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Sutil
O casamento entre a poesia e a gravura pode ser uma união feliz quando se evita uma transcrição literal do texto para a imagem. É exatamente isso o que ocorre em Anima animalis: voz de bichos brasileiros: poesia: nove hai-kais e um poema longo (LetraSelvagem, 152 páginas), com poemas da paraense Olga Savary, em português, espanhol, finlandês, francês, inglês e italiano, e gravuras do carioca Marcelo Frazão. O texto que abre o volume enfoca justamente o colibri com seu poder de disseminar sementes, arte e vida. Na gravura, é ressaltada a fragmentação do movimento incessante das asas do pássaro com sua habilidade de conquistar o espaço e mover-se no ar com agilidade ainda maior que a do tecnológico helicóptero. Em seguida, o bode aparece como símbolo da sexualidade. Conquista a horizontalidade por subir e descer colinas, mas também rege e verticalidade com seu pênis avantajado e seu desejo irrestrito pelas ninfas. Estar com elas amplia seu poder, sendo, ao mesmo tempo, um castigo e uma benção. Quando o apresentado é o cavalo, vem a menção a Mario Quintana. O poeta gaúcho, muitas vezes injustiçado e visto como menor, surge como a referência à elegância do animal e a sua enganadora simplicidade, pois naquelas passadas aparentemente simples, reside uma mecânica complexa. O jacaré é mostrado como uma espécie de dinossauro resistente a todo tipo de intempérie e agressão. Seu casco revela-se entre as águas de forma ameaçadora e forte. Sua estrutura é de uma espécie de tanque anfíbio, sempre pronto a responder ao mundo, mesmo quando parcialmente visível em meio a um mato e no meio de um rio. O lobo-guará é interpretado, tanto na poesia como na gravura, como um animal em estado de alerta, desperto, atento, pronto a agir. Veloz, não titubeia perante as mais variadas situações, como uma espécie de poética réplica ao mundo. Na fronteira entre quem atemoriza e é atemorizado, fascina e indaga. O peixe tem sua imagem cristalizada na barbatana que se movimenta em busca de águas mais profundas e da estabilidade no movimento. O resultado também pode ser interpretado como um mapa hidrográfico ou cartográfico ou ainda como uma imagem aérea. Mesma ligação com a água, tem o sapo. Seu mistério reside entre ele estar no meio dos universos da terra e da água. Acima de tudo, é uma massa, um volume em busca de equilíbrio, um ser pronto a se transformar, mas ciente de seu espaço, que conquistou e domina. O tamanduá, no aspecto visual, talvez seja o mais próximo de um símbolo nacional. Por um lado, é típico do país; por outro, um ininterrupto devorador de formigas e cupins. Se destrói, o faz com graça, com a sua língua repleta de humor e formas plásticas. Nessa conversa com ícones da arte, o touro de Olga e de Frazão evoca o poder de Picasso, a simbologia lunar e mesmo as alusões ao horóscopo. A força desse ser se faz presente na palavra, no verbo, no adjetivo e na imagem como um permanecer vivo e valente numa realidade cada vez mais violenta e competitiva. O último poema do livro não poderia ser mais apropriado. Comparece a imagem do urubu, quase um ser humano, com uma personalidade muito especial, sempre pronto a esperar a morte. Tem paciência e sobriedade como marcas registradas, ambas acentuadas na gravura.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista e mestre
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