Ateliê Vivart
A arte da coerência
O filósofo e poeta
norte-americano Ralph Waldo Emerson (1803-1882) dizia que “toda
obra de arte genuína tem tanta razão de ser como a Terra e o Sol”.
Em poucos casos, isso se torna tão verdadeiro como no trabalho
realizado no Ateliê Vivart, sediado numa harmoniosa residência
no paradisíaco Parque Nacional de Itatiaia, no Rio de Janeiro.
Emerson pregava o
desprezo às riquezas materiais e a convicção de que a alegria
era a melhor forma de se chegar a Deus. O casal responsável pelo
Ateliê, formado pela artista plástica e designer carioca Miriam
Leite, formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, e o
artista plástico, tecelão, recuperador e transformador de
materiais catarinense Dioclésio José dá claros indícios de
acreditar nisso.
Uma visita ao Ateliê,
em meio à vegetação nativa da Serra da Mantiqueira, é um
momento inesquecível. É nesse ambiente, propício à reflexão
sobre a existência do mundo, da natureza e do ser humano, que
Miriam e José realizam seu trabalho. O cenário ideal serve não
só como inspiração, mas como possibilidade de retirar de dentro
de si o máximo do potencial artístico.
Dioclésio trabalha com
a tecelagem, cujos referenciais mais antigos, produzidos a cerca
de 7 mil anos, foram encontrados, em 1861, numa aldeia próxima ao
lago Pfaefaknon, na Suíça. Uma pintura mural egípcia de 2 mil
a.C. mostra equipamentos de fiação e tecelagem e um tear
vertical é visto num vaso grego do século IV a.C.
O artista viveu em
comunidades alternativas no interior de Goiás, Brasil, e optou
por construir sua carreira fora de mostras competitivas regidas
por princípios estabelecidos por críticos de arte. “Como uma
pessoa pode avaliar a arte que brota do mais íntimo e das
necessidades interiores de uma outra pessoa?”, indaga.
Ao utilizar teares
manuais verticais de tradição indígena sul-americana, mais
próprios para o trabalho com figuras geométricas, e puro
algodão de várias espessuras, Dioclésio se afasta da tradição
européia, que prefere teares horizontais, que também permitem um
melhor trabalho com figuras. Cada obra exige um cuidadoso projeto
de pontos e de relações de cores, pois é necessário calcular a
quantidade de fios e proporções de cada tonalidade.
O resultado são
bordados em alto relevo, de grande minúcia, cuidado e detalhe.
Dioclécio cria assim centros de mesa, painéis, estandartes e
tecidos, geralmente de presença forte no ambiente. Há em sua
arte a mescla da ritualística indígena com a criatividade
artística, num rico jogo entre a tradição e a
contemporaneidade.
Miriam, por sua vez,
pinta, realiza design de jóias e trabalha bastante com técnicas
mistas. No Ateliê, além de expor trabalhos em pastel e da
aquarela, destaca-se o seu trabalho com numerosas mandalas, cada
qual com seu próprio significado. “Elas cultivam o equilíbrio
psíquico, proporcionando o desabrochar de potenciais criativos”,
afirma a artista. “São particularmente eficazes em situação
de estresse físico, mental, emocional e/ou espiritual”.
As mandalas, palavra
hindu que significa “círculo”, são formas geométricas
rituais que, introduzidas no Tibet vindas da Índia, espalharam-se
pelo Oriente como forma de contemplação e concentração. Em
síntese, segundo o Dicionário dos símbolos, de Juan-Eduardo
Cirlot, “a mandala cumpre a função de ajudar o ser humano a
aglutinar o disperso em torno de um eixo”. “As cores e ritmos
repousam a mente das atribulações e abrem espaço para a riqueza
do silêncio interior. Desse mergulho em suas profundezas
fecundas, emergimos com força restaurada e confiança renovada”,
explica a artista.
O restante do trabalho
pictórico de Miriam, que inclui paisagens e a série “Tribo
Arco-Íris”, entre outras obras, mostra como a artista possui
uma coerência e confiança em seu próprio trabalho em termos de
busca do belo e de comunhão com a natureza, partindo daquilo que
existe de bonito no mundo para atingir uma realidade artística
igualmente encantadora.
