por Oscar D'Ambrosio


 

 


Vicente Rozados

 

            Arte em pelúcia

 

            Do latim pellutium  e do italiano peluzzo¸ a pelúcia é a matéria-prima do artista argentino Vicente Rozados na exposição Instalação/Objetos, realizada na Galeria Thomas Cohn, em São Paulo, SP, de 19 de novembro a 17 de dezembro de 2005. A partir de pelúcia aplicada sobre MDF recortado em dimensões variáveis, construiu um curioso e rico mundo imaginário.

            Cabe primeiro lembrar que a pelúcia é um tecido de lã, algodão ou fibra sintética com um lado liso e outro felpudo, que apresenta pêlos mais longos e ralos que o veludo. Além do seu impacto estético propriamente dito, o material é logo associado com a infância – afinal, quem não teve ou desejou possuir um animal feito desse material para brincar?

            A questão é que o material, associado aos primeiros anos da vida, ao feminino – principalmente quando cor-de-rosa – e ao mundo do imaginário infantil de cada um de nós, ganha, com Rozados, novas conotações, principalmente irônicas, na forma de dispor a pelúcia e da associação entre as imagens.

            Chama especial atenção a presença de pequenas rãs, com corpo verde, patas em vermelho e olhos negros. Além da atração visual que exercem, surgem como elementos ambíguos (entre a terra e a água) que ilustram bem a forma como o artista plástico compõe as suas imagens.

            Elementos imprevistos aparecem em diversas cenas, como a de dois homens – um deles de chapéu – próximas a uma das rãs, que é espetada com uma flecha pelo homem agachado. A montagem deixa a ambigüidade se ela está sendo espetada ou se recebe cócegas na região da barriga.

            Enfim, esse tipo de pergunta ocorre igualmente com uma gueixa próxima a uma árvore que parece um bonsai gigante. Na copa, diversas crianças em amarelo, azul e vermelho; nas mãos da mulher, a mesma flecha e uma rã segura por uma das patas, em posição nada confortável.

            Curiosamente, cenas que poderiam ser bucólicas e delicadas têm interferências que remetem a novos elementos e sugerem novas leituras. É o caso da mulher que acaricia um pônei e, ao lado dela, está um porco com coleira e com as patas amarradas. A mistura entre o humor e certo gosto pelo grotesco estimula a observação atenta de cada trabalho.

            Uma figura que parece ser uma feliz síntese do trabalho de Rozados é a de um fotógrafo com a máquina em ação perante um grupo de duas mulheres e um homem em confraternização social. Entre os três surge um animal negro pronto a lamber o sapato vermelho de uma das mulheres – vale ressaltar que o outro é amarelo.

            Na quebra da lógica, que aponta para associações livres ou oníricas dentro do espírito surrealista, o trabalho de Rozados se sustenta por três fatores entrelaçados: o uso de um material pouco utilizado nas artes plásticas, a composição de cores, às vezes bastante inusitadas e impactantes, e o tamanho das figuras, muitas em escala próxima ao natural.

            Por tudo isso, a primeira exposição individual do artista plástico argentino, que anteriormente já havia participado de várias coletivas, constitui um exercício visual de inegável importância para sua carreira, marcada pela capacidade de combinar ousadia com criatividade.

O desafio é continuar surpreendendo os observadores, seja na escolha dos materiais ou na seleção de personagens, como as rãs, plantas em vasos e outros elementos que se abastecem da pintura ocidental, como A leiteira, de Veermer,  do Oriente, como a gueixa, do cotidiano rural, como o porco,  e do universo infantil, como o pônei. A composição e comunhão desses elementos faz a diferença.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

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   Instalação
Objetos pelúcia aplicada sobre mdf recortado dimensões variáveis 2005

Vicente Rozados

 

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