Uirai
Fuscaldo
Um
jovem moto-contínuo
Penélope, a fiel esposa do
herói Ulisses, o protagonista da Odisséia, de Homero, declara:
“Curta é a vida humana”. Em poucos casos, isso pode ser
considerado mais verdadeiro do que na trajetória, breve, mas
significativa, de Uirai Fuscaldo. Falecido aos 21 anos, em 2002,
deixou uma obra de impressionante expressividade, em que a temática
do que significa ser humano é onipresente.
Nascido
em 19 de novembro de 1980, em São Bernardo do Campo, SP,
apaixonado por desenho, aos 12 anos, começa a ter aulas de
pintura com Rubens A. Sacho, que o estimula, em 1995, a
participar do I Salão de Desenho da Associação Paulista de
Belas Artes.
Após
essa estréia e o falecimento do primeiro professor, aprimora-se
como autodidata, até, que aos 17 anos, passa a estudar com
Waldir Sarubbi. O convívio o leva a ingressar, em 2000, no
curso de bacharelado em Artes Plásticas da ECA-USP. No ano
seguinte, falece este segundo mestre.
Seguiram-se
as aulas com Enzo Wenk, sobre nu, e Selma Daffêr, de gravura,
mas o trabalho de Uirai parece ter conservado um moto-contínuo
próprio. Observando-se a sua produção, exposta, de 19 a 26 de
março de 2005, no Instituto de Artes da UNESP, com curadoria do
irmão gêmeo Iraçu, estudante do terceiro ano de Educação
Artística, é possível vislumbrar um artista de energia vital
a toda prova.
Se
um moto-continuo é uma máquina utópica capaz de funcionar
indefinidamente sem depender de energia externa, Uirai mostra
uma análoga capacidade inesgotável de criar com vigor imagens
de apurada construção para a sua idade e tempo de aperfeiçoamento
técnico.
Esse
talento é particularmente notável ao se debruçar sobre a
figura humana, principalmente rostos. Há neles uma carga de dor
e sofrimento análoga à dos melhores artistas expressionistas
alemães. Marcas de expressão, olhos saltados e vincos que
abrem gretas na face alertam para a brevidade da vida.
Enquanto
as experiências abstratas parecem, de certo modo, querer domar
essas vigorosas manifestações, as linhas do desenho da figura
humana nos lembram das palavras de Penépole. Marcada pelo
falecimento de dois de seus mestres e pela do próprio artista,
a obra de Uirai funciona como moto-contínuo pela energia
avassaladora que transmite, gerando uma movimentação interina
de quem a observa.
O
percurso de Uirai Fuscaldo, breve, mas talentoso, certamente
gera perguntas e dúvidas sobre o próprio significado da arte
da própria vida. João Guimarães Rosa, em sua obra-prima Grande
sertão: veredas, já alertava que “a vida não é entendível”.
Desafiar a máxima roseana não é necessário.
Basta
contemplar o trabalho do artista paulista, principalmente seus
retratos e auto-retratos, para ver que ali está um artista
completo. Infelizmente nunca saberemos o que o futuro lhe
reservava, mas podemos ver o que deixou – e não é pouco em
termos de qualidade.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de
Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos
de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando
a arte de Ranchinho (Noovha América).