Vera
Giorgi
Criação de atmosferas
O escritor francês Jules Renard
(1864-1936), em seu Diário, afirma que toda arte está em
“nunca estar satisfeito”. O trabalho da artista visual Vera Giorgi
consiste em boa parte nessa saudável e eterna insatisfação, buscando
novas soluções para os mesmos problemas que acompanham a construção
de um pensamento plástico.
Em termos gerais, pode-se dizer que
as obras, apresentadas de 15 de março a 10 de abril de 2006, na Mônica
Filgueiras Galeria de Arte, em São Paulo, SP, utilizam a interferência
de materiais como fios de cobre, vidro e peças para computador sobre
papel, madeira, ferro, acrílico ou PVC.
Mas isso é
muito pouco quando se deseja penetrar no mundo plástico criado por essa
paulistana nascida em 1955. Seu segredo está na mescla, em alguns de
seus mais significativos trabalhos, de materiais bem diversos para
instaurar uma realidade quase onírica, não no sentido surrealista do
termo, mas do estabelecimento de um mundo próprio, único e especial.
O uso de
fios de bronze, nesse aspecto específico, é de grande riqueza plástica
e gera agradável efeito visual. Pode ser visto, se o observador busca
um referente conhecido e concreto, uma floresta vista de cima, mas tal
interpretação empobrece o que o trabalho de Vera tem de melhor; o
encantamento das combinações de formas para estabelecer atmosferas.
Cada
trabalho chama para uma aproximação instigante. Se as obras funcionam
de longe como um agradável resultado plástico e visual, é de perto
que provocam a nossa imaginação e ganham uma nova dimensão, pois
obrigam a repensar a relação do ser humano com a tecnologia O maior
talento de Vera está em instaurar realidades paralelas a nossa a partir
de objetos que nos rodeiam, mas aos quais não prestamos atenção, como
os já mencionados fios de cobre.
O mesmo
desejo de observação próxima dos trabalhos acompanha aqueles feitos
com pedaços de vidro. Os cacos que cortam têm seu aspecto ameaçador
diminuído pelo recurso da composição plástica. Sim, a artista se
sobrepõe ao material e, por alguns instantes, é possível esquecer que
o vidro ameaça e rasga.
O material
parece estar pronto a captar o nosso olhar com complacência e sem violência.
Seu potencial destrutivo é anulado pela maneira como ocorre a distribuição
sobre a superfície, pelas nuances de luz que surgem e pelos mistérios
das composições criadas pela artista.
O maior mérito
de Vera Giorgi está precisamente na vitória da articulação plástica
dos materiais em nome da constituição de um trabalho bom, belo e
virtuoso. Caso raro, ela consegue criar uma realidade pessoal estranha,
mas agradável. Primeiro, gera questionamentos; depois fascina pelo amor
ao detalhe e pelo acabamento esmerado; finalmente, conquista enquanto
realização plástica diferenciada.
As obras da
exposição transmitem uma permanente inquietação e insatisfação com
o mundo. Os materiais se articulam de maneira surpreendente, em algumas
combinações que evocam inclusive o genial Arthur Luiz Piza, artista
sempre pronto a provocar a mente com novas possibilidades de articulação
de materiais e de idéias.
A artista
paulistana, por sua vez, oferece a oportunidade de pensar como a arte
contemporânea muitas vezes se perde em discussões estéreis e
pretensamente grandiloqüentes quando poderia estar voltada para o que
realmente importa: a pesquisa e a apresentação de soluções estéticas
que dialogam criativamente com a realidade circundante.
O resultado
está acima da média do panorama atual das artes plásticas porque Vera
tem a coragem de enfrentar o desafio de trabalhar diversos materiais com
uma mesma coerência, baseada na criação do belo, mas sem a concessão
ao fácil ou ao óbvio. Está-se assim perante uma profissional
consciente da beleza e da dificuldade do seu fazer.
Vera Giorgi
mergulha na delicadeza dos objetos com os quais trabalha sem excessivo
respeito, manuseando-os com liberdade e sensibilidade sempre dentro do
princípio estético que a criação do belo está próxima da razão,
mas não pode ser dominado por ela. Assim, a inquietação e o
inconformismo permanecem – o que seguramente gerará a criação de
novos trabalhos do mesmo nível estético apresentado até agora.
Oscar D’Ambrosio, jornalista,
mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor,
entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América)
e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).