. Além do olhar que mistura um ar infantil com uma expressão profunda, o caimento do cabelo, o formato do nariz e os lábios carnudos oferecem um painel dos traços indígenas e da mescla que existe neles de intensa personalidade e certa ingenuidade.

O fundo da obra, em listras irregulares horizontais azuis contribui para criar uma atmosfera vinculada justamente ao natural e ao misterioso. O homem branco, ao viver imerso em serras de prédios e rios de asfalto perdeu o contato que os povos indígenas naturalmente têm com as foras primordiais, seja uma cascata, um rio, um lago ou um pôr-do-sol.

Uma segunda imagem dessa série, com o mesmo vigor imagético, é a de um índio já adulto. Desta vez, as marcas de cores aparecem nas laterais do rosto e principalmente num adorno no pescoço do retratado. O olhar impressiona pelo orgulho, efeito obtido pelas sobrancelhas levantadas. Há na imagem um fascinante tom misto entre uma postura desafiadora e, ao mesmo tempo, ansiosa pelo diálogo. O fundo, em tom pastel, com leve sombreamento, mais contido, dá austeridade e respeitabilidade à imagem.

Essa ambigüidade dá às telas de Miriam grande riqueza interpretativa, além de demonstrar domínio técnico para criar as mais variadas expressões e olhares. Seus personagens falam pelo olhar e pelos traços, comunicando a grandeza de povos que desejam sobreviver em contato com o mundo branco, mas sem perder a sua identidade cultural.

Há uma terceira imagem chamada “Tribo do Arco Íris”, que ilustra a esperança de que o índio ganhe seu espaço em uma sociedade branca cada vez mais cansada de si mesma, que começa a dar os primeiros passos rumo a uma maior consciência de reciclagem de materiais, de combate à poluição ambiental e de respeito pela natureza, seja pelas belezas naturais da fauna e da flora ou pela cultura indígena.

No quadro, o arco-íris atravessa o rosto de uma jovem índia de cabelos longos. Os olhos bem abertos e o sorriso escancarado indicam, ao contrário dos trabalhos anteriores, uma postura mais otimista perante o presente e o futuro. Em torno de sua cabeça, uma espécie de halo azul esverdeado parece se expandir pela tela, contagiando o observador com uma dinâmica positiva de cores e traços.

O poeta e filósofo alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), ao refletir sobre o destino do ser humano já disse “À liberdade e à vida só faz juz/ Quem tem de conquista-las dia após dia”. Esse alerta é vivenciado no cotidiano por Dioclésio e Miriam. Eles vivem em comunhão com a natureza e manifestam, em fios e telas, a fusão entre o prazer de viver e a magia da arte.

O Ateliê Vivart é onde as tecelagens de Dioclésio José e as mandalas de Miriam Leite convivem. São diferentes expressões de um mesmo sentimento de integração ao meio ambiente. O trabalho do casal, genuíno como o pensamento de Emerson e consistente como o conceito de liberdade de Goethe, assegura assim o seu espaço artístico pela coerência, qualidade, perseverança e amor à arte.

 

Oscar D`Ambrosio é jornalista, integrante da Associação Brasileiro de Críticos de Arte (ABCA) e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).


 

 

 

 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar  Foto                                                                                              Abrir Foto

"Série Tribo Arco Íris"

( Miriam Leite)

Mista - 30x60  - 2000 -

Ateliê Vivart

 

 

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Galeria de Fotos

 

Oscar D’Ambrosio