por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

 

Vânia Rossi

 

Infinitos portais

 

Portas e janelas são aberturas para o mistério. Elas delimitam espaços a serem desvendados pelo olhar do observador, criando novas dimensões ou evocando locais imaginários. O trabalho plástico de Vânia Rossi, ao buscar como assunto portas e janelas de diversas cidades do Estado de São Paulo, tem justamente o poder de convidar cada observador a percorrer o próprio imaginário.

O uso da técnica da velatura e a busca constante de camadas de tinta para expressar interrogações sobre o existir no mundo dão ao resultado plástico de Vânia uma dose de mistério renovada em cada quadro. No jogo de velar/revelar a realidade, a artista consegue concretizar na tela a difícil tarefa de dar materialidade a um projeto que parte de objetos (janelas e portas) para atingir o abstrato, as emoções e lembranças que esses elementos do cotidiano evocam.

O fato de as imagens finais em tela partirem de fotografias realizadas pela própria artista dão mais uma dimensão ao trabalho. A pesquisa com esse imaginário de portas e janelas vem de longa data e encontra maturidade no momento em que a imagem original da foto é transformada pela tinta e pelos pincéis.

Ocorre o “desaparecimento” da imagem original. Ela foi pintada, mas foi velada pelas camadas de tinta. Desse modo, desaparece aos nossos olhos, trazendo, porém, à mente justamente recordações, muitas vezes vagas, mas presentes com grande intensidade, já que surgem do mais profundo da memória de cada um.

O negro das janelas e portas, destacado com esmalte brilhante, convida os olhos exatamente a mergulharem em uma jornada de lembranças e experiências de vida. Assim, cada tela convida a uma visita lenta e depurada. Por isso, após ver os infinitos portais de imagens veladas de Vânia Rossi, somos instigados a desvelar os sentimentos escondidos em nós cada vez que observamos, não mais ingenuamente, uma porta ou janela, seja na chamada vida real, numa fotografia ou numa pintura.

Em qualquer uma dessas dimensões, a reflexão proposta por Vânia alerta que os objetos do cotidiano e os espaços vazios que eles instauram oferecem muito mais do que pode parecer num primeiro momento, algo que está sempre bem além do que somos capazes de escrever ou verbalizar.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

 

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