por Oscar D'Ambrosio


 

 


  Três visões da esfera e do cubo de Cleber Machado

 

            1)

            Um cubo e uma Esfera e Tudo

            Peter K. Wehrli

 

            Uma esfera: de alguma forma parece mágica: Cleber Machado consegue construir um cubo a partir de oito quartos de Esfera. Aparentemente simples, claro, o visivelmente evidente e modesto, ou seja: o lúcido revela sua complexidade inerente, sua riqueza de aspectos. E todo o trabalho de Cleber Machado parece provar esta sentença. Em um de seus mais recentes trabalhos, “esfera- cubo- esfera”, que consiste em uma esfera cujas partes formam um cubo, Cleber demonstra a multiplicidade de significados e campos de visão concentrados naquela simples bola, que é o símbolo de harmonia e clareza. E tudo se modifica  para seu oposto assim que Cleber corta a esfera em partes e delas constrói um cubo.

            Um plano  seccional rígido e severo dos quartos na parte externa da escultura titânica sugere rigidez e falta de sensibilidade, portanto, uma metáfora de ameaça em seu sentido mais amplo. Para esta parte inóspita do mundo Cleber Machado energicamente ousa opor um contra-mundo acolhedor: o interior de sua estrutura, a suavidade do redondo das partes da esfera, sua harmonia. Assim, o artista Cleber Machado atinge um objetivo notável: mesmoameaça” sendo até o momento um tema presente na arte contemporânea, assim como também é a “segurança protegida”. É a impressionante idéia brilhante de Cleber Machado de unir os dois assuntos, os dois temas em uma única peça de arte: ele conseguiu unificar ameaça e abrigo em uma forma convincente. Em uma forma. Em uma única escultura. O oposto consiste em uma única coisa. Antes precisávamos criar oposição.

            Agora, as coisas mudaram.

            Um Cubo e uma Esfera:

            Duas formas fundamentais e básicas a partir das quais se constrói o mundo.

            E Cleber Machado consegue formar a esfera a partir do cubo (“esfera se torna cubo”) e do cubo a esfera (cubo se torna esfera”).

            A façanha de Cleber: Nada menos que a quadratura do círculo, seu esquadramento. E a círculofacção do quadrado.

            Cleber nos traz uma nova dimensão dessa tarefa histórica: A cubifacção da esfera e a esferafacção do cubo. Ele é o inventor do cubo esférico e da esfera cúbica.

            Coloca estes dois elementos básicos em movimentoem todas as direções ao mesmo tempo. Girando, eles incluem cada uma e todas as formas existentes. Há uma palavra para isso: “onifacção”. Ou ainda mais precisa: “onificacção”. É o que Cleber Machado pratica.

 

            Peter K. Wehrli é autor e escritor. Mora e trabalha na Suiça. Entre outros fez filmes com Robert Rauschenberg, Jean Tingueli, Andy Warhol e Franz Gertsch. Sobre arte brasileira fez: “O mundo chama-se Brasil” e “Sinal de Tudo”. Publicou diversos livros de arte. Tradução do alemão para o português, Tito Lívio Cruz Romão

 

            2)

Eppur si muove.

Luiz Barco

 

            Afinal, o Universo é finito ou infinito? Não, não responda!

            Pois qualquer das respostas estará tão certa quanto errada. Dependerá de como e quando você chegou neste minúsculo ponto azul chamado planeta terra.

            Terá ele uma forma? Os adultos arrogantes dirão: se tiver ela será esférica! as crianças e os poetas dirão é uma bola, com certeza.

            Deus não faria o Universo de outra forma tudo que é importante ele fez em forma de bola.

            -- Acho que ele é um grande jogador, pois, como disse um poeta:... toda  noite, atrás no morro ele chuta  a Lua e amanhã logo cedo, chuta o Sol...

            Não sei da onde vem tanta empáfia. Somos, como ponderou o grande cosmólogo Carl Sagan, apenas um minúsculo ponto azul pendurado na periferia de uma galáxia bem pouco importante.

            Talvez para os habitantes de Delfos, para os idos do quinto século antes da nossa era O Universo era um cubo, tal como o altar de seu templo. Lembram-se, um Deus irado pela insignificância do altar mandou uma peste devastadora. As sacerdotisas, hábeis leitoras das entranhas dos animais, leram que a ira de Deus podia ser aplacada com a duplicação do cubo, mas, calma, eu sei que até você é capaz de:

            “Dado um cubo, construir outro cujo volume seja o dobro do volume do anterior!”

            Creio, porém que aquele Deus não queria perdoar a ofensa dos habitantes de Delfos, pois, exigiu que essa “duplicação do cubo” fosse feita com os “instrumentos divinos” : uma régua e um compasso. Bem, muita gente tentou e, alguns malucos tentam até hoje, resolver esse e outros dois problemas conhecidos como mais uma das belas heranças dos Gregos.

            A duplicação do cubo!

            A trissecção do ângulo! E a

Quadratura do círculo!

Tentam, mesmo depois que o menino gênio Évariste Galois (1811-1832) desenvolveu uma das mais belas teorias da matemática e como corolário sepultou os três problemas clássicos dos gregos. Não se pode, com régua e compasso duplicar o cubo, nem trisseccionar o ângulo, e tampouco, quadrar o círculo!

