por Oscar D'Ambrosio


 

 


Traços e cortes em gravura

 

Entre as numerosas formas de se expressar artisticamente, a gravura ganha um lugar especial talvez por ser um universo muito próximo da alquimia. Seus caminhos envolvem detalhes e mistérios que somente são desvendados com a prática ferrenha e quase religiosa, no sentido de religar o indivíduo com algo que ele não consegue – e nunca poderá, de fatodominar completamente.

            Isso significa estar sempre alerta para a arte do saber ver, transportando, pelo pensamento e pelas soluções encontradas no ato do fazer, uma interpretação do mundo para um determinado suporte. Na Galeria do Instituto Moreira Salles, no terceiro piso do Shopping Frei Caneca, em 2008, há uma mostra de quatro artistas que ilustram a complexa e rica arte de gravar.

            Altina Felício dos Santos, com a técnica da ponta seca, desenvolve suas imagens oníricas sobre o mundo imaginário de sua cidade natal, Olhos d’Água, em Goiás. Ao riscar a chapa de cobre, ela forma sulcos que, após a impressão retomam a característica do desenho. Seu imaginário inclui a onipresença da onça, animal xamânico que permeia seu trabalho, assim como uma densa sensualidade na forma como homens e mulheres, juntos ou separados, ocupam o espaço.

            Com a água tinta, tipo de gravura que oferece, como resultado, um desenho composto de áreas tonais, Georgina Torres desenvolve o poético tema das chegadas e partidas de trens de estações de trem paulistas. As imagens são carregadas da atmosfera que cerca a mitologia em torno das estações de trens, com um traço distintivo, um certo  mistério e o fascínio de congregar máquinas maravilhosas e estruturas arquitetônicas que guardam importantes histórias que as imagens da artista, com suas gradações, condensam.   

O Parque do Ibirapuera, em São Paulo, SP, é o principal universo visual de Ruth Sprung Tarasantchi. Ela utiliza a água forte, que consiste no uso do papel levemente umedecido, onde o desenho é gravado em cor, e o lavis, técnica que tem a mesma origem que a palavra lavar, e refere-se ao uso da cor na água. Suas imagens se diferenciam exatamente pelo estabelecimento de uma atmosfera peculiar na concepção das áreas em que existe a presença da cor.

Nuances de marés e imagens da Serra do Mar e do Corcovado alimentam visualmente o pensamento de Vera Chalmers. Ela trabalha com a técnica do roulette, que permite conseguir um traçado irregular, granulado, como um lápis grafite. Desse modo, consegue captar diferentes matizes dos mundos que busca retratar, num procedimento realizado por um exercício constante do olhar e do perceber o poder da natureza de revelar e de esconder possibilidades de visível.

            A junção dos trabalhos na exposição confirma como o universo da gravura transforma inquietações interiores em produção artística relevante. Isso exige perseverança e um compromisso com o que se cria. Esse pensamento acompanha não o desenvolvimento de um pensar técnico cada vez mais aprofundado, mas principalmente a construção de uma poética que tenha como base a busca constante por um melhor  conhecimento visual  do mundo.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

 



 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio