por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Vinícius Manoel

            Desvestindo as casas

             Kitchnest, Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Vinícius Manoel para a obtenção do Bacharelado em Artes Plásticas no Instituto de Artes da UNESP, sob orientação do docente Milton Sogabe, é muito mais que uma produção de retratos e auto-retratos digitais. O conceito é mostrar pessoas vestidas com objetos das próprias casas, compondo metáforas e, por meio da imagem, eternizar a sua existência.

            Isso é feito num clima que aponta para o desenvolvimento de uma poética diferenciada em seus melhores momentos, embora a parte intitulada “E é tudo real”, por exemplo, esteja fortemente marcada, de forma consciente ou não, por ecos de diversos contos do escritor Ricardo Ramos, principalmente de Circuito fechado, apesar de o filho de Graciliano se valer de uma concisão ainda maior.

            O TCC passeia pela história do retrato e suas ligações com a distinção social e a preservação da memória. Nesse sentido, são apontados três momentos: Concepção do sujeito do Iluminismo, Sociológico e Pós-moderno. Falta, porém, a discussão teórica desses momentos, assim como uma melhor exemplificação.

            Afirma-se ainda que três tipos de legado estariam, de alguma maneira, presentes no trabalho, como uma espécie de pais do trabalho de Vinícius: a “forma”, o “conceito” e a “síntese”. Quanto à primeira, o salto de Albert Eckhout  para osgemeos (esta é a grafia que o grupo adota, com letra minúscula, sem espaço entre o artigo masculino plural e o substantivo e em letra minúscula) mereceria uma maior explicação.

            No que diz respeito ao “conceito”, Hélio Oiticica e Movimento Abravanation são citados, mas seria de bom tom, e se tratando de um trabalho acadêmico, explicitar melhor as pontes entre essas duas referências e o trabalho do artista. O mesmo vale para a “síntese”, pois não são mostrados elos entre os artistas citados e o trabalho de Vinícius.

            Em relação às imagens propriamente ditas, somos informados que a primeira é de 7/09/2006, e que o termo kitschnet vem da junção de kitsch, estética aliada ao exagero, e a nest, “ninho”, em inglês. A pronúncia alude ainda a kitnet, moradia idealizada geralmente para um morador.

            O conjunto de fotos revela então pessoas, sozinhas ou em grupo, que posam com objetos de suas casas, compondo, com diversas vestimentas, perfis existenciais de si mesmas. O corpo vira suporte de uma série de significados que poderiam, talvez, ser oferecidos ao leitor do trabalho de uma outra maneira, com uma descrição dos objetos e de suas simbologias para aqueles que posaram para o projeto.

            Também poderia ser interessante incluir no TCC, talvez como anexo,  depoimentos dos fotografados. Seria valioso saber o que eles sentiram durante a experiência, assim como por que escolheram determinados objetos e roupas, além das motivações que os levaram a auxiliar Vinícius em seu projeto.

            Quase ao final, há uma referência à literatura memorialística e confessional cada vez mais presente no mundo contemporâneo. O aprofundamento dessa idéia seria bastante rico para uma discussão mais ampla das potencialidades do trabalho.

            Feito isso, rendados que lembram a pintura retratista holandesa, sapatos na cabeça, eletrodomésticos em posições inusitadas, alusões a personagens medievais, casais que partilham conosco a intimidade de seus objetos pessoais, mulheres entre a sedução e a miséria, evocações do mundo vitoriano, uso de objetos e cores como recurso plástico, caras e caretas expressivos e paródicos, além de imagens que brincam e dialogam com as figuras de santas a partir de referências cotidianas de uma casa, poderiam ser apresentadas em uma nova perspectiva.

            Os retrato que desvestem casas seriam não só objetos plásticos para observação e diversão, mas, principalmente, imagens que podem servir como fonte de motivação para uma reflexão mais aprofundada sobre o próprio processo de trabalho. O ato de decifrar a escolha de elementos nos dois eixos, o sintagmático e o paradigmático, nesse aspecto, poderia ser um caminho a ser seguido.  

De fato, o trabalho possui uma dimensão artística e sociológica de revelação de sentidos, de personalidades e de visões de mundo que mereceria ser melhor tratada. A idéia é excelente, mas a forma de sua apresentação precisaria de uma revisão em alguns dos pontos indicados para explorar a sua elevada potencialidade artística.

            Se a “forma” escolhida e a “síntese” parecem se desenvolver de uma maneira muito coerente dentro dos parâmetros estabelecidos, o “conceito” que o trabalho traz poderia, talvez, ser melhor elaborado no sentido de um maior aproveitamento da idéia apresentada.

Nesse aspecto, uma pesquisa simbólica dos objetos escolhidos pelos integrantes de cada foto e os mencionados depoimentos poderiam ser de grande interesse. Trata-se de uma observação que, talvez, possa vir a ter algum valor para a continuidade do trabalho que, por si mesmo, apresenta um resultado plástico de inegável beleza e impacto, que espera por novos e maiores desdobramentos

           

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

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 Álex 1 (Alesssandra Bochio)
Foto digital 2006

Vinícius Manoel

 

 

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