Tony Cragg
A escultura como diálogo
A escultura é uma das
artes mais extraordinárias. Surge a partir de um diálogo entre o
material e o artista. A partir da matéria inanimada, o artista
busca dar-lhe vida, não necessariamente na forma humana, mas a
partir de um conceito, de uma idéia mental. Essas idéias
penetram então nos objetos, articulam-se com eles e ganham uma
dimensão especial.
O escultor inglês Tony
Cragg é um exemplo claro de como o material pode ser colocado a
serviço de uma proposta conceitual. Sua exposição, em maio e
junho de 2001, na Galeria Thomas Cohn, em São Paulo, é uma
autentica jornada por um universo de formas trabalhadas com
extremo cuidado.
Cragg, em artigo publicado em catálogo
de 1996, intitulado The Articulated Column, revela sua
consciência do ofício escultórico: "(...) é uma tentativa
de fazer com que material inanimado expresse sentimentos e
pensamentos humanos (...), não apenas de projetar a inteligência
no material como também de se valer do material para
pensar".
Talvez por essa concepção de Cragg
as suas esculturas, como ele mesmo aponta, "funcionam como
metáforas de célula, órgão, organismo ou corpo". São
formas com uma base iminentemente estética, que levam em conta as
melhores maneiras de trabalhar o material para atingir um
resultado agradável à vista e aos sentimentos.
Nascido em Liverpool, Inglaterra, em
1949, Cragg formou-se como técnico de laboratório pela National
Rubber Producers Research Association e fez diversos cursos de
arte até começar a expor, em 1977. Realizou sua primeira
individual dois anos depois, na Lisson Gallery, em Londres, e, em
1988, foi o representante britânico na 43ª Bienal de Veneza,
recebeu o Prêmio Turner e obteve uma cátedra na Kunstakademie,
de Düsseldorf, Alemanha.
Atualmente, o artista vive e trabalha
em Wuppertal, na Alemanha, realizando suas obras num galpão com
uma equipe de artesãos e operários que o auxiliam em suas criações.
Esse trabalho, realizado com extrema dedicação e, às vezes, com
mais de um projeto simultaneamente, motiva o artista a buscar
sempre novas formas de expressão e de modelar os mais diversos
materiais.
Wooden crystal,
obra realizada em madeira laminada que pesa mais de 700 kg e tem
quase três metros de altura, apresenta eloqüente beleza
justamente por parecer leve apesar de sua grandiosidade. Suas
obras sugerem uma interpretação fálica, mas essa impressão
inicial desvanece perante um contato mais próximo com a obra,
quando é possível observar com mais atenção o brilho e a
delicadeza que as formas da escultura assumem em contato com a
luminosidade.
Nesse tipo de escultura monumental, o
observador tem a nítida impressão que o artista consegue brincar
de Deus – e com sucesso. Aliás, ao se falar na relação dos
homens com o divino, logo vêm à baila os versos de Mallarmé
sobre a relação de um ser supremo com a arbitrariedade – ou a
falta dela – em um jogo de dados.
Feita com resina termoplástica, a
escultura Secretions causa impacto por apresentar cerca de
100 mil dados articulados em um forma que lembra a de um feto. O
torneamento do material chama logo a atenção e estimula um jogo
visual de busca dos números cuja face está mais visível ao
espectador. Curvas e reentrâncias se combinam numa relação
simbiótica.
Carbono e kevlar são
os materiais de uma outra escultura, Rational Being, com
curvas mais pronunciadas e sensuais. O ludismo criado com a luz e
com o entorno dão à escultura um intrigante e curioso ar de
feminilidade. O observador com mais imaginação que busque um
referencial concreto pode até recordar daqueles chapéus imensos,
em moda na França do século XIX. A escultura, com 1,5 m de
altura, revela delicadeza e, como costuma ocorrer com Cragg,
embora a peça seja, grande, ela não gera choque visual de
nenhuma espécie, mas total encantamento.
Clear Glass Stack,
como o próprio nome diz, é um conjunto imenso de garrafas e
vasos e outros utensílios de vidro. O arranjo em prateleiras também
de vidro evoca a figura de um iceberg ou e uma montanha gélida.
Sua impermanência assusta, pois tem-se a noção de que basta um
suspiro ou um esbarrão descuidado para que a instalação se
desequilibre e seja destruída em efeito cascata.
Temos ainda Fig
e Stevenson, ambas de bronze. A primeira surge como a
carapaça de um alegórico tatu gigante, convidando, pelos seus
furos na estrutura, a um jogo de entra-e-sai eterno. A segunda
surge como uma figura enigmática, uma espécie de enorme pistão,
em que a luzes se divertem num deslumbrante jogo de iluminações
e sombras.
Ao realizar seu trabalho de grandes
dimensões, Tony Cragg relaciona-se profundamente com os materiais
com quais trabalha, sendo obrigado a repensar a sua relação com
si mesmo e com o mundo que o rodeia. Desse diálogo vertical –
com o próprio eu – e horizontal – com seus semelhantes –,
surge uma arte diferenciada, de grandes proporções e, ao mesmo
tempo, de extrema delicadeza.