por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

Vanda Ramirez

 

            Reciclagens

 

            Entre os vários sentidos do verbo reciclar, um dos mais importantes é o de atualizar-se para obter o melhor rendimento possível. Isso significa uma constante renovação de temas e de técnicas em busca de um caminho em que as próprias potencialidades possam ser melhor desenvolvidas.

            A artista plástica Vanda Ramirez, ao trabalhar com o tema da reciclagem, propõe justamente a alteração do rumo dos ciclos. Em vez de estabelecer uma repetição eterna, instaura uma jornada em que se apropria de um tema muito citado, mas poucas vezes trabalhado em sua profundidade: a reciclagem.

            A reciclagem que a artista propõe toma como ponto de partida o próprio desperdício que o ser humano faz diariamente e o apresenta numa perspectiva plástica. Latas, catadores de lixo e outros elementos são colocados num universo em que reciclar significa ver de uma nova maneira não só o lixo, mas também a vida.

            A própria técnica de Vanda, chamada de azurado, realizada com óleo sobre tela, consiste numa reciclagem. Por meio de raspagem, o desenho, o fundo ou ambos surgem com linhas finas, paralelas e com a mesma distância entre si, seja em estruturas retas, onduladas ou mesclando as duas possibilidades.

            Saber trabalhar essas linhas constitui um desafio. Evitar a repetição dessa estrutura rumo à mesmice conduz a uma atualização profissional e cultural inserida plenamente no mundo do reciclar, não da própria arte e da sua técnica, mas, principalmente de uma poética de formação surrealista, presente, muitas vezes, na forma de interação entre os cenários e o elemento humano.

            Quando se pensa em reciclagem, faz-se presente a idéia da repetição de uma operação sobre alguma determinada substância para melhorar suas propriedades ou aumentar o rendimento de uma operação. Nesse sentido, o uso constante das linhas, ainda mais admirável quando se observa as obras de Vanda de perto, traz justamente a noção de como o fazer constante de um ato – no caso, a linha – valoriza o trabalho da artista.

            O reciclar, em seu sentido mais contemporâneo, refere-se ao tratamento de resíduos ou de material usado tendo em vista as suas formas de reutilização. Tal assunto, de inegável riqueza, torna-se ainda mais desafiador quando se vive numa sociedade do descarte em todos os níveis.

            Costuma-se avaliar empresas e pessoas muito mais pela capacidade de se livrar de funcionários ou de objetos e relacionamentos do que pelo poder de agregar capacidades e afetos. As telas de Vanda Ramirez não podem ser vistas sem levar em conta que reciclar é somar, ou seja, colocar sob nova perspectiva projetos próprios e alheios, seja na forma de imagens ou de linhas, de atmosferas ou de figuras humanas, de materiais diversos representados na pintura com a técnica do azurado ou na própria visão do mundo e da arte.

           

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

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Reciclando mantos sagrados
azurado em óleo sobre tela
70x100 cm 2005

Vanda Ramirez

 

 

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