Tadeu Jungle
A busca
pelo Graal
A busca
do Santo Graal, o célebre cálice no qual José de Arimatéia
teria guardado o sangue derramado por Cristo enquanto sofria na
cruz vem, desde o século XII, mobilizando, consciente ou
inconscientemente a imaginação humana. Uma análise dos poemas e
imagens pictóricas sobre essa sagrada jornada leva a concluir que
o autêntico Graal, com o poder de saber e de curar, estaria
dentro de cada indivíduo.
Na
exposição de fotografias Estradas, Camas, Reflexões, na Galeria
Valu Oria, em São Paulo, o artista multimeios Tadeu Jungle, ao
reunir imagens de camas e estradas nas quais, respectivamente,
dormiu e trilhou durante seus últimos cinco anos de sua viagem
existencial, apresenta, de forma simbólica e talvez inconsciente,
a sua própria busca do Graal.
Formado
em Rádio e Televisão pela Escola de Comunicação e Artes da
Universidade de São Paulo em 1980 e com uma trajetória que
inclui atuação em vídeo, televisão, poesia e o vínculo entre
artes plásticas e fotografia, Jungle cria, neste trabalho, uma
floresta de significações, a começar pela técnica, pois os
negativos fotográficos foram tratados digitalmente, ampliados e
impressos em cetim, aço e linóleo. Além disso, os vídeos Tudo
pode (Perder-se) e Sempre tem mais, ambos com dez minutos,
tratando dos mesmos temas – camas e estradas – também são
exibidos.
Pequenos
textos são bordados, nos tecidos em que estão reveladas as
camas, e pintados, nas placas de metal em que estão impressas as
imagens de estradas. As palavras, oriundas de diversos autores,
como o próprio Tadeu Jungle, o contemporâneo Paul Auster, o seco
João Cabral de Melo Neto, o enigmático Hamlet shakespeariano, o
místico filósofo Nietzsche, a simbolista poeta Cecília
Meireles, o enigmático romancista Machado de Assis, o labiríntico
psicólogo Jung e o sensível artista plástico Leonilson.
Realiza-se
assim uma espécie de jam session. Do vídeo, Jungle tira o
enquadramento original das camas e estradas; da televisão, uma
linguagem ágil, que rapidamente se comunica com o observador; da
poesia, os trechos das obras literárias que se integram ao todo;
e da fotografia, a busca constante por novos meios e técnicas de
vislumbrar o real. O resultado é uma mostra de artes plásticas
que obriga a questionar aonde leva a jornada de Jungle e de cada
um de nós.
Em sua etimologia, a
palavra cama significa "leito no solo", aludindo,
portanto não só ao local onde se dorme diariamente, mas também
ao leito onde se é enterrado. Além dessa relação descanso/
morte, está associada à idéia de sexualidade, pois se
"leva alguém para a cama" para fazer sexo; a de
prejudicar alguma pessoa, como na expressão "fazer a cama
de..."; e mesmo a de ajudar ou trabalhar em proveito alheio,
como em "fazer a cama para"...
Curiosamente, todas as
camas estão desfeitas, pois as fotos foram feitas após o artista
dormir nelas. Essa idéia de desordem fascina logo na primeira
olhada. Os travesseiros desalinhados e os lençóis amassados são
um jogo de esconde-esconde entre o muito que eles sugerem e o
pouco que podemos, de fato, saber. São sim documentos deixados
para trás em um percurso de vida impossível de se repetido, por
ser único e multifacetado.
Ao lado
da cama, geralmente há criados-mudos, com garrafas de água e/ou
outras bebidas. São também índices de experiências passadas
entre lençóis. Além disso, a luminosidade escolhida pelo
artista para realizar as fotografias e as múltiplas cores de
paredes, travesseiros, colchas, lençóis e colchões propiciam
momentos de puro prazer estético.
Não se
trata de ver cada cama como parte de um todo, mas cada uma delas
como obra autônoma, com valor plástico e significado acrescido
pelas frases, que dialogam, cada uma à sua maneira, com cada
cama, seja no aspecto da disposição das cobertas, na sua caótica
desordem ou pela distribuição espacial das palavras sobre as
fotografias, num exercício de poesia visual que Tadeu Jungle
conhece muito bem e já o levou a participar de exposições do gênero,
nos anos 1980/90, no Brasil e no exterior.
As
estradas presentes na exposição possuem também um papel
preponderante. Se, como diz o autor no catálogo da exposição,
elas são os elos que levam de uma cama para outra, também são
as veredas que indicam duas direções, a de ida e a de volta.
Percorrer uma estrada é escolher um meio físico e moral de agir
ou de proceder rumo a algum objetivo, que pode ser a fuga ou o
encontro de si mesmo.
Se há
estradas célebres, como o Caminho de Santiago, associado à Via Láctea
do céu, também existem as desconhecidas e anônimas. É o caso
das mostradas por Tadeu Jungle. Ele não identifica camas ou
estradas, o que, se por um lado, lhes dá universalidade; por
outro, as torna quase descartáveis e passageiras, pois sendo de
todos não pertencem à história de ninguém.
As camas
usadas e as estradas, em seu conjunto, podem ser vistas como o
percurso de Tadeu Jungle em busca do seu Graal. Revisitar as camas
em que sono, sonho e morte se aproximaram e rever as estradas
percorridas é um processo artístico de mergulho nas próprias
experiências passadas que liberta da mesmice.
Num
movimento urobórico, em que a serpente engole a própria cauda,
Jungle dá um bote salvador. Ao colocar as frases de sua própria
autoria e de outros, dá um passo avante. Olha o que viveu e o
redimensiona artisticamente. Purifica-se do passado pelo exercício
da memória e se prepara para alcançar o Graal, acessível,
segundo as lendas medievais somente aos puros de coração.
Nas
artes plásticas, a pureza não está em atos de auto-flagelação
ou de contrição medievais, mas na rara capacidade de vislumbrar
o passado sem uma ótica saudosista, mas com a humildade de estar
sempre aprendendo na busca de múltiplas técnicas, processos e
significações.
O Santo
Graal do artista é a capacidade de criar e inovar. Nesse aspecto
Tadeu Jungle é um cavaleiro medieval bem-sucedido. Enquanto o célebre
Ricardo Coração de Leão retornou da III Cruzada purificado, com
um pedaço de madeira nas mãos que acreditava ser parte da cruz
em que Cristo foi sacrificado, Tadeu Jungle, após a exposição
Estradas, Camas, Reflexões, deu mais um passo em sua consolidação
artística.
Nas
estradas dormidas, estradas percorridas e reflexões realizadas,
num rico tripé de diálogo multimeios, Jungle desperta a própria
consciência e a do apreciador de seu trabalho. Cada cama e
estrada indicam um momento, um minuto a mais de estaticidade ou
movimento, de parada ou de jornada.
Nesse processo, a
serpente desperta para a consciência de que o Graal só pode ser
atingido ao se trilhar um caminho individual, por vezes solitário,
repleto de camas e estradas vazias e de poucas e precisas
palavras, todas conjugadas. O desafio de ser um moderno cavaleiro
medieval está em conhecer-se, revelando que a arte é uma viagem,
mescla de sonho e realidade, em busca de um prêmio máximo: a
satisfação de criar, a bênção máxima de qualquer artista,
comparável somente à glória medieval de encontrar o Graal.