A mencionada série “Tribo
Arco-Íris”, por exemplo, inclui três telas compostas em
técnicas mistas. Cada uma apresenta um resultado visual bem
diferente, mas todas se coadunam na impressão causada no
espectador. Um exemplo é o destaque dado por Miriam ao olhar das
figuras. Muito mais do que espelhos d’alma, elas são retratos
delicados de uma forma de conceber o mundo, voltada para a
natureza e para aquilo que existe de verdadeiramente essencial.
A imagem mais sensível
talvez seja o close de uma menina índia, com marcas de arco-íris
próximas às bochechas. Além do olhar que mistura um ar infantil
com uma expressão profunda, o caimento do cabelo, o formato do
nariz e os lábios carnudos oferecem um painel dos traços
indígenas e da mescla que existe neles de intensa personalidade e
certa ingenuidade.
O fundo da obra, em
listras irregulares horizontais azuis contribui para criar uma
atmosfera vinculada justamente ao natural e ao misterioso. O homem
branco, ao viver imerso em serras de prédios e rios de asfalto
perdeu o contato que os povos indígenas naturalmente têm com as
foras primordiais, seja uma cascata, um rio, um lago ou um
pôr-do-sol.
Uma segunda imagem
dessa série, com o mesmo vigor imagético, é a de um índio já
adulto. Desta vez, as marcas de cores aparecem nas laterais do
rosto e principalmente num adorno no pescoço do retratado. O
olhar impressiona pelo orgulho, efeito obtido pelas sobrancelhas
levantadas. Há na imagem um fascinante tom misto entre uma
postura desafiadora e, ao mesmo tempo, ansiosa pelo diálogo. O
fundo, em tom pastel, com leve sombreamento, mais contido, dá
austeridade e respeitabilidade à imagem.
Essa ambigüidade dá
às telas de Miriam grande riqueza interpretativa, além de
demonstrar domínio técnico para criar as mais variadas
expressões e olhares. Seus personagens falam pelo olhar e pelos
traços, comunicando a grandeza de povos que desejam sobreviver em
contato com o mundo branco, mas sem perder a sua identidade
cultural.
Há uma terceira imagem
chamada “Tribo do Arco Íris”, que ilustra a esperança de que
o índio ganhe seu espaço em uma sociedade branca cada vez mais
cansada de si mesma, que começa a dar os primeiros passos rumo a
uma maior consciência de reciclagem de materiais, de combate à
poluição ambiental e de respeito pela natureza, seja pelas
belezas naturais da fauna e da flora ou pela cultura indígena.
No quadro, o arco-íris
atravessa o rosto de uma jovem índia de cabelos longos. Os olhos
bem abertos e o sorriso escancarado indicam, ao contrário dos
trabalhos anteriores, uma postura mais otimista perante o presente
e o futuro. Em torno de sua cabeça, uma espécie de halo azul
esverdeado parece se expandir pela tela, contagiando o observador
com uma dinâmica positiva de cores e traços.
O poeta e filósofo
alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), ao refletir sobre
o destino do ser humano já disse “À liberdade e à vida só
faz juz/ Quem tem de conquista-las dia após dia”. Esse alerta
é vivenciado no cotidiano por Dioclésio e Miriam. Eles vivem em
comunhão com a natureza e manifestam, em fios e telas, a fusão
entre o prazer de viver e a magia da arte.
O Ateliê Vivart é
onde as tecelagens de Dioclésio José e as mandalas de Miriam
Leite convivem. São diferentes expressões de um mesmo sentimento
de integração ao meio ambiente. O trabalho do casal, genuíno
como o pensamento de Emerson e consistente como o conceito de
liberdade de Goethe, assegura assim o seu espaço artístico pela
coerência, qualidade, perseverança e amor à arte.
Oscar D`Ambrosio é
jornalista, integrante da Associação Brasileiro de Críticos de
Arte (ABCA) e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor
naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).