por Oscar D'Ambrosio


 

 


Veredas da Pop Art brasileira

 

A Pop Art no Brasil ganhou características próprias. Se, na Inglaterra e nos Eua, ela foi muito mais uma incorporação de elementos da sociedade de consumo e muito menos uma crítica social, no Brasil, que vivia, nos anos 1960, a ditadura militar, ocorreu exatamente o contrário.

Ela começou como uma forma de combater o autoritarismo e, em seguida, a partir dos anos 1980, com a abertura, cada artista seguiu o seu caminho. É o que vamos verificar com breves panoramas contemporâneos de Cláudio Tozzi, Rubens Gerchman, Wesley Duke Lee e Aguilar, alguns dos principais representantes da Pop Art nacional.

 

            Cláudio Tozzi

A construção das cores

 

            O artista plástico Cláudio Tozzi já foi chamado de “Chico Buarque das artes visuais”, pela poesia que existe em seu trabalho, “Midas da pintura moderna brasileira”, pelo sucesso que consegue em tudo o que faz, e “Poeta da produção industrial”, pela facilidade com que lida com diversas técnicas.

            Atualmente, trabalha com escadas imaginárias. Elas são a entrada para um mundo pictórico, não para casas ou edifícios. Podem ser retas ou ter angulações, mas mantém os principais elementos da pesquisa com a cor e a forma que caracterizam o artista. Elas não levam para lugar algum, a não ser para a consciência da harmonia plástica que a arte consciente propicia.

            Quando vemos casas em Tozzi, estamos perante um jogo de justaposição de cores para a criação de efeitos pictóricos marcados pela delicadeza e refinamento. Elas não são identificáveis como objetos do mundo real, mas como imagens pictoricamente erguidas.

            Da casa, o artista plástico parte para as fachadas. São mostradas em tons ocre ou ainda com sutis jogos cromáticos de amarelo, verde e azul. Mais do que elementos de uma residência, são composições visuais, que conduzem à reflexão do artista em se aproximar cada vez mais de uma arte que dispensa os referenciais do mundo real.

            O passo seguinte nessa construção são os telhados. Se, por um lado, pode-se dizer que evocam o passado, principalmente o das moradias antigas de São Paulo ou de algumas cidades históricas periféricas; por outro, observa-se, com mais interesse, a maneira como a construção visual provoca no observador uma sensação de leveza.

            As cores mais quentes e contrastantes dos trabalhos com o título genérico de Cidade utilizam maiores massas de cor e contornos mais espessos. A cidade ganha peso em seus edifícios. Mas a referência arquitetônica se perde quando se percebe que o artista paulista não fala explicitamente do espaço urbano, mas apenas o utiliza como ponto de partida para a sua arquitetura visual.

 

 

            Rubens Gerchman

            O escritor Ramón Gómez de La Serna (1888-1963) dizia que “às vezes o beijo não passa de um chiclete partilhado”. A frase ganha novas possibilidades de interpretação perante o trabalho atual do artista plástico Rubens Gerchman. O pintor, desenhista, gravador e escultor oferece uma excelente oportunidade de reflexão sobre o significado de sua obra, principalmente quando se leva em conta sua ampla experiência internacional, com passagens por México, Guatemala, EUA e Berlim.

            Há em Gerchman um desafiante processo de rejeição da mesmice e a presente exposição confirma isso ao mostrar alguns dos temas preferidos do artista, como o beijo, dentro ou fora de carros, bicicletas e cenas de multidão. Estão expostos exemplos de pintura, gravura e trabalhos em diversos materiais como quartzo cinza e azul, além de cobre e caixas de madeira com diversos objetos dentro.

            Evidencia-se assim um artista com fobia a tudo o que é estático. Seu pensamento em ebulição constante propicia um sem-número de beijos, nas mais variadas posições e ambientes, numa procissão de encontro de almas, já que as bocas que se juntam em Gerchman são muito mais do que duas bocas se tocando.

