por Oscar D'Ambrosio


 

 



Tadeu Jungle

        A busca pelo Graal

        A busca do Santo Graal, o célebre cálice no qual José de Arimatéia teria guardado o sangue derramado por Cristo enquanto sofria na cruz vem, desde o século XII, mobilizando, consciente ou inconscientemente a imaginação humana. Uma análise dos poemas e imagens pictóricas sobre essa sagrada jornada leva a concluir que o autêntico Graal, com o poder de saber e de curar, estaria dentro de cada indivíduo.

        Na exposição de fotografias Estradas, Camas, Reflexões, na Galeria Valu Oria, em São Paulo, o artista multimeios Tadeu Jungle, ao reunir imagens de camas e estradas nas quais, respectivamente, dormiu e trilhou durante seus últimos cinco anos de sua viagem existencial, apresenta, de forma simbólica e talvez inconsciente, a sua própria busca do Graal.

        Formado em Rádio e Televisão pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo em 1980 e com uma trajetória que inclui atuação em vídeo, televisão, poesia e o vínculo entre artes plásticas e fotografia, Jungle cria, neste trabalho, uma floresta de significações, a começar pela técnica, pois os negativos fotográficos foram tratados digitalmente, ampliados e impressos em cetim, aço e linóleo. Além disso, os vídeos Tudo pode (Perder-se) e Sempre tem mais, ambos com dez minutos, tratando dos mesmos temas – camas e estradas – também são exibidos.

        Pequenos textos são bordados, nos tecidos em que estão reveladas as camas, e pintados, nas placas de metal em que estão impressas as imagens de estradas. As palavras, oriundas de diversos autores, como o próprio Tadeu Jungle, o contemporâneo Paul Auster, o seco João Cabral de Melo Neto, o enigmático Hamlet shakespeariano, o místico filósofo Nietzsche, a simbolista poeta Cecília Meireles, o enigmático romancista Machado de Assis, o labiríntico psicólogo Jung e o sensível artista plástico Leonilson.

        Realiza-se assim uma espécie de jam session. Do vídeo, Jungle tira o enquadramento original das camas e estradas; da televisão, uma linguagem ágil, que rapidamente se comunica com o observador; da poesia, os trechos das obras literárias que se integram ao todo; e da fotografia, a busca constante por novos meios e técnicas de vislumbrar o real. O resultado é uma mostra de artes plásticas que obriga a questionar aonde leva a jornada de Jungle e de cada um de nós.

Em sua etimologia, a palavra cama significa "leito no solo", aludindo, portanto não só ao local onde se dorme diariamente, mas também ao leito onde se é enterrado. Além dessa relação descanso/ morte, está associada à idéia de sexualidade, pois se "leva alguém para a cama" para fazer sexo; a de prejudicar alguma pessoa, como na expressão "fazer a cama de..."; e mesmo a de ajudar ou trabalhar em proveito alheio, como em "fazer a cama para"...

Curiosamente, todas as camas estão desfeitas, pois as fotos foram feitas após o artista dormir nelas. Essa idéia de desordem fascina logo na primeira olhada. Os travesseiros desalinhados e os lençóis amassados são um jogo de esconde-esconde entre o muito que eles sugerem e o pouco que podemos, de fato, saber. São sim documentos deixados para trás em um percurso de vida impossível de se repetido, por ser único e multifacetado.

        Ao lado da cama, geralmente há criados-mudos, com garrafas de água e/ou outras bebidas. São também índices de experiências passadas entre lençóis. Além disso, a luminosidade escolhida pelo artista para realizar as fotografias e as múltiplas cores de paredes, travesseiros, colchas, lençóis e colchões propiciam momentos de puro prazer estético.

        Não se trata de ver cada cama como parte de um todo, mas cada uma delas como obra autônoma, com valor plástico e significado acrescido pelas frases, que dialogam, cada uma à sua maneira, com cada cama, seja no aspecto da disposição das cobertas, na sua caótica desordem ou pela distribuição espacial das palavras sobre as fotografias, num exercício de poesia visual que Tadeu Jungle conhece muito bem e já o levou a participar de exposições do gênero, nos anos 1980/90, no Brasil e no exterior.

        As estradas presentes na exposição possuem também um papel preponderante. Se, como diz o autor no catálogo da exposição, elas são os elos que levam de uma cama para outra, também são as veredas que indicam duas direções, a de ida e a de volta. Percorrer uma estrada é escolher um meio físico e moral de agir ou de proceder rumo a algum objetivo, que pode ser a fuga ou o encontro de si mesmo.

        Se há estradas célebres, como o Caminho de Santiago, associado à Via Láctea do céu, também existem as desconhecidas e anônimas. É o caso das mostradas por Tadeu Jungle. Ele não identifica camas ou estradas, o que, se por um lado, lhes dá universalidade; por outro, as torna quase descartáveis e passageiras, pois sendo de todos não pertencem à história de ninguém.

        As camas usadas e as estradas, em seu conjunto, podem ser vistas como o percurso de Tadeu Jungle em busca do seu Graal. Revisitar as camas em que sono, sonho e morte se aproximaram e rever as estradas percorridas é um processo artístico de mergulho nas próprias experiências passadas que liberta da mesmice.

        Num movimento urobórico, em que a serpente engole a própria cauda, Jungle dá um bote salvador. Ao colocar as frases de sua própria autoria e de outros, dá um passo avante. Olha o que viveu e o redimensiona artisticamente. Purifica-se do passado pelo exercício da memória e se prepara para alcançar o Graal, acessível, segundo as lendas medievais somente aos puros de coração.

        Nas artes plásticas, a pureza não está em atos de auto-flagelação ou de contrição medievais, mas na rara capacidade de vislumbrar o passado sem uma ótica saudosista, mas com a humildade de estar sempre aprendendo na busca de múltiplas técnicas, processos e significações.

        O Santo Graal do artista é a capacidade de criar e inovar. Nesse aspecto Tadeu Jungle é um cavaleiro medieval bem-sucedido. Enquanto o célebre Ricardo Coração de Leão retornou da III Cruzada purificado, com um pedaço de madeira nas mãos que acreditava ser parte da cruz em que Cristo foi sacrificado, Tadeu Jungle, após a exposição Estradas, Camas, Reflexões, deu mais um passo em sua consolidação artística.

        Nas estradas dormidas, estradas percorridas e reflexões realizadas, num rico tripé de diálogo multimeios, Jungle desperta a própria consciência e a do apreciador de seu trabalho. Cada cama e estrada indicam um momento, um minuto a mais de estaticidade ou movimento, de parada ou de jornada.

Nesse processo, a serpente desperta para a consciência de que o Graal só pode ser atingido ao se trilhar um caminho individual, por vezes solitário, repleto de camas e estradas vazias e de poucas e precisas palavras, todas conjugadas. O desafio de ser um moderno cavaleiro medieval está em conhecer-se, revelando que a arte é uma viagem, mescla de sonho e realidade, em busca de um prêmio máximo: a satisfação de criar, a bênção máxima de qualquer artista, comparável somente à glória medieval de encontrar o Graal.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

 

 

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