por Oscar D'Ambrosio


 

 



Tavares

O humor crítico

Contam que a melhor maneira de enfrentar um auditório imenso é imaginar que o público está todo vestindo roupas íntimas. Assim, ao visualizar uma pessoa na intimidade, torna-se mais fácil expor uma idéia sem ser traído pelo nervosismo. O pintor Tavares realiza esse trabalho em seus quadros sobre a sociedade. Pelo riso, desnuda e mostra mazelas do mundo em que vivemos.

Filho de um imigrante português de Belmonte, terra de Pedro Álvares Cabral, Camilo Eduardo Tavares nasceu em 1932, em São Paulo. Autodidata, começou a pintar por volta dos dez anos, valendo-se de um humor bem popular em seus quadros que mostram escolas de samba, a vida de pequenas cidades interioranas, gafieiras, candomblé e festas folclóricas, como as juninas.

Uma tela como Escola de Samba Mangueira, de 1998, ano em que, em seus 70 anos, a instituição homenageou o cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda, apresenta grande riqueza de detalhes, com homens dançando samba em camisas listradas ao lado de mulatas com roupas sumárias e tamborins.

Uma característica peculiar das telas de Tavares são os seios sempre apresentados em relevo, o que exige um tempo maior de secagem da tela. Outro aspecto bem significativo está em apresentar as janelas das casas geralmente abertas. Desse modo, é possível visualizar a intimidade das pessoas, principalmente homens assediando mulheres.

Com cores brilhantes e alegres, colocadas a serviço de um grande senso de observação, ironia e espírito crítico, Tavares trata de batidas policiais em favelas a imagens de capoeira, além de realizar pinturas religiosas, num estilo mais acadêmico, que lhe valeram, em julho de 2001, inclusive Referência Especial no I Salão de Arte Sacra promovido pelo Núcleo de Arte e Cultura do Litoral Paulista.

Após sua estréia no Salão Almeida Júnior, em 1973, em São Paulo, seguida de sua primeira individual, no ano seguinte, na Galeria do Hotel Intercontinental, no Rio de Janeiro, Tavares obteve reconhecimento nacional e internacional, com telas exibidas na Alemanha, Espanha – no Museu de Arte Naïf, em Figueras, EUA, França, Itália e México.

Para o crítico de arte Joseph Luyten, da Associação Brasileira de Críticos de Arte, o artista paulista é um "documentarista de usos e costumes desta terra, que não aparecem em cartões postais nem em catálogos do governo, mas que talvez por isso mesmo são mais reais e humanos".

Tavares, que expõe seus quadros na Praça da República, aos domingos, há 35 anos, participou também da Bienal de Pintores Naïfs de Piracicaba, em 1996 e em 2000. Nesta última, conseguiu classificação com dois quadros. Em Futuros atletas nas Olimpíadas Sesc, homenageia a instituição promotora do evento, com diversas pequenas cenas simultâneas de jovens praticando esporte.

O curioso é a predominância do estilo primitivista nessas imagens. As mais diversas atividades são apresentadas, como salto com vara ou corrida. Alguns merecem especial destaque como a imagem de um jogo de vôlei em que a rede, em vez de ser pintada da forma correta, vai até o solo, separando totalmente os dois campos da quadra. Outro detalhe denunciador do estilo: os rapazes que praticam salto sobre barreiras vestem camisas da seleção brasileira de futebol, não as camisetas regata, sem manga, apropriadas dessa modalidade.

Nós perdemos o Paraíso, exibido na mesma exposição, também reúne dezenas de figuras, prevalecendo a de um anjo armado de espada e a de Eva oferecendo a fruta do pecado a Adão. O comentário escrito no trabalho é revelador: "Nós perdemos o Paraíso, mas ganhamos o amor, o sexo, o nascimento, o ciúmes [sic], a inveja, o ódio, a raiva, a gula, a avareza, o trabalho, a fadiga, a guerra, a fome, a peste, a dor, as doenças, a cura, a alegria, a saudades [sic], o combate, a guerra, o envelhecimento e a morte".

Tavares apresenta ainda uma faceta com imagens mais fortes, com maior apelo sexual, como o que mostra um bando de cangaceiros invadindo uma cidade, estuprando as mulheres, enforcando inimigos e se vingando daqueles que não os ajudavam em sua jornada. Tudo isso é mostrado em dezenas de pequenas imagens, que dão ao quadro uma fascinante dimensão narrativa que torna a tela um delicioso quebra-cabeças.

O artista também realiza quadros sobre as mais variadas profissões, como engenheiro, advogado ou professor. Permanentemente ligado com a realidade contemporânea, recheia as telas de dizeres, aconselhando as crianças a escovar os destes, no caso do quadro sobre os dentistas, e traçando um comentário sobre os medicamentos genéricos, na tela dedicada aos farmacêuticos.

Consciente de seu talento como artista primitivista de cunho popular, Tavares já declarou: "Não me considero um dos melhores ou famosos artistas, mas tenho a certeza que quando eu morrer, deixarei nos meus quadros a minha presença viva. A maior consideração que tenho é com a arte, a cultura e o folclore, que são a ponte onde repousam toda a grandeza de um povo."

Ele expressa assim os caminhos da própria arte: "Quero somente mostrar coisas vistas ou sentidas originalmente sem imitações ou desvios de qualquer motivo, ato ou ações. Por todos os lugares que andei mostrei meu estilo próprio primitivo no folclore. Nas festas religiosas, nos subúrbios, favelas ou cidades, os meus quadros são carregados de humanismo, amor e realidade, pois quem leva a vida com amor e arte é feliz."

Com seu humor corrosivo da sociedade, imagens espalhadas em narrativas particulares que compõem um todo harmônico e cores geralmente bem brilhantes, o artista paulista transmite vivacidade. Passistas de escolas de samba, cangaceiros ou participantes de festas populares, por exemplo, são mostrados em intensa atividade.

Tavares oferece um olhar diferenciado sobre temas bem conhecidos. Novas visitas são necessárias a cada tela, pois as detalhadas histórias que ele conta não podem ser absorvidas de uma única vez. Por isso, cada quadro, repleto de detalhes, geralmente com cenas bem humoradas, surge sempre pronto a surpreender e a lembrar da máxima latina ridendo castigat mores, ou seja, "rindo, criticam-se os costumes".

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

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"Escola de Samba Mangueira"

A.S.T - 50X35 - 1998

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