por Oscar D'Ambrosio


 

 



Vanice Ayres Leite

As figuras que sorriem 

A arte tem historicamente um papel importante de denúncia social, e diversos pintores direcionam seu trabalho justamente para denunciar diversos tipos de exploração. Outros preferem retratar apenas as próprias memórias, tornando suas obras uma espécie de biografia cinematográfica de sua existência. Há aqueles, porém, que mostram uma grande variedade de imagens alegres. É o caso de Vanice Ayres Leite. Seus desenhos coloridos a nanquim são originais na técnica e na forma em que mostram seus personagens, sempre sorrindo, em harmonia com a realidade circundante. Estejam trabalhando ou descansando surgem perfeitamente entrosados com o que os cerca, sem dúvidas ou conflitos existenciais. Esse é o resultado do trabalho de uma artista que só passou a se dedicar à pintura com mais de 30 anos e dois filhos. Nascida em Belo Horizonte, MG, em 11 de outubro de 1947, trabalhou inicialmente como professora primária, ensinando as crianças a ler. Decepcionada com o ensino elementar e a situação das escolas, além da baixa remuneração do professorado, prestou vestibular. "Resolvi estudar um pouco mais para ver se a situação melhorava", diz. Em 1968, Vanice ingressou na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais para fazer o curso e Desenho. "Como sempre gostei de matemática, queria ser professora de Desenho Geométrico e Geometria Descritiva", lembra. "Aprendi modelagem, escultura, pintura, gravura, desenho artístico, artes gráficas e modelo vivo." Vanice se especializou, como desejava, em Desenho Geométrico, obtendo sua licenciatura plena. "Fui assim professora de Desenho Geométrico e Educação Artística em diversos colégios por sete anos, mas não pensava em ser artista de jeito nenhum", conta. Paralelo ao curso de Desenho, ganhou, por meio de concurso, uma bolsa para fazer o curso de Biblioteconomia para escolas primárias. "Fiz o curso e também continuei no ensino." Tudo mudou em meados dos anos 1970. Em 1975, Vanice casou e, dois anos depois, quando sua filha nasceu, a professora foi obrigada a parar de lecionar, pois não tinha com quem deixá-la. "Pedi licença sem vencimentos. Em 1979, nasceu minha segunda filha e renovei a licença". A grande questão que surgiu na vida de Vanice era a contradição entre o grande número de diplomas e as suas atividades cotidianas: lavar, passar, cozinhar e cuidar dos filhos. "Comecei então a rabiscar alguma coisa, a buscar outro caminho para trabalhar sem sair de casa", afirma. O desenho foi o universo em que Vanice se encontrou. "Procurei o sindicato dos artistas plásticos e comecei a expor numa pequena feira que havia na Pampulha, em Belo Horizonte. Comecei a participar de exposições com um ou dois quadros... um início bem tímido", comenta. "Hoje desenhar é a minha única profissão. É minha terapia, minha ocupação diária." Desde 1983, ano em que realizou sua primeira exposição coletiva no IV Salão de Artes da Usiminas, Vanice começou a se dedicar inteiramente à pintura, mostrando sua produção em salões principalmente na capital mineira. Permanece coletando dados sobre o folclore, a cultura popular e os costumes nacionais. Representa negros e mulatos em colheitas e danças folclóricas, como congadas, dançando forró ou em gafieiras, botecos com sinuca ou mesas de carteado e dominó. Mulheres fazendo renda ou croché, bordando, pilando milho ou amamentando. Na Bienal Naïfs do Brasil 1998, em Piracicaba, apresentou Hoje tem jogo da seleção. Numa estação de trem, intitulada "Estação de Crendices", um grupo de pessoas, algumas vestidas de verde e amarelo, aguardam a partida do comboio. Há uma senhora com um gato branco com um laço verde-e-amarelo no pescoço; outra com uma sacola de uma loja chamada "Trevo de Quatro 4 Folhas"; e mais uma com uma ave negra na mão, ilustrando numerosas crendices populares, relacionadas a simpatias para dar sorte à equipe brasileira de futebol na Copa do Mundo. Como cenário, uma pequena cidade que inclui moradias com inscrições nas paredes sobre videntes