por Oscar D'Ambrosio


 

 


Tanida Felipin

 

            A poética dos caminhos

 

            “O caminho para cima e o caminho para baixo são os mesmos”, disse o filósofo Heráclito (540-480 a. C.). Para a pintora Tanida Felipin, de fato, todos os caminhos existem para serem pintados, permitindo uma infinidade de variações em termos de cores, composições e profundidades.

            Nascida em Mandaguaçu, PR, em 27 de julho de 1951 e radicada em Cuiabá, MT, desde 1984, a artista plástica faz hoje de cada imagem um ato de devoção à natureza. Em cada tela, o uso de cores é econômico, optando-se pela gradações praticamente infinitas, recurso que dá a cada trabalho uma dimensão muitas vezes quase mística.

            Cada caminho torna-se um portal para outras dimensões. É o conhecimento técnico que propicia essa possibilidade de ter uma temática preferencial sempre variando nas realizações pelos aspectos formais de cada quadro. As sombras dos caminhos, por exemplo, funcionam como elementos misteriosos, criados com extremo cuidado.

            O domínio da perspectiva e da proporção esmerada confere às obras um atrativo especial. A ausência da figura humana, no entanto, permite o estabelecimento de imagens que falam da vida de outra maneira. A técnica desenvolvida em duas décadas de pintura se soma a uma concepção plástica em que o equilíbrio predomina.

            Os portais a que Tanida nos conduz são os de árvores enfileiradas como um exército de pensamentos. Ao final delas, uma luz sempre indica o início de uma nova jornada. Desse modo, a jornada nunca termina, mas se multiplica infinitamente por veredas cada vez mais líricas.

            Os caminhos da artista são limpos pela ausência de obstáculos físicos, mas, acima de tudo, pela forma como a paleta de cores é utilizada. A preocupação suprema da harmonia evita choques cromáticos e estimula a progressiva busca por um caminho ideal, aquele que virá na próxima tela, pronto a ser superado por outra composição.

            Troncos e folhas, em graus variáveis de luminosidade e certeiras combinações de cores, articulam caminhos convidativos, geralmente sombreados, sempre prontos a nos receber. Passear visualmente por eles é integrar uma poética diferenciada, a do silêncio e a do implícito.

Tanida Felipin oferece um lirismo comedido, em que o gesto pictórico se faz presente em cada pincelada precisa e em cada massa de cor milimetricamente colocada. Os seres humanos não estão presentes – e não fazem falta. São eles, ou melhor, nós, observadores das telas, que completamos cada quadro.

Com nosso olhar, percorremos os percursos sugeridos pela artista e, maravilhados, percebemos que Heráclito tinha toda razão: todos os caminhos são iguais. Podem ir para cima, para baixo, para a direita ou para a esquerda. Basta que sejam bem pintados como os de Tanida Felipin.

 

 Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

           

 

 

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Sem título 
70 cm x 90 cm técnica mista sem data

Tanida Felipin 

 

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