Creio, porém, que escapa a vigorosa álgebra de Galois um problema que pouco tem a ver  com a praticidade das ciências e muito tem a ver com a beleza das artes.

um gnomo, quase um Deus que não conhece o caminho da cabeça dos poderosos e teima em freqüentar a imaginação dos simples, das crianças, dos poetas,enfim, dos artistas.

Ainda outro dia, esse danado, projetando para a terceira dimensão o equivalente à quadratura  do círculo foi pousar na imaginação do escultor Cleber Machado.

É na introspecção de uma noite solitária de um quarto de hotel, mandou o estetacubicar a esfera”. Quase como um autômato Cleber pediu uma laranja e uma faca. Olhou para a laranja como se tivesse em suas mãos o Universo. Desconstruiu-o.

Primeiro cortou-o pelo equador, depois em cruz, cortou-o mais duas vezes do pólo norte ao pólo sul. Virou o Universo do avesso. Pronto está um cubo com o mesmo volume da esfera.

Ei! Espera ... A peça está linda, masum espaço vazio nesse novo cubo!

Bem, homem incrédulo. O nosso Universo é um imenso vazio! Porque o da Arte não pode sê-lo?

Gostaria de parar por aqui! Acontece que eu visitei o atelier do Cleber. Vi nesse desconstruir, construir, duas imensas esferas. Uma tornada cubo e outra retornada esfera. Não consigo imaginá-las separadas.

São como um Universo, ora expandido, ora aglomerado, e de quebra não são estáticos como diria Galileu  Galilei: Eppur si muove.

 

Luiz Barco mora e trabalha em São Paulo, SP, Brasil. É matemático aposentado da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Publicou livros como “2+2: uma aventura de um matemático no campo da comunicação” e “Curso de Ensino de Matemática Integrada”. Professor-visitante do Instituto de Cibernética da Universidade Paderdon (Alemanha).

 

3)

Entre cubos e esferas

Oscar D’Ambrosio

 

            O diálogo entre o cubo e a esfera é o que sustenta duas esculturas de Cleber Machado que dialogam entre si estabelecendo uma complexa, lúdica e poética relação entre essas duas formas geométricas, tanto no que diz respeito ao aspecto matemático como ao simbólico.

            Os dois trabalhos se complementam. Num deles, predomina o quadrado e, dentro dele, surge a esfera recortada. No outro, ocorre o inverso, ou seja, a forma predominante externa é a esfera, mas o cubo se coloca dentro dela. Ambos têm movimento, estabelecendo um labirinto de espelhos, no qual não a pessoa tem a possibilidade de se ver sob distintas angulações, mas também de observar o que está ao redor num infinito universo de reflexões visuais e conceituais.

            Cabe lembrar que, por definição, o cubo é um sólido regular com 6 faces iguais, sendo cada face um quadrado. Trata-se, em linguagem matemática, de um paralelepípedo retângulo com todas as arestas congruentes (a = b = c). O curioso é que ele é um paradigma da terceira dimensão, ou seja, uma espécie de portal para o mundo tridimensional.

            O interessante é que o elemento constituinte básico do cubo é o quadrado. Isso ganha uma significação mais ampla quando lembramos que a vida na Terra é baseada no carbono, elemento cuja estrutura cristalina é hexagonal, ou seja, tem seis lados. Dentro do cubo, portanto, estão contidas outras formas geométricas, como o triângulo, associado a numerosos elementos sagrados, como a pirâmide, que tem lados triangulares dispostos sobre uma base quadrada.

            A esfera, por sua vez,  costuma ser conceituada como um sólido geométrico formado por uma superfície curva contínua cujos pontos estão eqüidistantes de um outro fixo e interior chamado centro. Em outras palavras, ela é uma superfície fechada de tal forma que todos os pontos estão à mesma distância de seu centro.

Também se pode dizer que, de qualquer ponto de vista da superfície de uma esfera, a distância ao centro é a mesma. O fascínio está no fato de uma esfera ser um objeto tridimensional perfeitamente simétrico, ou seja, ela parece ter o poder de conter o mundo dentro de suas dimensões e proporções.

            O resultado plástico, além ser instigante enquanto manifestação visual, concretiza o trabalho de toda uma vida dedicada à exploração da geometria em termos escultóricos. Ao conseguir colocar a esfera dentro do cubo e vice-versa, surge um desafio matemático e técnico, pois a descoberta de soluções artísticas para o desafio que o criador propôs a si mesmo não é de natureza simples.

            A grande questão que as obras colocam ao observador se dá no universo da percepção. Notar como ocorre essa caminhada de uma forma geométrica para outra significa o entendimento de um processo. No entanto, uma questão maior se levanta na observação atenta dessas peças.

            O ato de olhar para cada uma das esculturas não pode ser jeito com pressa, mas exige um respirar prolongado, oriental, no sentido de observar os detalhes que elas propiciam em suas formas de encaixe e nos desdobramentos do conceito desenvolvido pelo artista.

            Se o cubo cerca a esfera e esta rodeia aquele, ambos se anulam e se equilibram, mas, ao mesmo tempo, se multiplicam numa vereda que estimula um permanente espelhamento de situações e infinitos caminhos possíveis a partir desse raciocínio, no qual a geometria se torna uma forma estética e simbólica de ler e interpretar o mundo.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

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