por Oscar D'Ambrosio


 

 

Török János

A pureza das fazendas

A filósofa e escritora francesa Simone de Beauvoir dizia que "é na arte que o homem se ultrapassa definitivamente". Um exemplo disso é a obra do pintor húngaro Török János, um artista que maravilha justamente pela pureza com que trata de temas cotidianos, como interiores de casas rurais, preparação de pimenta para consumo, criações de cavalos, vinhedos e porcos sendo assados no meio de uma aldeia.

János, nascido em 4 de julho de 1930, em Deszk, Hungria, conhece muito bem a realidade que pinta. Quando tinha apenas um ano, sua família se mudou para uma fazenda, distante 6 km da cidade mais próxima, Kárafalva, e János caminhava essa distância diariamente para ir à escola.

Lembrando essa época, o artista escreveu: "Eu tinha que ir à escola também no inverno. A atmosfera era melancólica, com fazendas espalhadas e sem estradas bem definidas para ir de uma para outra. Algumas vezes, a neve chegava à altura dos joelhos. Foi nessas estradas que percorria todos os dias que tive as experiências mais bonitas de minha infância. Conhecia todas as árvores do caminho e os ninhos. Freqüentemente, via diversas aves, coelhos e veados, facilmente encontrados naquela época. Na fazenda, cuidava de animais domésticos, como perus e gansos. Levava-os de um lado para outro e convivia com milhares de belezas da natureza: as borboletas, que dançavam à minha frente, os pássaros e as flores coloridas. Guardei essas e incontáveis outras experiências até hoje. Quando estou pintando velhos quartos de camponeses com seus fornos de barro, sinto o calor e o cheiro de pão assado neles. Lembro então de minha mãe assando pão com os movimentos que aprendeu com a mãe dela."

János sempre foi o melhor aluno de desenho. Quando a família se mudou da fazenda, voltando para Dezsk, começou a cursar o segundo ano da escola primária, ficando na cidade até os 18 anos. Entrou então para o exército, onde recebeu diversos elogios, mas isso não o deixava feliz. A atividade que o realizava era a pintura. Por isso, quando se aposentou, dedicou-se integralmente a reproduzir as imagens de sua infância em quadros de admirável singeleza e transcendente beleza.

Sobre sua relação com a arte, János diz: "Desde que consigo me lembrar, pinto. Queria ficar pintado durante toda a minha vida. Mesmo assim, nunca aprendi pintura com ninguém, apenas admirava o trabalho de outros artistas. Aprendi tudo o que necessitava saber de pintura sozinho no começo dos anos 1980. Passei então a usar todo o meu tempo nessa atividade maravilhosa."

A arte de Török Janos logo começou a ser reconhecida. Já realizou dez exposições individuais e numerosas coletivas, além de ter pintado as 14 estações da Via Sacra para a Igreja da cidade de Bököny, em 1987. Seis anos depois, foi publicado um calendário com reproduções desses quadros e, desde os anos 1980, mais de 50 cartões postais de seus quadros foram colocados à venda, a maioria com os temas preferidos do artista: a vida em pequenas cidades do interior da Hungria e recordações da sua infância na fazenda.

Mergulhar nas telas de János é vislumbrar um novo universo. Numa cena de Natal numa residência humilde, destaca-se a neve que se entrevê pelas janelas fechadas e a presença mágica dos três reis magos, um deles dormindo no chão, todos com cajado, além de um pastor tocando flauta. Nas paredes, um relógio, pratos decorados e uma imagem religiosa feminina. O quadro oferece, portanto, um retrato da vida dos camponeses, que inclui a árvore de Natal sobre a mesa e a comida preparada, pronta para servir aos convidados ilustres.

O universo rural é ainda mais encantador. Uma cena de colheita de uvas mostra dezenas de camponeses tirando os cachos e levando-os a carroças puxadas por cavalos brancos. As videiras se perdem na distância, entre caminhos simétricos de grande simplicidade. As roupas dos trabalhadores brilham entre o verde escuro das plantações.

Os cavalos também comparecem com freqüência nas pinturas de János. Correm pelos prados perseguidos por vaqueiros com chicotes ou bebem água calmamente em poços construídos junto às choupanas dos camponeses. Nessas cenas, os animais em movimento contrastam com a posição estática dos trabalhadores, que contemplam a cena com estóica atitude.

A preparação de pimenta é de sutil encantamento. A cabana ganha espaço no quadro, enquanto guirlandas do condimento são penduradas em varais junto às paredes. Um camponês traz a pimenta, as mulheres preparam os arranjos e outra os pendura para secagem, enquanto cães olham para o espectador com olhos espectrais e bocas vermelhas.

As cenas com neve também são transcendentes em seu poder de observação. Os cães perdem as bocas vermelhas e bonecos de neve ganham a cena. Um porco é cozinhado em meio a uma fogueira, observado por dois aldeãos e por crianças que brincam com um trenó.

Todos esses detalhes tornam a pintura de János inesquecível. Ela mostra como a pureza da existência está nas pequenas coisas da vida, nos gestos mais cotidianos, nos hábitos mais arraigados, muitas vezes deixados de lado em nome de um progresso estéril e sem sentido.

Para János, a vida só tem sentido pela pintura e, graças a sua arte, lembra a cada um de nós que a realidade cotidiana, se explorada em seus detalhes, possibilita vislumbrar uma outra dimensão do dia-a-dia, aquela somente acessível aos que tiram, de suas experiências pessoais, uma visão transcendente. Assim, as fazendas de János deixam de ser apenas húngaras e se tornam universais numa simplicidade comovente que contagia e nos faz acreditar, sem pestanejar, no valor da vida humana e na capacidade do homem ultrapassar-se constantemente.


Oscar D'Ambrosio

O autor é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP, 1999).

 

 

 

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