por Oscar D'Ambrosio


 

 


Venício Alves Nogueira

 

            A liberdade de criar

 

            O poeta inglês William Blake, em O casamento do céu e do inferno, escreveu que “nenhum pássaro voa alto demais, se voa com as próprias asas”. O pensamento se aplica duplamente ao pintor Venício Alves Nogueira. Por um lado, ele é um artista autodidata, atingindo o atual estágio de sua arte pelas pesquisas estéticas que ele mesmo determinou; por outro, um dos principais símbolos de seu trabalho é o pássaro.

             Nascido em Carmo do Cajuru, Estado de Minas Gerais, em 7 de novembro de 1965, Venício, aos 14 anos, manifestou o desejo de pintar, mas a família não tinha dinheiro para comprar as tintas. Com esforço, a mãe adquiriu os primeiros materiais. Em seguida, o menino chegou a ter algumas aulas em sua cidade natal, mas não foi possível mantê-lo no curso.

O que parecia o fim de uma promissora carreira tornou-se o começo, pois Venício foi desenvolvendo o seu estilo e conquistou o próprio espaço no universo das artes plásticas. Suas pinceladas, que revelam alguma influência de Picasso, na justaposição de imagens, e de Portinari, nas formas, causa impacto à primeira vista no espectador.

A presença de pássaros, como apontamos, é uma constante, eles surgem geralmente em belas fusões, articulando as suas variadas posições e perspectivas de modo a gerar interrogações. Não se trata apenas da imagem de uma ave, mas de várias que se sobrepõem de modo a criar uma nova visão de mundo.

Em contrapartida, em telas como O homem e a paz, a figura humana surge com formas bem marcadas e colorido forte. No referido quadro, predomina o azul em fundo verde, gerando um intenso dinamismo e a idéia de que aquele instante flagrado pelo pintor é o congelamento de uma narrativa que apresenta um antes e um depois.

A presença de diversas tonalidades também caracteriza a arte de Venício. Pássaros em lilás e vermelho e rostos que fundem diversas cores criam uma atmosfera mágica e lúdica em que o resultado do conjunto  é mais importante do que a soma isolada das partes.

Nesse sentido, torsos masculinos e femininos azulados ou pés da mesma cor não podem ser vistos isoladamente. Integram um todo de formas e cores harmônicas em que aparentes dissonâncias entre linhas retas e formas arredondadas contribuem para criar um universo em que a alegria de criar está sempre presente.

Seja na presença de pássaros, de figuras próximas ao surrealismo ou de conjuntos de pequenos barcos a vela que auxiliam a compor o seus trabalhos, Venício Alves Nogueira lança sempre o seu alerta de que as figuras que cria, às vezes com reminiscências de Miro, são o resultado de uma procura individual.

O mergulho do artista mineiro na arte é o vôo livre de um pássaro, que sai de sua pequena cidade e já percorreu Londres, Lisboa, Madri, Paris, Roma e Atenas. Seu principal mérito reside justamente na capacidade de construir conjuntos imagéticos oníricos em que o trabalho com a cor ganha destaque, principalmente com o azul e com cores quentes, como amarelo e vermelho.

Venício Alves Nogueira voa com as asas de seu talento para fronteiras desconhecidas. Seus seres imaginários, rostos distorcidos e aglomerados de  pássaros e barcos são o passaporte para a busca e o encontro de soluções estéticas diversificadas em que a única certeza do artista é a de que ele deve se manter livre, para preservar o seu talento,  a capacidade de criar e de sonhar.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

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 O homem e a paz

 50x50 cm óleo sobre tela - sem data

Venício Alves Nogueira

 

 

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