Vania Rossi
A arte de contar histórias
O dramaturgo francês Musset
(1810-1857) intitulou uma de suas comédias Uma porta há de
estar aberta ou fechada. O trabalho da artista plástica Vânia
Rossi nos obriga a entrar numa outra dimensão: a das portas
entreabertas, aquelas que nos convidam a entrar, mas que, ao
mesmo tempo, nos levam a ter receio de invadir a privacidade
alheia.
Seu
trabalho fotográfico Portas e janelas permite justamente
duas leituras: uma mais evidente, voltada ao registro histórico
de imagens de casas, e outra, mais densa, que permite uma reflexão
profunda sobre a passagem do tempo que as suas imagens
denunciam.
A
presença ou não da figura humana junto às portas e janelas é
menos importante do que os próprios objetos do estudo da
artista. Na verdade, as fotografias não falam apenas de
arquiteturas de residências, mas do ser humano. Portanto, a
presença de um homem, mulher
ou criança não desvia o foco do que Vania quer: recuperar
narrativas.
A
questão é que a artista não vê o objeto de seu desejo
isoladamente. Ele vem sempre associado a uma narrativa, mais ou
menos evidente. É impossível para Vania, não se perguntar,
perante o universo de portas e janelas, quantos pessoas entraram
por uma porta ou quantas se debruçaram num parapeito de janela.
Não
se trata de uma abordagem quantitativa, mas emotiva, pois portas
e janelas nunca vêm isoladas de um todo, respectivamente, de
calçadas e paredes. Desse modo, podem surgir imagens de decadência
ou de poder, de preservação ou de abandono. Acima de tudo, há
a certeza de que portas e janelas contam histórias.
Realizado
em diversas cidades paulistas, o trabalho apresenta características
fascinantes. A principal é a possibilidade de portas e janelas
desvendarem um modo de vida, numa vertente quase sociológica,
pois são elas que permitem a entrada de pessoas, de luz e de ar
numa casa – e também são elas que podem cercear a liberdade
de dialogar com o mundo.
Enquanto
janelas regulares e equilibradas de um colégio indicam a ordem
de um cosmos instaurado para educar, aquelas carcomidas pelo
tempo, por enchentes ou por cupins mostram que o passar do
segundos do relógio tem a capacidade de destruir absolutamente
tudo.
Se
a janela, está aberta, o ruído entra, mas também cria-se a
possibilidade de alguém aparecer a qualquer momento. Se uma
bicicleta está encostada embaixo da janela aberta e ao lado da
porta fechada, estabelece-se uma curiosa e subversiva relação.
Teria o ciclista subido no selim e entrado pela janela? Caso
isso seja verdade, sairá pelo mesmo local ou utilizara, como se
espera, a porta?
Esse
ludismo não é permito perante janelas e portas fechadas, que
impossibilitam o diálogo. Austeras, afastam o visitante e criam
uma segura distância. No entanto, quando duas janelas – uma
ao lado da outra – apresentam diferentes graus de abertura,
instaura-se um mundo novo. É possível até estabelecer gradações
de abertura, assim como ocorre com os seres humanos, que variam
o seu grau de recepção a certos discursos plásticos ou ideológicos.
Às
vezes, as fotos de Vânia incluem o telhado. E o seu estado fala
muito sobre a casa. Geralmente, está menos conservado do que a
janela – e isso cria uma comunicação temporal entre as
partes e o todo de um edifício. Muito pode então ser dito e
quase nada comprovado perante a miríade de possibilidades que
as diferentes angulações propostas por Vania apresentam.
Quanto
mais antiga a casa, maior o potencial narrativo. Um alpendre com
tijolos à mostra, vidros quebrados e capim acumulado de anos
crescendo ao redor torna-se uma peça de rara poética, pois a
artista plástica não está preocupada com a estéril estética,
mas sim com a sutil humanidade existente no recorte imagético
que oferece ao observador.
A
janela fechada pode ter frestas, estar escancarada e abrir para
um belo pátio ou estar trancada com cadeado e parecer inexpugnável,
embora lhe faltem ripas de madeira. O essencial dela é que
ganha, no trabalho de Vania, um perfil humano. Seja pela
variedade de cor, pela presença de um pomba no alto ou pela
existência de pichações ao redor, uma porta ou janela se
antropomorfiza, ou seja, ganha personalidade.
Pode
ser tanto um salto para o escuro infinito como um passo rumo à
iluminadora luz. De acordo com a visão da artista, portas e
janelas nos levam a correr o risco de enfrentar o desconhecido
ou nos encaminham para o apolíneo da ordem estabelecida,
trazido pelo poder da aparente claridade da razão.
No
capítulo LI de Memórias póstumas de Brás Cubas, o
defunto narrador (narrador defunto?) relata: “... descobri uma
lei sublime, a lei da equivalência das janelas, e estabeleci
que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim
de que a moral possa arejar continuamente a consciência”.
No
trabalho fotográfico da artista plástica Vania Rossi, moral e
consciência se equilibram. Há um pressuposto moral, no sentido
de realizar uma obra artística com uma proposta bem definida,
que tem um compromisso com a sociedade no sentido de registrar
imagens que o tempo irá ocorrer. Existe, porém, em grau
equivalente, a consciência de que o seu projeto possui uma poética
própria, que não passa necessariamente pelo aprimoramento técnico
fotográfico, mas pela constante busca do aperfeiçoamento da própria
sensibilidade de captar as narrativas que portas e janelas podem
contar.
Para
Vania, portas e janelas são mundos a serem explorados, pois
representam a permanência da impermanência da presença humana
na face da Terra. Elas registram entradas e saídas e, se também
são destruídas pelas décadas, duram mais que as pessoas.
Falta-lhes, porém, a capacidade de narrar o que viram. De certo
modo, a artista dá voz a esses elementos arquitetônicos,
imortalizando-os como documentos produzidos pela mais criativa
– e, ao mesmo tempo, mais destrutiva – espécie dos seres
vivos: a raça humana
Oscar D’Ambrosio,
jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de
Artes (Aica – Seção Brasil) e é autor de Os pincéis de
Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora
UNESP e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo) e Contando a
arte de Ranchinho (Noovha América Editora).