|
Toso
A escultura do trabalho
Em O homem
bicentenário (Bicentennial Man, EUA, 1999), filme dirigido por
Chris Columbus, um robô, interpretado pelo ator Robin Williams
faz de tudo para se tornar humano, conseguindo obter o direito de
morrer. A obra, inspirada em um conto e um romance do mestre da
ficção científica Isaac Asimov é uma excelente introdução
para apreciar melhor as esculturas de Waldemir Felício Pimentel,
o Toso. Nascido em Osasco, SP, em 6 de maio de 1958, o artista
consegue, em suas obras em bronze, transformar figuras estáticas
de diversos trabalhadores em seres humanos com movimento. É
praticamente possível visualizar as ações imediatamente antes e
depois do movimento congelado por Toso, que ganhou esse apelido de
um senhor que trabalhava na oficina mecânica de seu pai. Filho de
um mecânico de origem portuguesa e de uma mãe de família checa,
Toso aprendeu desde jovem o trabalho com diversos materiais e foi,
entre outras atividades, feirante e proprietário de uma fábrica
de alumínio, na qual produzia. Também atuou como maquetista na
área de engenharia civil, mas foi com Dona Ilde Maksoud que
recebeu o primeiro estímulo para desenvolver trabalhos
artísticos. "Busquei cursos e professores, mas não
encontrei o que desejava. Desenvolvi minha arte de maneira
autodidata, tentando conhecer a fundo o trabalho com os mais
diferentes materiais", lembra. Toso é responsável desde a
criação até a assinatura de cada peça. Participa da fundição
e do acabamento numa busca contínua de aprimoramento. "Não
desenho bem, mas basta um rabisco, um esboço para que eu consiga
ver o resultado tridimensional que desejo", conta.
"Comecei com esculturas ligadas ao surrealismo abstrato.
Iniciei em seguida minhas obras sobre trabalhadores".
Proprietário de uma oficina de equipamentos ópticos mecânicos
de precisão, Toso sentiu como poucos a decisão do governo
Fernando Collor de Mello de liberar as importações de produtos
japoneses na área no início dos anos 1990. "Minha
profissão foi extinta. Gradativamente e principalmente nos
últimos cinco anos, comecei a investir tempo e dinheiro na minha
atividade artística de escultor", diz. As marcas registradas
das esculturas de Toso são os tênis das personagens, que dão ao
seu trabalho um senso de modernidade. Eles são sempre grandes,
servindo como ponto de equilíbrio, como base da escultura e
também da própria existência humana, que tem no trabalho um de
seus alicerces. A textura das obras também se destaca, pois o
resultado obtido se assemelha ao couro e dá uma idéia de pernas
marcadas pelo sofrimento e pelo trabalho árduo. Se os tênis e as
pernas grossas dão peso às esculturas, o alongamento que ocorre
a partir dos joelhos, finalizado em braços bem finos, oferece ao
conjunto um sentido de leveza. Cada escultura mostra domínio
técnico, sendo o resultado de numerosos estudos sobre a
resistência do bronze. "Consigo assim uma idéia de
movimento em figuras que, se construídas em escala maior, podem
se tornar monumentos", afirma. A série de trabalhadores de
Toso já conta com aproximadamente 30 projetos. O mais
emblemático é Acidente de trabalho, em que um operário
acidentado, com uma perna mecânica carrega uma cruz com as costas
vergadas. "Ele terá que suportar esse sofrimento e dor por
toda a vida", diz o artista. Pingentes de trens com um braço
dobrado sobre o outro esticado para poder tirar um cochilo mesmo
em pé integram esse universo. Brucutu realiza o mesmo tipo de
analogia ao mostrar um trabalhador encostado num ponto de ônibus,
fatigado pela rotina diária de idas e vindas do trabalho. Os
trabalhadores dominam as imagens de Toso. Olhar que trabalha
mostra um engenheiro cartógrafo, que trabalha mais com os olhos
do que com o vigor físico. Há ainda um pedreiro, como na
escultura Na pele do lobo, e trabalhadores com marretas, em A quem
possa interessar, e britadeira, em Rompendo obstáculos. Eles
compõem assim uma galeria de operários de tênis modernos e
profissões brutas, que deformam o corpo. Outra imagem forte nesse
trabalho em que o físico é geralmente mostrado tensionado é
Quem é quem, que apresenta duas pessoas praticando o braço de