            A riqueza das possibilidades que cria reside em mostrar ao observador como um mesmo tema pode não se esgotar se houver capacidade de recursos. Seja na gravura ou na pintura, cada beijo traz consigo um novo tom ou elemento diferenciador. O assunto funciona como o pretexto temático para uma experiência plástica – é isso não é pouco.

            Quando se pensa em escultura, a diversidade de materiais aponta para uma prática não muito comum de ser encontrada nos artistas plásticos contemporâneos, muitos deles aparentemente acomodados quando uma fórmula encontra aceitação de mercado ou de crítica.

            Gerchman permanece inquieto ao longo da carreira e isso se deve, em boa parte, ao fato de encarar cada composição plástica como um desafio. O conjunto desta exposição evidencia essa mente para a qual o único pecado é deixar de pensar, de refletir e de conceber a arte como uma forma criativa de enfrentar os problemas que o mundo apresenta e propõe na forma de infinitas interrogações existenciais.

 

            Wesley Duke Lee

            A essência da arte

 

            Heidegger, em seu ensaio A origem da obra de arte, aponta que “qualquer que seja a solução, a pergunta sobre a origem da obra de arte se transforma na pergunta sobre a essência da arte”. O trabalho de Wesley Duke Lee  remete a esse pensamento do filósofo alemão, uma excelente e esquecida sugestão de possibilidade de entrada para o estudo de artes plásticas.

            Pintor, desenhista, gravador ou artista gráfico, esse paulistano nascido em 1931, realizou as mais diversas atividades plásticas, sempre com o compromisso com a originalidade e a irreverência, mas sem perder de vista a qualidade de seu trabalho e o cuidado na forma de melhor apresentá-lo.

            Uma das suas primeiras referência de Wesley foi Karl Plattner, que viveu em São Paulo, nos anos 1950, formando diversos pintores brasileiros. Do mestre italiano, com um trabalho importante no estudo do corpo humano, Duke Lee retirou importantes informações estéticas para o prosseguimento de sua obra.

            Há nele atmosfera medieval, certo romantismo e a predominância de ocres, responsáveis pela “melancolia” do título. Existem ali, no entanto, acima de tudo, formas plásticas de composição que remetem a dois ícones da arte mundial.

Em 1963, com Pedro Manuel Gismondi, Wesley criou o movimento Realismo Mágico, que propunha olhar o mundo a partir dos elementos mágicos que energizam a realidade objetiva. A interrogação sobre o real de Wesley dá origem, em 1965, no João Sebastião Bar, em São Paulo, SP, a sua exposição Ligas, o primeiro happening brasileiro.

Esse processo criativo revela a grande característica  plástica de Wesley Duke Lee, a inteligência formal. Ele nunca adorou a arte em si mesma como uma deusa do conhecimento, pronta a justificar todo, mas sim como um caminho para questionar o que significa ser artista, o que é arte de qualidade e os próprios dilemas da existência humana.

            Duke Lee não caiu nessa armadilha. Boa parte de sue trabalho plástico é feito a partir da justaposição de segmentos de memória. E aí temos desde a Idade Média até a mitologia grega. O assunto, novamente, é o menos importante. A diferença do trabalho do artista paulistano reside na forma como as lembranças pessoais e coletivas são apropriadas e devolvidas ao observador, que não permanece indiferente.

            Se o artista se vale ainda de anotações anárquicas, elas não indicam surrealismo no sentido de uma irracionalidade, mas sim uma falta de ordenação baseada no princípio de que o poder em si mesmo existe para ser destruído. A desordem de Wesley é uma forma de indagar a ordem instituída.

            A gestualidade solta é o rei, e técnicas como assemblage, frottage, fotografia e fotocópia são um conjunto de rainhas. O assunto pode ser erótico, político, filosófico ou mitológico. Vale tudo, desde que não se perca a habilidade artística. Sua pintura de qualidade, convida a um mergulho que abre portas, janelas e pontes para alcançar salões e torres onde os dragões são vencidos pela lança iluminada do talento.

