por Oscar D'Ambrosio


 

 



Tio Tonho

O mundo popular mineiro

O Estado de Minas Gerais é uma terra que conserva suas ligações com o folclore. Percorrendo seu interior, ainda é possível encontrar autenticas manifestações populares, que resistem ao processo de globalização. Essas tradições são ainda mais salvaguardadas na obra de artistas primitivistas como Tio Tonho, que tomam essas festas como principal temática de seus quadros.

Nascido em Pitangui, MG, em 27 de julho de 1937, Antônio Dionísio da Cruz, chamado de Dionísio e, mais especificamente como Tio Tonho, no mundo da arte, é justamente um baluarte de defesa do folclore mineiro, tema predominante de suas telas, caracterizadas pelo detalhismo com que mostra, geralmente em planos bem amplos, festividades como congadas e procissões.

O menino Dionísio começou a pintar aos seis anos de idade. Ao fazer um teste para o primário, o professor pediu que ele desenhasse uma pessoa e uma árvore. O resultado foi tão bom que a criança foi desenvolvendo esse talento ao longo da vida, além de aprender outras profissões, como contabilista, músico, escultor, modelador e lutier.

Foi em 1960 que Tio Tonho começou a mostrar publicamente o seu trabalho pictórico. Em 1973, ele passou a participar da Feira de Artes de Belo Horizonte e, a partir do ano seguinte, tornou-se uma figura constante de salões e coletivas por todo o País, principalmente naqueles ligados a arte popular como os de Assis, Piracicaba e Presidente Prudente, todos no Estado de São Paulo.

Antes do golpe de 1964, Tio Tonho realizava quadros em que mostrava o sofrimento e a opressão das minorias. Nos anos 1970, quando o País vivia momentos de intensa repressão, voltou-se, como muitos artistas do período, para o folclore, tema que não corria o risco de ser censurado.

O trabalho de Tio Tonho identificou-se cada vez mais com o primitivismo, seja pelo autodidatismo do pintor como pela sua temática voltada para as festas populares e as situações cotidianas, como os botequins e seus freqüentadores. O impacto de suas telas amplamente coloridas não tardou a repercutir postivamente e o pintor realizou sua primeira individual, em 1976, em Brasília, DF, sendo que, no ano seguinte, foi incluído no livro Cem anos de artes plásticas de Belo Horizonte, como um dos maiores primitivistas do século em Belo Horizonte.

As festas populares do pintor mineiro encantam pela habilidade de compor grupos de pessoas distribuídos em harmonia pela tela. Um procissão conta com dezenas de pessoas que se movimentam em composições de cores que parecem acompanhar o caminhar das pessoas.

O uso de um colorido intenso e de figuras diminutas em grandes conjuntos humanos, tanto uma congada de São Benedito como uma escola de samba, possibilita excelentes resultados. O mesmo recurso pode ser utilizado em figuras maiores, como em Crioulo apaixonado, tela em que as tonalidades contribuem para reformar o sentimento do personagem central perante a amada.

A virada de milênio trouxe uma nova fase na carreira de Tio Tonho. Após sofrer uma isquemia, começou a realizar trabalhos com a mão esquerda, com menor grau de detalhamento e número de figuras, mas mantendo suas principais características, como o uso de cores intensas e a harmonia interna dos quadros.

A arte de Tio Tonho é regida justamente pela capacidade de equilibrar suas imagens de forma espontânea. É nas festas populares que a naturalidade do traço encontra sua expressão mis adequada. As tradições que elas encerram ganham, nas imagens do artista, uma expressão de singelo encantamento. Ficam assim registradas pictoricamente, com cores intensas e plenitude de detalhes, alguma das danças e manifestações folclóricas que se espalham pelo interior mineiro.

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

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"Congado de São Benedito"

O.S.T - 80X110 - 1996

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