por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

  Tai Hsuan-An

 

            Ponte entre mundos

 

            Um dos principais fascínios da arte é a sua capacidade de estabelecer pontes entre pessoas, nações, continentes e visões de mundo aparentemente muito diferentes. O bom artista é justamente aquele capaz de manter viva uma postura indagadora, sempre pronta a desafiar o observador com o talento de seus trabalhos.

            A obra de Tai Hsuan-An, nascido na China, em 1950, é um exemplo disso. O seu trabalho pictórico apresenta elementos da arte oriental, incorporando, cada vez mais, fatores oriundos de sua convivência com o ocidente. Nesse sentido, destaca-se a sua capacidade de criar trabalhos que provocam estranhamento justamente por harmonizar elementos que a crítica mais tradicional considera até irreconciliáveis.

            Tai veio para o Brasil aos 15 anos e se estabeleceu em São Paulo, SP. Oriundo de uma família de artistas, toda a sua educação do país de origem foi voltada para o desenvolvimento de seu talento. Gerando uma sólida formação na pintura clássica chinesa, principalmente na forma ímpar dessa cultura trabalhar com as paisagens e a natureza.

            Em São Paulo, foi aceito como discípulo do mestre Sun Chia Chin, em Mogi das Cruzes, aprimorando, de 1967 a 1976, o seu amor e a sua prática na pintura oriental. No ano seguinte dois fatores vão alterar a sua vida. Termina a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP) e se muda para Goiânia, tornando-se professor de Artes Plásticas e Design no Departamento de Artes e Arquitetura da Universidade católica de Goiás.

            Apesar de ser logo reconhecido pelo seu talento com as paisagens chinesas, Tai sente a necessidade interior de buscar novos caminhos para o próprio trabalho. Realiza experiências com gravura e xilogravura, mas, ao sair com amigos pintores pelos arredores de Goiânia, descobre um mundo novo.

            O artista percebe o potencial pictórico das casas, cercas de arame farpado, cortinas compostas de retalhos e aves nos quintais. Surge assim o interesse por levar para a tela os fundos de quintais do município. Essa transposição, porém, carrega consigo a mescla de tendências já mencionadas.

            Se, por um lado, como ocorre no Oriente, Tai utiliza enormes vazios que libertam a capacidade imaginativa do observador de seus quadros, criando espaços para o quadro “respirar” e possibilitando a oportunidade de reflexão; por outro, a utilização de cores mais intensas, próprias da fauna brasileira, surgem como elementos ocidentais das telas do artista.

            Posteriormente, realizou painéis para a Pousada Caiman, em Miranda, Mato Grosso do Sul, onde mostra toda a força da exuberante natureza do Pantanal. Trata-se de uma pesquisa de inspiração mais realista, mas que exige grande competência técnica em sua execução.

            O passo seguinte foi a busca de uma liberdade cada vez maior em suas composições. As paisagens começaram a ser fruto de sua imaginação, assim como as aves retratadas. Embora realize trabalhos de pesquisa para a ilustração de livros didáticos e publicações sobre animais brasileiros, principalmente araras e periquitos, em sua obra pictórica, Tai começa a se permitir cada vez mais o livre uso de seu poder artístico de transformar a realidade.

            Evidencia-se assim como a experiência milenar chinesa da arte sobre o papel e o diálogo colorístico ocidental se cruzam e interpenetram. Gatos preguiçosos surgem em meio a retalhos marcados pela justaposição de tons e garças elegantes, entre paisagens paradisíacas.

Pouco a pouco, a natureza também se rende ao traço e ao olho de Tai. Bananeiras e bambus ganham cores inusitadas, como azul ou vermelho, e as folhas da vegetação começam a se desmanchar pictoricamente em nome de imagens cada vez mais ricas em movimento, onde o artista explora ao máximo seu potencial técnico de desconstruir e construir elementos da natureza sob uma nova perspectiva.  

Outras vezes, o artista, estudioso de biônica, disciplina da área de projetos que trata do estudo morfológico  e estrutural das estruturas biológicas e mecanismos encontrados na natureza, procurando aplicar estes conceitos a produtos ou construções arquitetônicas, oferece quadros em que a geometria de uma planta ou de uma árvore ganha o primeiro plano.

Tai Hsuan-An não é apenas uma ponte entre mundos. Seu trabalho artístico ganha autonomia e originalidade quando é capaz de realizar, ao longo de sua trajetória, desde manifestações próximas à milenar arte chinesa, imagens realistas do Pantanal, imagens de ratinhos em grupos que simbolizam a própria atuação do ser humano e poéticas reflexões visuais sobre os fundos de quintal de Goiânia. Tudo isso se articula no momento contemporâneo, quando, livre de qualquer amarra estilística, deixa soltar o poder de seus pincéis para tratar a natureza de forma muito pessoal e cada vez mais criativa, numa sábia mescla entre a delicadeza e o lirismo do Oriente e uma palheta progressivamente tropical.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

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Vôo sobre lago

acrílica sobre tela

130 cm x 130 cm - sem data

 Tai Hsuan-An


 

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