com bola de cristal, umbanda, centro espírita, terreiro de candomblé, benzedeira, farmácia de milagres, uma igreja da Assembléia de Deus e uma casa esotérica, em que trabalha a cigana Diana. Até um franciscano é mostrado na bilheteria da estação, comprando seu ingresso para esse grande país de crendices que é o Brasil. O intenso colorido chama muito a atenção, como também ocorre com o quadro Boteco do Tonhão da Cida, em que diversos casais são mostrados dançando, havendo ainda uma mesa em que quatro pessoas jogam cartas. Ao fundo, aparece a bandeira brasileira junto à televisão e o cardápio escrito na parede. No balcão, duas moças se insinuam ao homem que atende o balcão, completando o ar de sedução. Os casais abraçados e os três instrumentistas completam o conjunto. Há todo um ritmo na composição, de figuras arredondadas que deixam o olhar do espectador perplexo perante a riqueza de informações que cada obra comporta. Basta verificar que as dezenas de garrafas nas prateleiras do bar têm seu devido rótulo, tanto as que contêm comida, como as cocadas, como as que prometem produtos medicinais. O tema do boteco é recorrente e volta a aparecer, por exemplo, em Boteco da Sofia. Agora é a bandeira do Estado de Minas Gerais que comparece em lugar da brasileira, mas casais abraçados e os músicos estão novamente presentes. Acrescente-se agora a presença de um rapaz com a camisa do Atlético Mineiro, uma das equipes de futebol mais populares do Estado. Atendendo o balcão está agora uma mulher, com unhas e lábios sensualmente pintados de vermelho, cor que permeia todo o quadro, dando-lhe vida e intensidade cromática, seja na camiseta de um jogador de cartas, nas flores de um vestido, na camisa listrada de um sambista ou no sapato da moça que está no primeiro plano. Festas populares como a da Nossa Senhora do Rosário também surgem nos trabalhos de Vanice. As cores branca e azul do grupo são muito bem harmonizadas com as bandeirinhas ao fundo, transmitindo uma especial leveza. Os participantes do grupo musical parece que estão voando com seus instrumentos de corda e percussão e rostos alegres, como anjos numa caminhada de glória. A temática da colheita também se faz presente com freqüência, principalmente de banana, milho e jabuticaba. O fundos são geralmente verdes e servem de base para trabalhadores com camisetas de cores quentes, como vermelho, amarelo e laranja. Os rostos são geralmente apresentados sorrindo. Mesmo com um trabalho cansativo e geralmente sob um sol inclemente, esses lavradores ainda mantêm, nas imagens alegres de Vanice, a capacidade de sorrir. Podem segurar jumentos, facões, cestas, moringas de água ou levar nas costas ou sobre a cabeça os produtos que colhem. Parece que o trabalho está incorporado ao seu cotidiano e não lhes causa sofrimento, estejam calçados ou descalços. São parte de um ambiente em que cada momento é aproveitado ao máximo, como se fosse único, embora pareça repetitivo para quem observa externamente. Um exemplo dessa harmonia entre o trabalhador e a atividade que realiza é rendeiras. Cinco mulheres são mostradas nessa atividade. Nos vestidos, predominam as cores quentes, mas o que mais encanta é a forma prazerosa e em paz como elas realizam seu trabalho. As cabeças inclinadas e as rendas brancas em meio às pernas ou sendo penduradas como cortinas transmitem leveza e poeticidade, numa atividade que exige habilidade manual, talento e amor ao detalhe. O mais fascinante é que é desenvolvido pelas tecelãs com admirável rapidez e competência. Mestra em seu trabalho com nanquim, Vanice Ayres Leite oferece obras diferenciadas. Seus bares com alegria contagiante, trabalhadores rurais em integração ao meio e críticas sociais e de costumes bem-humoradas traçam um perfil do povo mineiro e brasileiro em cores predominantemente quentes e repletas de rostos que mostram, acima de tudo, alegria de viver, por mais difícil que a realidade se apresente. 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

 

 

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