Traços e
cortes
em
gravura
Entre as numerosas
formas de se
expressar artisticamente, a
gravura
ganha
um
lugar
especial
talvez
por
ser
um
universo
muito
próximo da
alquimia.
Seus
caminhos envolvem
detalhes e
mistérios
que
somente
são desvendados
com a
prática
ferrenha e
quase
religiosa, no
sentido de
religar o
indivíduo
com
algo
que
ele
não consegue – e
nunca poderá, de
fato –
dominar
completamente.
Isso significa
estar
sempre
alerta
para a
arte do
saber
ver, transportando,
pelo
pensamento e pelas
soluções encontradas no
ato do
fazer, uma
interpretação do
mundo
para
um
determinado
suporte. Na
Galeria do
Instituto Moreira Salles, no
terceiro
piso do Shopping
Frei
Caneca,
em 2008, há uma
mostra de
quatro
artistas
que ilustram a
complexa e
rica
arte de
gravar.
Altina Felício dos
Santos,
com
a
técnica
da
ponta
seca,
desenvolve
suas
imagens
oníricas
sobre
o
mundo
imaginário de
sua
cidade
natal,
Olhos d’Água,
em Goiás. Ao
riscar a
chapa de
cobre,
ela
forma
sulcos
que,
após a
impressão retomam a
característica do
desenho.
Seu
imaginário inclui a
onipresença da
onça,
animal xamânico
que
permeia
seu
trabalho,
assim
como uma
densa
sensualidade na
forma
como
homens e
mulheres,
juntos
ou separados, ocupam o
espaço.
Com
a
água
tinta,
tipo
de
gravura
que
oferece,
como
resultado,
um desenho
composto de
áreas
tonais, Georgina
Torres
desenvolve o poético
tema
das chegadas e
partidas
de
trens
de
estações
de
trem
paulistas.
As
imagens
são
carregadas da
atmosfera
que
cerca
a
mitologia
em
torno
das
estações
de
trens,
com
um
traço
distintivo,
um
certo
mistério
e o
fascínio
de
congregar
máquinas
maravilhosas e
estruturas
arquitetônicas
que
guardam
importantes
histórias
que
as
imagens
da
artista,
com
suas
gradações,
condensam.
O
Parque do Ibirapuera,
em
São Paulo, SP, é o
principal
universo
visual de Ruth Sprung Tarasantchi.
Ela utiliza a
água
forte,
que consiste no
uso do
papel
levemente
umedecido,
onde
o
desenho
é gravado
em
cor,
e o lavis,
técnica
que
tem a
mesma
origem
que
a
palavra
lavar,
e refere-se ao
uso
da
cor
na
água.
Suas
imagens
se diferenciam
exatamente
pelo
estabelecimento
de uma
atmosfera
peculiar
na
concepção
das
áreas
em
que
existe a
presença
da
cor.
Nuances de
marés e
imagens da
Serra do
Mar e do
Corcovado alimentam
visualmente o
pensamento de
Vera Chalmers.
Ela
trabalha
com a
técnica do roulette,
que
permite
conseguir
um
traçado
irregular,
granulado,
como
um
lápis
grafite.
Desse
modo,
consegue
captar
diferentes
matizes
dos
mundos
que
busca
retratar,
num procedimento realizado
por
um
exercício
constante
do
olhar
e do
perceber
o
poder
da
natureza
de
revelar
e de
esconder
possibilidades de
visível.
A
junção dos
trabalhos na
exposição confirma
como o
universo da
gravura transforma
inquietações
interiores
em
produção
artística
relevante.
Isso exige perseverança e
um
compromisso
com o
que se
cria.
Esse
pensamento acompanha
não
só o
desenvolvimento de
um
pensar
técnico
cada
vez
mais aprofundado,
mas
principalmente a
construção de uma
poética
que tenha
como
base a
busca
constante
por
um
melhor
conhecimento
visual do
mundo.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista e
mestre
em
Artes
Visuais
pelo
Instituto de
Artes da UNESP, integra a
Associação
Internacional de
Críticos de
Arte (AICA-
Seção Brasil).