Valdesoiro
O primitivista
sacro
“Sem a
imaginação, que utilidade teria para o homem a inteligência?”.
A partir dessa frase do escritor pernambucano Joaquim Nabuco
(1849-1910), a arte do pintor e escultor espanhol naturalizado
brasileiro Valdesoiro pode ser vista como um mergulho numa forma
de expressão única: o primitivismo sacro, ou seja, a pintura de
imagens de santos com rostos vinculados ao primitivismo,
acompanhados de molduras de feição barroca, num conjunto harmônico
que encanta à primeira vista.
Nascido
em Toledo, Espanha, em 18 de junho de 1927, e falecido, em São
Paulo, em 28 de setembro de 2002, Marceliano Valdesoiro Fernandez
logo se mudou para Barcelona, onde o pai mantinha uma oficina de
restauração, trabalhando com diversos materiais, principalmente
madeira e telas, e objetos, como móveis e esculturas.
Desanimado
com a difícil situação na Espanha, que vivia a ditadura de
Francisco Franco, Valdesoiro resolveu emigrar. Pensou em ir para
países como a Argentina e a Venezuela, de língua espanhola, mas
como a entrada de estrangeiros estava fechada, optou pelo Brasil,
onde chegou em 25 de dezembro de 1953.
A
jornada foi mais feliz do que ele mesmo poderia imaginar. Em 10
de janeiro de 1954, menos de um mês após a chegada, Valdesoiro
já tinha seu negócio próprio, entalhando molduras e
prosseguindo com as atividades que aprendera na terra natal. Mais
tarde, teve loja na área de restauração e venda de objetos artísticos
na então badalada Rua Augusta.
Uma
guinada aconteceu, porém, na década de 1980, quando conheceu,
na Praça da República, a pintora primitivista Wilma Ramos, que
o aconselhou a pintar santos. Surgiu assim um estilo pessoal que
cruza a religiosidade espanhola com a arte autodidata. A aceitação
foi imediata, principalmente na Praça e, depois, por diversas
galerias de arte.
Nasceram
assim pinturas de santos, com adornos bem trabalhados nas vestes
sobre um fundo infinito negro. Rodeados por anjos e com aureolas
que são verdadeiras coroas douradas com numerosos detalhes
internos, principalmente em azul e vermelho, além de ramos
verdes em torno de cada imagem.
O
resultado se diferencia por dois motivos. O primeiro e mais
importante é uma técnica que Valdesoiro nunca revelou,
aprendida em sua juventude na Espanha, que
dá às imagens um certo tom de Antigüidade. Uma mistura
de tinta a óleo com outros materiais dá ao observador a impressão
de estar perante um trabalho muito antigo.
Em
segundo lugar, temos as molduras. Entalhadas e assinadas pelo próprio
Valdesoiro compõem, junto com a tela, uma obra única. É impossível
separa-las. Ambas nos transmitem às catedrais espanholas, mas
com um tom primitivista encantador, pois, ao contrário das dramáticas
imagens européias, os santos de Valdesoiro, graças às cores
apresentam um certo bom-humor e alegria, principalmente pela
forte expressão e tamanho dos olhos, que lhes dá maior simpatia
e não lhes retira o misticismo.
Valdesoiro
também participou ativamente da Festa do Divino Espírito Santo,
uma das mais tradicionais de Mogi das Cruzes, cidade em que
nasceu a pintora Wilma Ramos. Em 2001, por exemplo, realizou
as esculturas do Divino, do Império e do andor da procissão
da Festa local. Essa atividade
emocionava o artista profundamente, pois ele sabia que a
população local e os turistas, ao aplaudirem, reverenciarem ou
orarem perante essas imagens, também homenageavam o seu talento,
lá presente a serviço de Deus.
O
trabalho de Valdesoiro pôde ser observado em exposições em São
Paulo, Mogi das Cruzes, Santos, cidade onde morou, e São Miguel
Paulista, entre outras. Em 2000, destaca-se a exposição V
Centenário do Descobrimento do Brasil, no Centro Cultural Pátio
do Colégio, SP. Entre os comentários críticos, merece menção
o da artista plástica Jerci Maccari, que afirma que as cores de
Valdesoiro “recebem uma velatura que cria um clima de
sobriedade e de reflexão” e as imagens “parecem vindas do
infinito, dentre as estrelas e nuvens e pairam no ar”.
As
cores de Valdesoiro, ao se tornarem opacas pelo recursos técnicos
utilizados evocam a arte cuzqueña,
mas se diferenciam pela ausência do barroquismo carregado dessa
manifestação artística peruana. Quanto as imagens, possuem uma
digna irreverência tropical, pois os santos e santas parecem
prontos a rir, mas há uma força suprema que os inibe,
deixando-os comportados, mas com um desejo pronto a explodir de
transmitir alegria aos homens.
Valdesoiro,
que buscou muitas vezes santinhos de igreja como ponto de partida
para seus trabalhos, tornou-se um intermediário entre as imagens
divinas e as pessoas de fé. O mesmo santo é retratado em inúmeras
variantes, seja no manto, nos ramos do fundo, na posição ou na
disposição dos anjinhos que muitas vezes acompanham cada
imagem.
Os
santos Benedito, Jorge, Miguel, Expedito, a Virgem Maria e a
Imaculada Conceição, entre tantos outros, ganham, nas telas de
Valdesoiro, uma comovente dimensão humana. Eles se aproximam da
terra sem perder suas virtudes espirituais e estimulam um convite
à oração e ao diálogo.
Com
uma imaginação capaz de criar sem transigir as normas da
Igreja, Valdesoiro concebeu, em fundo negro emoldurado em estilo
barroco, santos que constroem, graças a um original estilo
primitivista sacro, uma delicada e sólida ponte de fé entre os
santos e os homens.
Oscar
D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os
pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora
Unesp).
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