Taglia
As formas que voam
Discutir o significado
da arte é fundamental para alguns criadores. É o caso de Sérgio
Tagliavini Júnior, o Taglia. Seu trabalho de arte computacional,
ao lidar com novas tecnologias que se intercruzam, principalmente
as artes plásticas e a música, evidencia o desejo de abarcar
diferentes formas de expressão para dar vazão a sua concepção
de mundo, atingindo os sentidos, a inteligência e a emoção do
observador.
Nascido em 4 de maio de
1955, em São Paulo, SP, Sérgio Tagliavini Júnior, que adota o
nome Taglia em suas produções artísticas, conta que é o
resultado da mistura de uma mãe alemã, do pai italiano e da própria
identidade brasileira. Na infância, já escrevia contos
surrealistas e desenhava com caneta esferográfica ou bico de
pena. "Quando cursava o primário, era repreendido pelas
professoras ao ser pego rabiscando com caneta bic preta, formas
sem formas em meus cadernos", conta.
Graduado em Administração de
Empresas, atividade que nunca exerceu, Taglia já viveu desenhando
quadros de casarios em bico de pena e também fez trabalhos de
artesanato com vários materiais. Atualmente, porém, cria e
desenvolve sites. Além de compor canções e desenhar diretamente
no computador. "Defino minha arte como a pintura do novo século
com tendências ao futurismo abstrato, hoje conhecido como arte
computacional", explica. "Crio centenas de desenhos
decorativos, utilizando vários softwares e técnicas."
Quanto à fonte em que
bebe para realizar seu trabalho, Taglia diz: "Busco inspiração
dentro de meu peito, dentro de minha mente, viajando pelo mundo
das cores no país das formas". Seu projeto imediato surgiu
após ler em uma revista de informática em que o todo-poderoso
Bill Gates havia decorado a sua sala de estar com 10 telões eletrônicos,
cada um com a capacidade de mostrar até dez quadros visuais.
"Resolvi pintar no computador, mas cada telão desses custa
aproximadamente US$8 mil. Uma alternativa mais barata e viável é
escolher 20 trabalhos dos meus arquivos e transformá-los em
pinturas a óleo de 70 x 90 cm. Farei então uma exposição com
os quadros virtuais e suas versões reais", planeja.
"Tudo isso, regado por canções eletrônicas, lançadas num
Cd-Rom."
Desde os oito anos,
Taglia dedicou-se à composição de melodias e letras,
inicialmente voltado ao rock progressivo e, depois, na adolescência,
à Música popular brasileira . Hoje, como músico, compositor e
arranjador, volta-se para a New Age e a chamada World Music.
"mas nunca deixo de lado aquilo que é bonito e bem
feito", acrescenta.
Essa presença da música
New Age, pode ser melhor mensurada se lembramos que Taglia, católico
de nascimento, passou por seitas evangélicas e pelas religiões
orientais. "Hoje acredito em tudo que transmita amor e
verdade. Embora eu diga que não tenha uma temática preferida, o
sol comparece em mais de 20 quadros, sendo motivo de uma série",
afirma. "A eterna mutação é a principal característica de
minha carreira".
O trabalho
"Sol" impressiona pelo uso do amarelo em várias gradações.
As formas se liquefazem num discurso visual que remete a imagens
de Salvador Dali e a formas de Kandinsky. Há todo um paralelismo
acima e abaixo de uma fictícia linha do horizonte. Formas
circulares e traços se combinam num resultado estético de
extrema delicadeza e bom gosto.
Em "Sky", é a vez do
violeta e do azul dialogarem num predomínio maior do
abstracionismo, mas que não afasta de um princípio que rege todo
o trabalho do artista: a busca do diálogo entre as formas
transmitindo paz e quietude. Horizontalidade e verticalidade se
relacionam com desenvoltura, principalmente pelas duas formas
arredondadas mais ao fundo do quadro.
"Sol nascer quadrado", por
sua vez, trabalha sobre uma frase que alude à geometria e faz
lembrar o campo semântico de uma cadeia. O que se vê, no
entanto, é um retângulo levemente descolado à direita da tela,
enquanto figuras verticais dão um certo toque surrealista à
imagem. A composição se mantém equilibrada pelos tacos
verticais estrategicamente dispostos para dar um bom resultado à
composição.
O cotidiano de Taglia divide-se entre
a criação artística propriamente dita e os sites criados para
dezenas de clientes que o procuram para divulgar seus produtos e
empresas na rede mundial de computadores. À frente de seu
microcomputador, ouvindo música com a gata Luna ao colo, em meio
a seus aquários e plantas, diz que treina para não sair de casa.
"Não quero ser pego de surpresa pelo modo de vida que irá
imperar nos próximos anos", diz. "Como milhões de
outros artistas, acredito no potencial da internet."
Empenhado em dar a suas idéias um
formato pictórico caracterizado por um estilo facilmente
identificável, Taglia soma a esse trabalho visual a criação de
melodias. A combinação resulta num profícuo dialogo entre essas
duas manifestações artísticas. As pinturas, por si mesmas, dão
a idéia de leveza e de flutuação; e a música reforça esse
sentido.
As formas de Taglia voam pela tela do
computador pela maneira como o artista sabe trabalhar o conceito
de espaço. O virtual é o universo em que suas imagens e cores
interagem com plena eficiência remetendo a uma outra realidade,
aquela que está no âmago de todos nós. Sua arte é realizada
com destreza, fruto de muito estudo e trabalho, e de uma consciência
artística elaborada, resultado da reflexão profunda sobre o que
se está fazendo e a forma como os materiais são dominados.
Taglia oferece um resultado bem
acabado. Sua arte computacional não é um grito gratuito de
revolta ou de esperança. As imagens vêm de uma mente articulada
no esforço de criar o prazer, deleitando a visão, a audição
– no caso da música – , a racionalidade e os sentimentos de
cada um que se propõe a mergulhar na interpretação e na análise
de seus quadros, virtuais ou não, com formas que voam a estimular
a imaginação.