ferro. A imagem pode ainda ser interpretada como a eterna queda de
braço entre trabalhadores e patrões em negociações por
melhores salários. Nessa mesma linha, está Carvoeiro, na qual um
trabalhador carrega peso sobre os ombros com a coluna vergada, num
símbolo da opressão que esse ser humano sofre de sua atividade,
da sociedade e do mundo. Cada passo parece um pequeno andar em sua
via crucis existencial. Mas as esculturas de Toso não vivem
apenas de desesperança. Uma escada para... apresenta o homem
alongado de tênis subindo uma escada cuja parte superior surge
partida ao meio. Há implícito aqui um conceito de libertação
de um mundo de agonia e sofrimento para uma outra dimensão, uma
esfera em que há a possibilidade de uma vida mais harmoniosa e
equilibrada, sem a dor cotidiana do trabalho físico que massacra
o corpo e esmaga a mente. Pátria de enxada oferece a imagem de um
camponês vergado sob o peso da enxada, seu instrumento de
trabalho. Pintura esculpida, por sua vez, promove um diálogo
entre as artes. Um artista é mostrado pintando, numa tela, um
homem com uma enxada. A gente que faz um país explora essas duas
imagens com mais dramaticidade ao mostrar um homem deitado fazendo
amplo esforço com uma chave de fenda nas mãos. Há também a
escultura O que fazer?, em que o homem de tênis, provavelmente
desempregado, sentado, com os cotovelos sobre os joelhos, lê um
jornal. Do lado interno, é visualizado o texto da apresentação
de Toso para o catálogo distribuído no Braston Hotel, em São
Paulo, escrito por Enio Cintra; do lado de fora, um texto do mesmo
autor sobre questões do trabalho. A imagem torna-se um ícone
eloqüente do desemprego que ronda não só o Brasil, mas a
maioria dos países do mundo. Outra escultura que ilustra bem a
relação de Toso com os materiais é Força D. Um homem com uma
picareta é mostrado justamente no momento em que estica o corpo,
realizando o movimento para o alto que resultará no golpe
violento contra o solo. Realizada em aço inox, recebeu o Prêmio
Barueri de Arte Contemporânea e Menção Honrosa no Mapa Cultural
Paulista de 1999, sendo a grande motivadora de todo o trabalho de
Toso com profissões em que os gestos e o dinamismo são
essenciais. Além das obras sobre trabalhadores, Toso tem uma
escultura de grande equilíbrio e significado ecológico. Trata-se
de Cuida dele para mim, em que um homem ajoelhado segura o mundo
com os braços esticados. Ao contrário do mítico Atlas, que
carrega o mundo nas costas, o personagem do artista quer se livrar
do peso e implora ajuda para tornar sua tarefa menos árdua.
Quarto colocado no Mapa Cultural Paulista 2000, Toso pretende, no
futuro próximo, modernizar os tênis de seus personagens, para
que adotem um visual mais agressivo. Também planeja uma série de
esculturas com pessoas praticando esportes, pois os atletas, assim
como os trabalhadores, lidam com o corpo e o movimento. Assim como
o robô de O homem bicentenário, as imagens de bronze de Toso
perdem sua materialidade em metal e se tornam humanas a cada olhar
atento que lhes lançamos. As exposições do artista poderiam
até ter como pano de fundo sonoro a trilha musical do filme,
criada pelo sensível e competentes James Horner. Há grande
musicalidade nos trabalhos de Toso. Suas figuras não evocam
apenas o ruído de britadeiras e marretas. Existe nelas uma
intensa poeticidade, um desejo visual de que os trabalhadores
mecanizados pela sociedade e pelo mercado se transformem de fato
em seres humanos e tenham direito a uma vida plena, digna e justa,
deixando de ser pingentes de trem cansados e se tornem completos,
com direito a um trabalho humanizado, educação, moradia e
transporte dignos e lazer. Quando esse ideal se concretizar, as
imagens metálicas de Toso ganharão de fato vida. Por hora,
retratam, com inegável beleza, os movimentos de corpos
massacrados e doloridos, que buscam não sucumbir à faina
diária. Ao exercerem de fato seus direitos assegurados por lei,
poderão ganhar vida, deixando de ser esculturas e passando a
caminhar pelas ruas como autênticos cidadãos.
-
-
Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).
-
|
|