por Oscar D'Ambrosio


 

 


Vida Coletiva

 

            O quarto Seminário Internacional anterior à 27ª Bienal de São Paulo, intitulado Vida Coletiva e realizado nos dias 4 e 5 de agosto de 2006, teve a coordenação da curadora-geral do evento, Lisette Lagnado. O grande tema foi a possibilidade de viver junto e de viver só e suas numerosas vertentes na vida e, principalmente, na arte.

            Nesse sentido, ela lembrou bem as dificuldades de se viver bem junto ao outro, alertando ainda para a necessidade conceitual de se diferenciar a política, como entidade necessária e saudável, dos políticos, com suas mazelas individuais ou em benefício de pequenos grupos.

            O artista Helio Oiticica foi exaltado como um propositor de idéias, como a explosão da moldura, que exigia um observador participativo. Seus anos em Nova York, de 1970 a 1978, foram lembrados como um período de importantes acontecimentos de arte urbana.

            O encontro de Oiticica com o arquiteto e artista plástico Matta-Clark foi rico. O criador brasileiro, por exemplo, transformou a fotografia em uma performance em que foram captadas imagens do banheiro ou de fragmentos de  asfalto. A questão de fundo dessa discussão seria como melhorar a qualidade de vida das pessoas. A democracia, realizar-se-ia na divergência e na desavença civilizada.

            Documentarista e cineasta, Jane Crawford discorreu sobre “Gordon Matta-Clark e o mundo artístico de NYC nos anos 70”. Viúva do artista, ela lembrou que seu ex-marido provavelmente foi bastante influenciado pelo brasileiro Helio Oiticica na decisão de liderar o boicote à Bienal de São Paulo de 1971 devido ao regime militar instaurado no País.

            Filho de Roberto Matta, pintor surrealista chileno, Gordon viveu no bairro do Soho, em Nova York, numa atmosfera marcada pela Guerra do Vietnam, impopular entre os jovens, que eram arregimentados para combater uma luta de vitória quase impossível. Além do mais, eles viviam um momento marcado pelo uso do anticoncepcional e pelas drogas.

            Arquiteto, conviveu com muitos artistas estrangeiros que estavam nos EUA num ambiente em que absolutamente tudo era questionado, inclusive o conceito de museu. O objetivo era colocar as manifestações artísticas na rua. Não se esperava que os jovens fossem às instituições, mas sim que quadros ou outras formas de interpretações do mundo se aproximassem da população.

            Isso ocorreu num momento de enfraquecimento da economia da cidade, com diversas empresas buscando locais com impostos mais baratos que Nova York para servir como sedes. O numero de terrenos abandonados tornava-se cada vez maior, com muitos desempregados e sem-teto.

            A região se deteriorava gradativamente e alguns artistas começaram a ocupar depósitos vazios da região do Soho. Eles viviam tentando provar a si mesmos e ao mundo que eram artistas. Com pouco dinheiro, formaram autênticas coletivas, em que um participava da obra do outro livremente.

            Esses artistas estabeleceram um circuito alheio ao das galerias e faziam obras que muitas vezes, pelas suas próprias características, fosse do espaço ou do material, não podiam ser vendidas. Surgiu assim a primeira galeria cooperativa de Nova York, com exposições que muitas vezes duravam de 7 a 10 dias apenas.

            A segunda região a ser ocupada artisticamente foi o Bronx. Prédios abandonados começaram a sofrer intervenções. E estas discutiam o próprio conceito de arte. Tratava-se de um exercício de arqueologia urbana que resultou em experiências fantásticas, como promover uma refeição embaixo da ponte do Brooklin com os sem-teto.

            Matta-Clark, nessa ocasião, a partir de garrafas de cerveja e vinho, mostrou como era possível fazer tijolos de vidro para construir casas. Utilizava ainda a comida como forma de sedução, para chamar públicos diferenciados para ver arte. Nessa filosofia, até montou um restaurante, onde cerca de 100  artistas trabalharam, arrecadando dinheiro para se manter ou financiar exposições.

            Ao falecer, em 1978, Matta-Clark não chegou a vivenciar a transformação do mercado de arte dos anos 1980, quando as comunidades de artistas começaram a se dissolver e prevaleceu a busca de sucesso nas galerias, principalmente as européias. A rivalidade, nesse momento começou a aumentar – e o desejo individual de sucesso superou a harmonia da coletividade.

            Celso Fernando Favaretto, professor da Faculdade de Educação da USP, discorreu sobre “60/70: viver a arte, inventar a vida”. Apontou que, até 1964, a sociedade brasileira viveu um momento de intensos debates culturais. De 1965 a 1968, após o Golpe militar, o espírito foi de indignação, enquanto, nos anos 1970, ganharam muito espaço as manifestações alternativas comunitárias.

            Havia no ar o desejo de participação de grupos e de vivenciar novas possibilidades. O espírito não era de criar imperativos, mas de semear situações em que a arte capacitasse a compreender e modificar a realidade perante a recusa à sociedade burguesa e tecnológica.

            Existia ainda uma defesa da liberdade para criação. O nexo entre arte e vida cotidiana era forte, estimulando-se a crítica da arte como um todo e de cada obra de arte especificamente. As obras coletivas eram valorizadas como maneiras de expressar prazeres e desejos, num ambiente em que a droga, o sexo livre, o misticismo oriental e a marginalidade, como a umbanda e o candomblé, ganhavam espaço.

            Se a guerrilha era a tônica dos anos 1960; nos 1970, ocorre a expansão da sensibilidade em diversos aspectos. A arte comprometida da década anterior cede lugar a uma busca de respostas estéticas que contestava a produção em massa. A vida é concebida como arte e posturas ética e estética caminham juntas.

