por Oscar D'Ambrosio


 

 


Uirai Fuscaldo

 

Um jovem moto-contínuo

 

            Penélope, a fiel esposa do herói Ulisses, o protagonista da Odisséia, de Homero, declara: “Curta é a vida humana”. Em poucos casos, isso pode ser considerado mais verdadeiro do que na trajetória, breve, mas significativa, de Uirai Fuscaldo. Falecido aos 21 anos, em 2002, deixou uma obra de impressionante expressividade, em que a temática do que significa ser humano é onipresente.

            Nascido em 19 de novembro de 1980, em São Bernardo do Campo, SP, apaixonado por desenho, aos 12 anos, começa a ter aulas de pintura com Rubens A. Sacho, que o estimula, em 1995, a participar do I Salão de Desenho da Associação Paulista de Belas Artes.

            Após essa estréia e o falecimento do primeiro professor, aprimora-se como autodidata, até, que aos 17 anos, passa a estudar com Waldir Sarubbi. O convívio o leva a ingressar, em 2000, no curso de bacharelado em Artes Plásticas da ECA-USP. No ano seguinte, falece este segundo mestre.

            Seguiram-se as aulas com Enzo Wenk, sobre nu, e Selma Daffêr, de gravura, mas o trabalho de Uirai parece ter conservado um moto-contínuo próprio. Observando-se a sua produção, exposta, de 19 a 26 de março de 2005, no Instituto de Artes da UNESP, com curadoria do irmão gêmeo Iraçu, estudante do terceiro ano de Educação Artística, é possível vislumbrar um artista de energia vital a toda prova.

            Se um moto-continuo é uma máquina utópica capaz de funcionar indefinidamente sem depender de energia externa, Uirai mostra uma análoga capacidade inesgotável de criar com vigor imagens de apurada construção para a sua idade e tempo de aperfeiçoamento técnico.

            Esse talento é particularmente notável ao se debruçar sobre a figura humana, principalmente rostos. Há neles uma carga de dor e sofrimento análoga à dos melhores artistas expressionistas alemães. Marcas de expressão, olhos saltados e vincos que abrem gretas na face alertam para a brevidade da vida.

            Enquanto as experiências abstratas parecem, de certo modo, querer domar essas vigorosas manifestações, as linhas do desenho da figura humana nos lembram das palavras de Penépole. Marcada pelo falecimento de dois de seus mestres e pela do próprio artista,  a obra de Uirai funciona como moto-contínuo pela energia avassaladora que transmite, gerando uma movimentação interina de quem a observa.

            O percurso de Uirai Fuscaldo, breve, mas talentoso, certamente gera perguntas e dúvidas sobre o próprio significado da arte da própria vida. João Guimarães Rosa, em sua obra-prima Grande sertão: veredas, já alertava que “a vida não é entendível”. Desafiar a máxima roseana não é necessário.

Basta contemplar o trabalho do artista paulista, principalmente seus retratos e auto-retratos, para ver que ali está um artista completo. Infelizmente nunca saberemos o que o futuro lhe reservava, mas podemos ver o que deixou – e não é pouco em termos de qualidade.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América).

           

 

 

 

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 Auto-retrato 

acrílica sobre veludo 45 x 59 cm sem data

Uirai Fuscaldo

 

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