            O conhecimento das técnicas do passado, aliado à capacidade de sempre estar a imaginar novas situações, com processos atualizados, permite a renovação constante de seu repertório. Mitologia grega, Idade Média, Renascença, como os trabalhos que tomam Leonardo da Vinci como referência, Pop Art e numerosos procedimentos atribuídos à modernidade se fazem presentes, das formas  mais variadas em Wesley Duke Lee, um artista muitas vezes visto nas enciclopédias e sínteses apenas como um criador ligado à Pop Art, aposto que não lhe faz, de longe,  a merecida justiça histórica.

 

            Aguilar

            Um homem e suas bandeiras

 

            O que há de realismo e o que existe de fantasia na obra do artista Aguilar? Esta pergunta sempre me acompanhou ao conhecer as suas variadas dimensões, seja ao trabalhar com suportes mais tradicionais, como a tela, ou ao realizar performances em que as mais diversas artes se mesclam em autênticas óperas marcadas de energia visceral.

            Seus trabalhos mais recentes tem como  ponto de partida as bandeiras dos Estados brasileiros, o próprio pendão do País e palavras retiradas do Hino Nacional. O movimento que Aguilar alcança a partir desses objetos impressiona pela capacidade de mobilização interna que gera no espectador. Ele desmonta o Brasil que cada um tem na cabeça e propõe um novo, absolutamente pessoal. Surge um mapa fantástico renovado com cores interiores.

            Instaura-se assim um realismo fantástico. Embora o conjunto das bandeiras inusitadas e das palavras do hino plasticamente retrabalhadas tenham uma dimensão questionada, há um referencial concreto em xeque que se chama Brasil e, além disso, existe uma dimensão ainda mais importante: Aguilar nos obriga a esquecer o Brasil tal qual o conhecemos.

            As alusões visuais a Jackson Pollock e a sua action painting são evidentes, mas funcionam como recordações de um período artístico em que pecar era não arriscar e limitar-se era o caminho para o inferno. O perigo de conter as emoções e reprimir-se parece ser o maior alerta de Aguilar ao longo de seu trabalho e, principalmente, em suas bandeiras.

            Nas pinturas de grandes dimensões, como as Bandeira dos Visionários, observa-se todo o talento de Aguilar em pensar alto. Suas imagens gritam pela nossa visibilidade. São um chamamento energético por alguns momentos de atenção plástica. A que tem como tema Getúlio Vargas constitui uma Via Láctea em meio às cores nacionais. Não há indiferença que resista.

            Nascido em 1941, em São Paulo, SP, ele nos oferece uma capacidade de indagação permanente que não é pouco, numa sociedade cada vez mais globalizada e conformada com horas por dia de sonolenta televisão e pouca efervescência cultural. Nesse sentido, cada bandeira é um soco no estômago de poder revolucionário, não daquele feito com uma arma na mão, mas daquela que trabalha com idéias na mente e no fígado.

            As bandeiras, assim como o Circo Antropofágico e a Banda Performática, são aspectos de um mesmo Aguilar: o homem- arte. Seja em vídeo seja em pintura, seu desejo é mostrar que o inconformismo e a rebeldia só valem a pena se puderem ser praticados de alguma forma.

            Levando em conta que uma bandeira identifica uma nação ou um partido, sendo, tradicionalmente um pedaço de pano com uma ou mais cores, às vezes com legendas ou símbolos, o que Aguilar propõe comporta um conceito libertador. Enquanto o símbolo, oprime, porque se cristaliza, suas bandeiras, que seguem impulsos e regas realisticamente fantásticas por serem absolutamente individuais, abrem possibilidades de interpretação.

            Descortina-se um novo mundo em cada Estado. Ao sair da exposição, todos se tornam visionários. Pode ser um nova cidade, país ou um universo – pouco importa. Foi criada, pelas bandeiras semeadas em cada mente, um grão de incômodo. Tomara que outros e novos A(a)guilares as façam frutificar.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

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