por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Valdeck de Garanhuns

 

            Xilogravura como reduto cultural

 

            Processo de gravação em relevo que utiliza a madeira como matriz e possibilita a reprodução da imagem gravada sobre papel ou outro suporte adequado, a xilogravura está profundamente ligada à arte popular, principalmente aos folhetos de cordel, uma das práticas mais interessantes da literatura brasileira, seja pelo seu valor enquanto texto seja pela qualidade plástica das xilogravuras utilizadas nas capas.

            Valdeck de Garanhuns é um representante dessa tradição. Talvez por ser mais conhecido, em São Paulo, pelas atividades ligadas ao Teatro de Mamulengos, manifestação popular da qual é estudioso e, acima de tudo, competente representante e defensor de suas tradições, seu talento como gravador é geralmente deixado em segundo plano.

            Nada mais injusto. Talvez seja o preço que pague por ser ator, cantador, poeta, bonequeiro, artista plástico, diretor de teatro e artesão. Infelizmente, dentro de nossa sociedade racionalista, essa multidisciplinaridade, embora elogiada nas manuais, é vista com ressalva na prática, já que nossa sociedade compartimentalizada tem dificuldade de lidar com aqueles que não se encaixam apenas em uma atividade, transitando por diversas ações.

            O curioso é que no mundo da arte popular, infelizmente por muitos visto como distante do erudito, os principais momentos e melhores artistas estão justamente no entroncamento de diferentes manifestações. É aí que Valdeck atua, retomando as tradições absorvidas desde a infância e fazendo-as dialogar com a modernidade.

            As gravuras desse artista pernambucano, nascido em Garanhuns, em 14 de julho de 1952, apresentam dois aspectos bem interessantes, que merecem reflexão. Um deles se refere aos temas, voltados para a cultura nacional; o outro diz respeito às técnicas utilizadas pelo artista.

            O universo visual de Valdeck inclui personagens típicos do folclore, como mula-sem-cabeça, boitatá e curupira, e danças e manifestações populares, como reisado, marujada, bumba-meu-boi, maracatu e caboclinhos. Está ali o resultado de quem conhece esse universo e, ao mesmo tempo, busca representá-lo plasticamente da melhor forma possível, sem trair as tradições e elaborando uma linguagem pessoal.

            Para atingir esse percurso particular e diferenciado, Valdeck, assim como fazem alguns dos melhores gravuristas do país, decidiu, além de usar os instrumentos tradicionais para trabalhar com madeira, fazer os próprios. Isso lhe permite atingir traços e texturas de estrema qualidade técnica.

            O recurso é particularmente visível nos fundos das impressões. Existe ali um tipo de trabalho que torna sua obra facilmente reconhecível, pois a matriz recebe numerosas incisões nas regiões em que não há figura humana e onde não está o assunto principal da imagem talhada em madeira.

            Valdeck de Garanhuns consegue em sua xilogravura, manter viva a alma e a cultura do povo brasileiro, numa atitude de extrema coerência com suas numerosas atividades em favor da construção de um país em que o saber popular, tão presente no teatro como no folheto de cordel, seja lembrado e encontre continuidade nas gerações futuras e presentes, principalmente naqueles que, como ele, não se limitam a copiar modelos, mas se esforçam, com êxito, em desenvolvê-los com seu próprio talento e criatividade.      

           

            Oscar D’Ambrosio é jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

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Saci no carnaval
xilogravura prancha em pinho 33 x 30, 5 cm sem data

Valdeck de Garanhuns

 

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