por Oscar D'Ambrosio


 

 


 
Vania Rossi

 

            A arte de contar histórias

 

            O dramaturgo francês Musset (1810-1857) intitulou uma de suas comédias Uma porta há de estar aberta ou fechada. O trabalho da artista plástica Vânia Rossi nos obriga a entrar numa outra dimensão: a das portas entreabertas, aquelas que nos convidam a entrar, mas que, ao mesmo tempo, nos levam a ter receio de invadir a privacidade alheia.

            Seu trabalho fotográfico Portas e janelas permite justamente duas leituras: uma mais evidente, voltada ao registro histórico de imagens de casas, e outra, mais densa, que permite uma reflexão profunda sobre a passagem do tempo que as suas imagens denunciam.

            A presença ou não da figura humana junto às portas e janelas é menos importante do que os próprios objetos do estudo da artista. Na verdade, as fotografias não falam apenas de arquiteturas de residências, mas do ser humano. Portanto, a presença de um homem,  mulher ou criança não desvia o foco do que Vania quer: recuperar narrativas.

            A questão é que a artista não vê o objeto de seu desejo isoladamente. Ele vem sempre associado a uma narrativa, mais ou menos evidente. É impossível para Vania, não se perguntar, perante o universo de portas e janelas, quantos pessoas entraram por uma porta ou quantas se debruçaram num parapeito de janela.

            Não se trata de uma abordagem quantitativa, mas emotiva, pois portas e janelas nunca vêm isoladas de um todo, respectivamente, de calçadas e paredes. Desse modo, podem surgir imagens de decadência ou de poder, de preservação ou de abandono. Acima de tudo, há a certeza de que portas e janelas contam histórias.

             Realizado em diversas cidades paulistas, o trabalho apresenta características fascinantes. A principal é a possibilidade de portas e janelas desvendarem um modo de vida, numa vertente quase sociológica, pois são elas que permitem a entrada de pessoas, de luz e de ar numa casa – e também são elas que podem cercear a liberdade de dialogar com o mundo.

            Enquanto janelas regulares e equilibradas de um colégio indicam a ordem de um cosmos instaurado para educar, aquelas carcomidas pelo tempo, por enchentes ou por cupins mostram que o passar do segundos do relógio tem a capacidade de destruir absolutamente tudo.

            Se a janela, está aberta, o ruído entra, mas também cria-se a possibilidade de alguém aparecer a qualquer momento. Se uma bicicleta está encostada embaixo da janela aberta e ao lado da porta fechada, estabelece-se uma curiosa e subversiva relação. Teria o ciclista subido no selim e entrado pela janela? Caso isso seja verdade, sairá pelo mesmo local ou utilizara, como se espera, a porta?

            Esse ludismo não é permito perante janelas e portas fechadas, que impossibilitam o diálogo. Austeras, afastam o visitante e criam uma segura distância. No entanto, quando duas janelas – uma ao lado da outra – apresentam diferentes graus de abertura, instaura-se um mundo novo. É possível até estabelecer gradações de abertura, assim como ocorre com os seres humanos, que variam o seu grau de recepção a certos discursos plásticos ou ideológicos.

            Às vezes, as fotos de Vânia incluem o telhado. E o seu estado fala muito sobre a casa. Geralmente, está menos conservado do que a janela – e isso cria uma comunicação temporal entre as partes e o todo de um edifício. Muito pode então ser dito e quase nada comprovado perante a miríade de possibilidades que as diferentes angulações propostas por Vania apresentam.

            Quanto mais antiga a casa, maior o potencial narrativo. Um alpendre com tijolos à mostra, vidros quebrados e capim acumulado de anos crescendo ao redor torna-se uma peça de rara poética, pois a artista plástica não está preocupada com a estéril estética, mas sim com a sutil humanidade existente no recorte imagético que oferece ao observador.

            A janela fechada pode ter frestas, estar escancarada e abrir para um belo pátio ou estar trancada com cadeado e parecer inexpugnável, embora lhe faltem ripas de madeira. O essencial dela é que ganha, no trabalho de Vania, um perfil humano. Seja pela variedade de cor, pela presença de um pomba no alto ou pela existência de pichações ao redor, uma porta ou janela se antropomorfiza, ou seja, ganha personalidade.

            Pode ser tanto um salto para o escuro infinito como um passo rumo à iluminadora luz. De acordo com a visão da artista, portas e janelas nos levam a correr o risco de enfrentar o desconhecido ou nos encaminham para o apolíneo da ordem estabelecida, trazido pelo poder da aparente claridade da razão.

            No capítulo LI de Memórias póstumas de Brás Cubas, o defunto narrador (narrador defunto?) relata: “... descobri uma lei sublime, a lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência”.

            No trabalho fotográfico da artista plástica Vania Rossi, moral e consciência se equilibram. Há um pressuposto moral, no sentido de realizar uma obra artística com uma proposta bem definida, que tem um compromisso com a sociedade no sentido de registrar imagens que o tempo irá ocorrer. Existe, porém, em grau equivalente, a consciência de que o seu projeto possui uma poética própria, que não passa necessariamente pelo aprimoramento técnico fotográfico, mas pela constante busca do aperfeiçoamento da própria sensibilidade de captar as narrativas que portas e janelas podem contar.

            Para Vania, portas e janelas são mundos a serem explorados, pois representam a permanência da impermanência da presença humana na face da Terra. Elas registram entradas e saídas e, se também são destruídas pelas décadas, duram mais que as pessoas. Falta-lhes, porém, a capacidade de narrar o que viram. De certo modo, a artista dá voz a esses elementos arquitetônicos, imortalizando-os como documentos produzidos pela mais criativa – e, ao mesmo tempo, mais destrutiva – espécie dos seres vivos: a raça humana

 

   Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo) e Contando a arte de Ranchinho (Noovha América Editora).

 

 

 

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Portas e janelas 

fotografia - 30 cm x 42 cm - 2002/2003

Vania Rossi 

 

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