por Oscar D'Ambrosio


 

 


Tereza Rangel

 

Júbilo de cores

 

Encontrar a relação apropriada entre cores, formas, disposição do desenho no papel e quantidade de água e tinta é o grande desafio do aquarelista. Não basta apenas domínio técnico ou extrema sensibilidade. Emoção e razão precisam se conjugar para criar imagens que conquistem olhos e corações.

As aquarelas de Terezinha Freire Rangel, que assina suas aquarelas como Tereza Rangel, tem o mérito de conjugar a composição estética com elementos emotivos. São o resultado de um cuidadoso trabalho e fascinam pela maneira como articulam recursos próprios do fazer artístico com riqueza imagética.

Nascida em Laranjeiras, SE, em 23 de novembro de 1930 e radicada em São Paulo, Tereza é aquarelista há pouco mais de cinco anos, após ter experimentado diversas formas de expressão, como mosaico, decoupage, marmorização de papel, vitral e aquarela em seda pura.

Foi justamente nesta última atividade, que a artista descobriu o fascínio de equilibrar formas e cores na criação de um universo estético, podendo criar mundos mágicos e encantados. O estudo de desenho com Roberto Rondino e de estamparia em tecidos com Zoravia Betiol também foram decisivos.

Tereza, que gostava de pintar desde o curso primário, recorda como apreciava colorir mapas com intensos verdes e azuis, correspondentes a montanhas, mares e rios. Ao estudar Biologia, no entanto, afastou-se das artes, trabalhando durante 16 anos no Hospital das Clínicas, em São Paulo, na Seção de Líquido Céfalo Raquidiano.

Uma das atividades de Tereza era examinar lâminas ao microscópio. Via, nessa prática cotidiana, belas imagens abstratas que a fascinavam, embora soubesse que muitas delas eram causadoras de terríveis doenças, algumas mortais. Essa relação curiosa e complexa entre beleza e morte foi uma das preocupações da artista.

A atividade, de uma forma ou de outra, contribuiu para o desenvolvimento do atual senso estético de Tereza, que é aprimorado constantemente no estúdio da aquarelista Ivani de Castilho, um ambiente livre, fraternal e bem humorado, ideal para a experimentação e a busca de uma realização estética cada vez maior.

Exposições de pintura em seda, em Portugal, e diversas mostras de aquarela pelo Estado de São Paulo enriquecem o currículo da artista e comprovam o seu talento para enfrentar as dificuldades cotidianas do aquarelista, ou seja, a eterna procura de um ponto comum entre a idéia que se tem na cabeça e o resultado atingido por meio da água e da tinta.

É na expressão artística abstrata que Tereza alcança os seus melhores resultados. Momentos de júbilo ou de tristeza surgem em plena intensidade, com cores e formatos próprios, numa linguagem peculiar, resultado de muito trabalho e da mescla entre a capacidade técnica e a riqueza interior.

Os contrates entre claros e escuros criam atmosferas imaginárias, plenas de sensibilidade. Os caminhos da tinta instauram um mundo denso, existencialmente rico. Imagens semelhantes a nuvens ou montanhas interagem no estabelecimento de diversos climas, que incluem desde a meditação filosófica à alegria de existir.

Intensidades mais dramáticas surgem em trabalhos como Turbulência, em que o diálogo entre um amarelo-areia e um azul-céu, no centro da obra, se mesclam numa confusão de sentimentos, que aponta para os dilemas existenciais humanos, principalmente a eterna insatisfação e a incapacidade de lidar com os conflitos ou, ao menos, a dificuldade de solucioná-los sem dor.

As paisagens de Tereza costumam ser mais plácidas. Azuis, amarelos e verdes muito peculiares surgem nessas obras, sempre em jogos cromáticos intensos. Não são meras representações da realidade, mas aquarelas bem realizadas pela capacidade de controlar a técnica desse processo pictórico e um gosto estético refinado, que não se rende a soluções fáceis.

Tereza Rangel encontra na aquarela sua legítima expressão imagética. No meio aquoso, suas idéias e sentimentos ganham forma. Surgem assim imagens que conciliam o domínio técnico com uma constante proposta ética e moral definida de melhoria contínua. Esse compromisso garante trabalho de qualidade no presente e assegura uma produção coerente e bela no futuro.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP)

 

 

 

 

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 Explosão de júbilo 

aquarela - monotipia 35x25 cm - sem data

Tereza Rangel

 

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