por Oscar D'Ambrosio


 

 


Tercília

 

            O ato de criação

 

            O ato de criar está cercado por numerosos mistérios, que vão desde o ato de fazer uma obra de arte até as múltiplas possibilidades de recepção. O trabalho da artista catarinense Tercília ilustra justamente como o maior desafio de um trabalho plástica está na capacidade de abrir mão dos próprios conceitos para penetrar no universo do outro.

            Nascida em Piratuba, oeste de Santa Catarina e residente hoje em Florianópolis, Tercília dos Santos realizou a sua primeira exposição em 1990. Premiada em 1998 e em 1994 na Bienal de Arte Naïf do SESC Piracicaba, desenvolve, em acrílico sobre tela, uma linguagem visual própria, com algumas características bem delimitadas.

            Uma delas é a forma como constrói as suas flores, principalmente os girassóis. Tornam-se marcas registradas de forte expressão plástica, resolvido com alguns poucos traços e com grande intensidade de cor. A repetição de um mesmo motivo gera uma cadência quase narrativa, em que as flores são iguais, em termos de um assunto, mas diferentes, enquanto frescor no processo criativo.

            Outro aspecto diferenciador da arte de Tercília está na forma de retratar as pessoas. São autênticos bonequinhos colocados lado a lado com algumas variações de posição. A criação de ambientes com eles remete a um mundo infantil e de sonhos, onde todo desejo é possível.

            As árvores, com troncos coloridos em faixas horizontais e os caules repletos de folhas repetidas em um mesmo padrão visual também são reconhecíveis à distância, assim como a presença de um caminho que cruza a tela, geralmente na horizontal, com algumas curvas.

            Flores, pessoas, árvores e caminhos se articulam em harmonia. As pessoas, seja em plantações, no universo rural, ou junto a casas, no ambiente urbano, compartilham uma mesma característica. Surgem geralmente de frente ao observador do quadro. São quase sempre mulheres, em vestidos amarelos, vermelhos, azuis e lilás a nos indagar com sua pureza sobre nossa opinião sobre o trabalho.

            As figuras humanas, flores, animais quadrúpedes e casinhas constituem um universo plástico que segue um padrão bem determinado. Eles surgem em variadas composições que exploram as dimensões das cores, com uma marcada presença do verde como elemento unificador das estruturas visuais.

            Negra em um Estado de prevalência de imigração européia, Tercília também leva as mencionadas marcas de sua pintura para objetos caseiros como toalhas de mesa, almofadas e tapetes, sendo que seus desenhos já foram até utilizados por uma confecção catarinense, numa prova de que existe hoje pelo mercado chamado erudito uma demanda de autêntica arte popular, desde que  feita com serenidade e verdade interior.

            A arte de Tercília comporta exatamente essa sinceridade no ato de criar. Seja em suas cenas mais ligadas ao campo ou naquelas de crítica social, em que mostra a polícia em ação e mesmo um cemitério, ela não perde o que mais a caracteriza enquanto artista plástica: o processo de composição diferenciado, com uma estrutura interna própria, em que cada flor, árvore ou conjunto de pessoas contribui decisivamente para a harmonia visual do quadro como um todo.

                       

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (Aica – Seção Brasil).

 

 

 

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 Os sábios e os tolos 

acrílico sobre tela 50 x 70 cm 2002

Tercília

 

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