Valdir
Rocha
Visões de
cabeças
O trabalho
plástico de Valdir Rocha já vem, há algum tempo, recebendo elogios
de críticos da competência de Jorge Anthonio e Silva, Nelly Novaes
Coelho, Carlos Souliê do Amaral, Osmar Pisani, Alberto Beuttenmüller,
Carlos Pertkold, Fabrício Carpinejar e Nelson Screnci.
Escultor,
pintor, desenhista e gravador, ele se caracteriza, entre outros
fatores, pelo trabalho aprofundado sobre a imagem de cabeças. Em seus
competentes dedos, mãos e cérebro, cada uma delas ganha ampla
riqueza de conotações, a maioria entrelaçada num processo polissêmico
próprio das melhores manifestações artísticas.
Mas não há teoria acadêmica ou saber universitário que dê
conta do que há de mais majestoso no trabalho plástico de Valdir
Rocha. Suas cabeças independem dos títulos que lhes são dadas, pois
funcionam justamente como máscaras (personas)
do próprio ser humano, com suas fraquezas expostas e seu lidar
cotidiano com a hipocrisia.
Paulistano,
nascido em 6 de agosto de 1951, e voltado para as artes plásticas
desde 1967, Rocha apresenta, na diversidade técnica, um leque de
leituras da alma humana, marcado por visualizações do ser de tom
expressionista, muito ressaltado nos trabalhos em branco e preto,
plenos de um sentimento feroz de ser e de estar no mundo.
Cabeçário
de cabeceira, edição do autor, de 2006, de obras em nanquim,
aguada e giz de cera, com o subtítulo “para se ver, antes de não
dormir”, faz um resumo imagético dos múltiplos raciocínios que a
mente humana comporta. Refletir sobre eles leva a uma saudável falta
de sono que mantém a nossa mente aberta.
A faceta
mais emotiva se faz presente no traço mais nervoso que acompanha os
rostos criados por Rocha. Há ali a inquietação de uma cabeça
sempre pronta a descobrir novos paradigmas mesmo onde parece que tudo
já foi dito ou graficamente representado.
Em
contrapartida, as composições seguem uma lógica figurativa. Há ali
o referencial concreto de rostos que nos falam enquanto pessoas. O que
fascina, porém, é que, não são seres que estão ali, como bem
alerta o pensamento pictórico de Magritte, mas recriações artísticas
de seres humanos. São, como dizia Picasso, “mentiras que nos ajudam
a ver a realidade”.
Para que
esse processo se concretize, é necessário manter viva a imaginação
a cada nova imagem. Isso permite ter um mesmo tema, no caso, o rosto
humano, sem que ele pareça repetitivo. As imagens de Rocha não
cansam, porque são todas novas, embora o assunto seja um dos mais
antigos da história da arte. Seu mérito é uma revisão constante do
universo da expressão externa e interna do que nos torna humanos.
O conjunto
indica um certo pessimismo, em linhas gerais, com a própria condição
do existir. Autêntico bestiário de cabeças, Cabeçário
de cabeceira revela facetas que as pessoas desejam geralmente
esconder. Estão ali contorções de bocas e expressões capazes de
lembrar que somos, no âmago, animais e, como tais, temos uma
linguagem expressiva nos gestos que, muitas vezes tentamos, sem muito
sucesso, dissimular.
Há, nesse
ponto, uma faceta religiosa – e mesmo mítica e mística – em cada
criação. Se Deus existe, ele teria algum de seus rostos. No entanto,
mesmo sem a sua alardeada onisciência e onipresença, o ser humano se
constitui em corpo e alma com seus múltiplos olhares, muitos em nada
diferentes daqueles lançados em épocas pré-históricas.
Se
não há um Deus criador do mundo, há no artista um demiurgo da arte
– e Valdir Rocha ocupa esse espaço com competência, sensibilidade
e o talento que nos obriga a, pelo seu trabalho, levar as mãos ao
rosto e o rosto ao espelho para concluir, dependendo de cada um, que
somos, quando humildes, menos humanos do que os outros, ou igual a
todos, numa ótica judaico-cristã, ou, ainda, num laivo de
egocentrismo, melhores que os nossos semelhantes.
A
técnica plástica de Valdir Rocha propicia todas essas reflexões –
e muitas outras. Os rostos que cria são emotivos, lógicos,
criativos, pessimistas, religiosos e sínteses do caminhar de uma
humanidade muitas vezes iludida pela possibilidade de deter um poder
que não lhe é atribuído por outrem e que não tem demonstrado
capacidade de assumir sozinha.
O
criador paulistano nos lembra, em cada obra, que somos simplesmente
demasiado humanos – e que nossas cabeças, se colocadas à
cabeceira, podem levar à insônia. Que bom! Talvez daí resulte uma
humanidade melhor, menos onipotente e mais ciente de suas limitações.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).