            A arte passa a ser vista como trabalho de uma comunidade, não apenas de um indivíduo. A transgressão, presente no filme O bandido da luz vermelha, no tropicalismo baiano e na montagem de O rei da vela, carrega uma proposta transformadora em que as experiências alternativas, presentes hoje no hibridismo cultural, foram fundamentais.

            Jeanne Marie Gagnebin, professora de Filosofia da PUC-SP, ao perguntar “Como viver junto?”, colocou questões essenciais sobre as dificuldades de ser estrangeiro em uma comunidade. Enfatizou que tanto “pertencer a uma comunidade” como “ser estrangeiro” a uma delas constituem fantasias que o imaginário de cada pessoa e de cada sociedade vão construindo.

            O homem urbano isolado, por exemplo, já foi enfocado por poetas como Baudelaire e cineastas como Chaplin, em Tempos modernos. Para Jeanne, tanto o excesso de proximidade como o de distância atrapalha as relações. A destruição da individualidade pode ser tão perigosa quanto a sua exacerbação.

            Pessoas próximas, mas estranhas entre si, conduzem a uma solidão muitas vezes produtiva artisticamente. O excesso de estímulos contemporâneos, por exemplo, poderia levar a mudanças constantes de visão ou a uma frieza e hostilidade perante tudo aquilo que é novo.

            Assim, o isolamento do estrangeiro não passaria, de certo modo, do isolamento do indivíduo perante uma sociedade multifacetada e controversa. Manter a sanidade mental e artística perante esses conflitos constitui um desafio não só do criador, mas de cada cidadão.

            Catherine David, lingüista e historiadora da arte, que já foi curadora da Documenta X de Kassel, defendeu a postura da arte contemporânea como essencialmente manifesta na atividade de provocar o observador e abrir novos espaços para o fazer artístico. Para ilustrar, tomou trechos de filmes do videomaker português Pedro Costa.

            Yuko Hasegawa, curadora-chefe do Museu de Arte Contemporânea em Tóquio, apontou que, entre o individual e o coletivo, há um ego dominado, a partir do século XX, pelo dinheiro e pelo materialismo. Ela propõe, então para o atual século, uma sociedade regida pela coexistência, inteligência coletiva e conscientização de si mesmo e do estar no mundo.

            Somente a colaboração mútua reduziria as diferenças entre nativos e imigrantes.  A relação entre os limites que podem ser estabelecidos entre os indivíduos e os grupos precisaria levar em conta o espaço em que esses elos ocorrem. Nenhum território, no atual mundo globalizado, pode ser visto como uma ilha.

            O desejo de privacidade de cada pessoa, seja ela artista ou não, esbarraria numa questão fundamental: o espaço interno pode ser externo, assim como este último também pode ser um refúgio de privacidade. Partilhar mundos particulares, nessa perspectiva,  talvez possa ser visto como a maior dificuldade de viver junto.

            Peter Pál Pelbart, professor da PUC-SP, na conferência “Como viver só”, alertou para a falta de comunicação da vida moderna. Surgiria daí uma solidão existencial. Paradoxalmente, ninguém estaria suficientemente só para conviver com a própria solidão e se reconciliar com ela, já que cada pessoa sofre as conseqüências de um excesso de comunicação.

            Encontrar pequenos “vácuos” de solidão e silêncio seria uma tarefa difícil. Por isso, os falsários sobreviveriam melhor na atual conjuntura, já que participam de um constante jogo em que a hipocrisia é a principal característica dos aparentes “vencedores”.

            A burguesia hegemônica, de acordo com Pelbert, levaria uma “vida besta” e medíocre, como colocara James Joyce em seu Ulisses, onde o protagonista, Bloom, leva uma vida marcada por uma existência comum, sem nenhum tipo de profundidade, pois tudo ao redor não passaria de mercadorias intercambiáveis.

            As emoções dariam lugar ao mencionado vácuo existencial. Sem alegria ou sofrimento, o ser humano caminharia sem alegrias ou sofrimentos, feito zumbi, sem estabelecer uma diferença entre o viver e o sobreviver. Seriam criadas coletividades com indivíduos sem singularidades.

            Estabelece-se assim um progressivo desligamento do mundo, que gera uma certa angústia. A vida começa a não ter muito sentido quando se considera que os dias não passam do cumprimento de pedágios comerciais e de participação em uma sociedade digital.

            A solidão em que cada um vive marca distâncias e as pessoas sem comunidade tornam-se, mesmo que não queiram ou percebam, uma comunidade. Mesmo a pessoa responsável que se destaca individualmente por um heroísmo qualquer, logo é absorvida pelo sistema apático, que desnuda e elimina as suas individuações.

            Nessa ilusão de coletivo, não há espaço para o solitário. Mesmo este precisa enfrentar o “viver junto”. O solitário, nessa visão, pode ser solidário, pois seu destino, à medida em que mergulha em si mesmo, é encontrar a densidade de conexões com o mundo.

            Cada um, portanto, de acordo com a sua singularidade, poderia relacionar-se com o mundo. O grande desafio do “viver só” é que ele se aproxima do “viver junto” muito mais do que o solitário pode imaginar num primeiro momento. Nesse movimento dinâmico, compartilhar a solidão torna-se um desafio.

            O ritmo e a temperatura do viver junto e do viver só foram progressivamente discutidas ao longo do seminário no sentido em que a própria arte também levou a uma migração do indivíduo espectador para um ser participante. Portanto, o isolamento absoluto e a observação distanciada significam um mergulho denso em si mesmo, que leva justamente ao conhecimento do outro e à participação total das comunidades de que cada um, consciente ou inconscientemente, participa.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pela UNESP e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 

 

 

 

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio