por Oscar D'Ambrosio


 

 


  Vitória Basaia

           

            A casa de guardados

 

            Uma casa é muito mais que uma moradia. Trata-se do espaço pelo qual um indivíduo se relaciona com o mundo, seja pela forma dessa casa ou pelos objetos que são nela colocados. Em síntese, conhecer a casa de alguns artistas é talvez um dos passos mais essenciais para desvendar a sua relação com as pessoas próximas, as distantes, a rua e a sociedade.

            A casa de Vitória Basaia, nascida no Rio de Janeiro, em 1951, mas residente em Várzea Grande, Estado do Mato Grosso, exemplifica bem como uma artista pode expressar seu sentimento de viver por meio de trabalhos plásticos que vão progressivamente se acumulando dentro de uma lógica pessoal, em que cada peça e cada espaço ganham um significado próprio.

            Vitória oferece uma diversidade que fascina. Nascida do hábito de desenhar desde criança, ela se aventura por diversos caminhos, com destaque para a pintura com pigmentos naturais, que realiza sem a intermediação de pincel. Surgem daí seres fantasmagóricos, metade bicho metade gente a indagar os limites razão/emoção e consciente/inconsciente que nos acompanham.

            No entanto, a produção de Vitória não pára nas pinturas que pendura nas paredes. É nas bonecas de pano pintadas dos dois lados, em que a ingenuidade da criança se mistura com o erotismo de mulheres fatais e nos diversos objetos feitos com sucata, em que a imaginação se abre, inclusive, para trabalhos em que a abstração ganha espaço, numa espécie de  arte conceitual muito particular, que a artista atinge seus melhores momentos.

            Suas matérias-primas são as mais variadas. Incluem garrafas plásticas, fios, aparelhos eletrônicos, molas de colchões, enfim, tudo aquilo que muitas vezes é jogado fora inadvertidamente. Ela constrói o próprio mundo na casa e, nesse aspecto, as pinturas nos muros do jardim e as esculturas e rostos entre as folhagens ou em locais inesperados das paredes alertam para a possibilidade de conceber o espaço como a plenitude de uma proposta estética: a de que só existe a proibição do comodismo e da estaticidade.

Seja na criação de uma caixa com utensílios diversos ou em objetos cuja projeção de sombras nas paredes oferecem um verdadeiro fascínio visual, Vitória não conhece limites. Confessa, por exemplo, que já pintou e repintou paredes de sua casa, destruindo um trabalho para criar um novo.

            A sua estética é a do fazer. Guardar aquilo que faz em sua casa é uma conseqüência. Arquiteta assim uma caixa de guardados, que tem, como marco a primeira exposição individual, 1989, já em Vargem Grande. O nome diz tudo: “Basaia se Atreve”, sendo um indício da ousadia que acompanha e caracteriza a artista até hoje.

            Há em Vitória Basaia a estética do atrevimento, da inquietação e do não-conformismo. Sua casa é justamente o espelho que reflete isso. Ali, ela refrata o mundo à sua maneira, com especial felicidade quando se vale dos tons mais escuros, que brotam da sua relação não só com a terra, mas com aquilo de visceral que se evidencia em seu trabalho: uma certa ancestralidade arquetípica voltada para o poder de sedução da construção de formas agradáveis ao olhar.

            A estética dela, embora trabalhe com elementos fálicos em boa parte das obras, não é agressiva, por paradoxal que isso possa parecer. Sua reflexão sobre a conservação da vida, a passagem do tempo e os limites entre o que vemos e o que imaginamos supera qualquer pensamento simplista.

            A casa de Vitória Basaia guarda em seus baús reais e simbólicos o próprio tempo de criar e de existir. Sua poética é a de nada deixar estático ou não-aproveitado. Seu compromisso é o de produzir sempre e de surpreender a si mesma e aos outros com suas soluções. Cada parede, corredor e canto da casa exerce essa função com primor.

O cosmos da artista se estabelece pela maneira de re-criar o mundo e dar-lhe novas dimensões, marcadas pela poesia do ato de ver o novo no antigo e a possibilidade no descartado. O resultado é uma casa que vale pelo que guarda, em paredes, baús e cantos.

Ela amplifica ainda seu poder pelo que esconde em termos de idéias e conceitos, que saem da mente de Vitória para a visibilidade restrita do seu mundo privado e, no mundo público, embora ainda importantes, perdem seu caráter original, infinitamente mais significativo na casa de uma criadora que se movimenta intensa e incessantemente 24 horas sete vezes por semana, numa jornada de tempo integral devotada à arte e ao pensamento que tem como manifestação concreta a construção de uma casa fascinante e de uma arte de qualidade.

           

Oscar D’Ambrosio mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 

 

 

 

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