por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

 

Sylvio Pinto

 

Muito além das marinhas

           

Quando se cita a obra do artista plástico Sylvio Pinto (Rio de Janeiro, RJ, 1918 -1997), logo vem à mente o consagrado pintor de marinhas, que o colocam geralmente em já célebres textos críticos, de Antonio Olinto e Carlos Heitor Cony,  ambos da Academia Brasileira de Letras, ao lado de mestres da pintura brasileira do Grupo Bernardelli, nos anos 1930, como Pancetti, Bustamante Sá, Malagoli, Milton da Costa, sob orientação de Manuel Santiago.

            O trabalho de Sylvio Pinto surge sempre associado ao de Pancetti pela temática do mar, que desenvolveram juntos. No entanto, pouco se fala da relação do artista com outros temas, de cunho mais popular, que também lhe asseguram um lugar importante na história da pintura brasileira.

             Afinal, entre o momento que realizou as suas primeiras pinceladas sob orientação paterna, na oficina de propaganda da família, e a direção de uma escolinha de arte para crianças pobres, muitas telas conheceram não apenas o universo do mar, mas também outros assuntos.

            Poucos se lembram que Sylvio Pinto fez decoração para carroças e charretes, participou da fundação da Escola de Samba Unidos do Jacarezinho, envolveu-se com as atividades da Estação Primeira de Mangueira, decorou paredes de bares e restaurantes, carros funerários, caixões e velórios.

Além disso, em 1952, quando ganhou o Prêmio de Viagem à Europa no salão nacional de Belas Artes, não recebeu a honraria por uma marinha, mas pelo quadro Ladeira em Santa Teresa. Isso mostra que tratar o artista carioca apenas como um criador de atmosferas marinhas é uma grande injustiça.

            A sua técnica refinada e progressivamente aprimorada ao longo do tempo também se voltou para outros temas. Um deles foi o das favelas e morros cariocas. Em suas composições, a disposição das pequenas casas coloridas é fundamental, revelando preciosismo na maneira de distribuição dos elementos no quadro.

            Pessoas em tamanho diminuto estabelecem um clima de representação no qual o mais importante, em boa parte das obras, não é cada morador, mas o conjunto. Tem-se uma idéia precisa de como o ambiente fascinava o artista pelas possibilidades de exploração da cor como forma de compor equilíbrios estéticos.

            Outro tema que seduzia Sylvio Pinto, muito associado ao universo popular e deixado de lado pela maioria da crítica, é o dos circos. Está aí a chance de ver a amplidão de recursos do artista, que demonstra familiaridade na maneira de enfrentar as cores e formas como maior liberdade, principalmente quando se debruça sobre a roupa de um palhaço ou quando constrói fundos de tela para criar com sutileza todo o sentimento que rodeia uma apresentação circense.

            O assunto futebol também se faz presente, mas não com tardes de gols no Estádio do Maracanã. O interesse do criador carioca se volta para peladas em bairros, onde o campo é rodeado por pequenas casas com torcida mal acomodada ou apenas a natureza serve de cenário para a romântica partida. Mais uma vez, é a força do povo, por meio do esporte mais popular do País que se faz presente.

            Nas naturezas-mortas, onde Sylvio Pinto exercita seu poder de trabalhar com formas e cores, existe também a demonstração de uma apurada consciência de como as cores mais quentes possuem o poder de atrair o olhar, estabelecendo uma empatia rápida com o observador.

            A mesma facilidade para encantar por intermédio do uso da cor e do equilíbrio torna-se evidente nas meninas negras que o pintor carioca reproduz em suas telas. Há nelas uma mescla de fragilidade e de forte personalidade. São retratos de um Rio de Janeiro pleno de humanidade e sensibilidade.

            Seja nas composições mais realistas ou naquelas em que dilui mais os fundos, o artista consegue expressar alma por meio das pinceladas. Nesse sentido, diferencia-se de Pancetti, cujas praias raramente apresentam pessoas. Sylvio Pinto, por sua vez, coloca em cena, mesmo nas famosas marinhas, figuras de pescadores, que introduzem toda uma diferença na expressão de mundo do artista.     

            Sylvio mostra amor pela figura e, nesse sentido, tanto faz se está pintando uma prostituta, uma criança ou um trabalhador que todos os dias enfrenta o mar. Sua expressão plástica reserva às pessoas um carinho todo especial e diferenciado. Pintor do mar, sim, mas também entendedor das necessidades e vaidades de cada um de nós.

            Ao retratar uma família caipira, por exemplo, constrói uma sagrada família. O pai, a mãe e os filhos, em sua simplicidade, se complementam com a imagem da santa Ceia na parede e de um São Jorge sobre a mesa, enquanto a panela de barro, o fogão a  lenha e as galinhas ciscando o chão dão um ar pitoresco à cena.

            As texturas das lonas circenses, o contraste entre o grotesco e profundamente humano anão e a elegante girafa, a mulher no mercado fazendo as compras cotidianas e meninas colhendo flores compõem um universo de seres que não podem ser esquecidos quando se pensa no talento de Sylvio Pinto.

            Evidencia-se assim que considerar o artista apenas como um pintor de marinhas constitui um estigma de que ele precisa se libertar. Para lhe fazer justiça, é preciso colocar a sua obra numa perspectiva bem maior, principalmente a forma que concebia os indivíduos, com solene respeito e humildade.

            Se era fascinado pelas tonalidades do mar, nutria um sentimento igualmente importante pelos seres humanos, estivessem numa favela, num circo, no ambiente rural ou num fundo indeterminado. Ele gostava de pessoas e essa afinidade se torna mais aparente à medida que conhecemos melhor o seu trabalho e o podemos deixar isento de clichês.

            Assim, livrando os olhos de pré-conceitos é possível ver em Sylvio Pinto um homem que pintava muito além das marinhas, um ser pronto a se entregar a diversas imagens, muitas de cunho popular. Suas vilas de pescadores são a maior prova disso. Estão ali as pessoas, as casas, o mar e a possibilidade de juntar esses temas com mão de mestre apurada ao longo dos anos.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

 



Pretinha do Jacarezinho
óleo sobre tela 73 x 60 cm sem data  

Sylvio Pinto  

 

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio