por Oscar D'Ambrosio


 


Susumo Harada

Alegoria da castração

Ao contemplar os manequins portando cintos de castidade do artista plástico Susumo Harada, logo vem à mente uma discussão sobre essa forma de repressão sexual criada na Idade Média. No entanto, ao se observar o trabalho com mais cuidado, é possível perceber outras conotações.

Aparelho fechado a cadeado, empregado, a partir do século XI, para salvaguardar a castidade das mulheres, pois os maridos partiam nas Cruzadas para lutar contra os mouros e queriam ter a certeza de que não seriam traídos, o cinto de castidade está associado à questão da fidelidade.

E ser fiel, na Idade Média, era algo muito sério, pois os senhores feudais precisavam ter a certeza de que os filhos de sua esposa haviam sido realmente gerados com o seu sêmen, podendo assim ter direito a suas propriedades, já que a herança era garantida pelo sangue, algo nada fácil de verificar na era pré-DNA.

Descendente de japoneses e residente em Itapevi, Interior de São Paulo, Harada, nascido em 1938, evoca essas questões ao trabalhar com envelhecimento de chapas, cobre, latão e bronze. Desde agosto de 1999, couro e rebites vêm também sendo usados na construção dos cintos a serem vestidos em manequins. No entanto, parafusos e molas são proibidos, pois estariam fora do universo medieval que o artista traz à tona com talento criativo e sensibilidade indagadora.

Mas não se pode limitar nossa visão da obra a um manifesto contra o cinto de castidade ou a favor da libertação sexual da mulher. O pesquisador espanhol Juan-Eduardo Cirlot, em seu Dicionário dos símbolos (Editora Moraes, 1984), alerta que o cinturão, em si mesmo, é um símbolo da proteção do próprio corpo, o que implica em preservar (guardar, assegurar) as virtudes da pessoa.

Entre elas, a fidelidade. Por isso, além das esporas de ouro, um cavaleiro medieval recebia como atributo de sua condição social privilegiada um cinto, indicando sua fidelidade aos ideais cristãos. Paradoxalmente, quando é associado a Vênus, deusa do amor entre os romanos, o cinto se desloca, segundo o autor espanhol, para um contexto fetichista erótico.

Essa ambivalência é captada por Susumo Harada. Suas criações excitam e, ao mesmo tempo, revelam o perigo do ato sexual proibido. No entanto, o fato da relação estar cerceada gera maior ansiedade e desejo, tal como o fruto do pecado oferecido pela serpente do Paraíso a Adão e Eva. O sabor do fruto era desconhecido, mas o simples fato de não estar acessível desperta curiosidade.

No universo lúdico de Harada, o desejo esbarra em tesouras afiadas, armadilhas e complexos mecanismos prontos a extirpar, danificar e lesionar, talvez para sempre, o ousado órgão sexual masculino que busca desafiar as couraças de metal criadas pelo artista.

Todas essas associações são possíveis porque o cinto é uma peça de vestuário de amplo valor simbólico. Preso em torno da cintura, religa o indivíduo a si mesmo. Ao atar, dá força e poder, mas, ao prender e apertar, pode levar à submissão, à dependência e à restrição da liberdade, como ocorre com o cinto de castidade. Como os muros funcionam como cinturões de proteção ao redor das cidades para proteger os inimigos, o cinto de castidade protege o sexo da mulher.

Os estudiosos franceses Jean Chevalier e Alain Gheerbrant apontam, em seu Dicionário de símbolos (José Olympio, 1988) a existência de dois cintos para as mulheres: o de castidade, que oprime; e da mulher virgem, que as jovens costumavam portar com orgulho até a noite de núpcias, quando o esposo o desatava.

Feito de lã de ovelha, o cinto das virgens exalta a fertilidade, que tem seu expoente máximo, no mito greco-romano, em Hércules, que teria deixado 70 filhos. Todavia, se feito de metal e fechado com cadeado, o cinto indica a morte para o sexo. Ao levar a chave o marido (dono) passa a ter o direito de reger a vida amorosa da parceira.

A idéia de cercear e de restringir continuam associadas ao cinto até em nossa linguagem cotidiana. Ao dizer "apertar o cinto", por exemplo, pensamos logo em realizar um corte, uma redução de despesas. Analogamente, as esculturas de Harada cortam e castram falos masculinos.

Um cinto de segurança, por sua vez, prende o motorista, piloto ou passageiro a uma poltrona ou banco, funcionando como uma proteção contra choques ou colisões. Assegura, portanto, a vida. Quando se trata do cinto de castidade, porém, ele restringe, cerceia, impede que a vida se multiplique pelo caminho da concepção.

Há ainda os cintos eclesiásticos, com cores diferentes segundo a hierarquia, que rodeiam a cintura do sacerdote, indicando respeitabilidade perante os fiéis. Analogamente, os cintos e couraças de Harada trazem respeitabilidade pelo seu aspecto majestoso. Os cintos do artista, autênticas armaduras, fascinam e atraem desde o primeiro momento, estimulando novas e renovadas visões sob distintos ângulos.

No século XI, mesma época em que é criado o cinto de castidade, surge Lady Godiva, a valente mulher que circulou nua em cima de um cavalo branco para exigir do marido, administrador de um condado, a redução dos impostos. O contraste entre a mítica mulher e as imagens de Harada não podem ser desprezadas. De um lado, o corpo liberto em contato à força vital do cavalo; do outro, o frio metal separando corpos ansiosos por uma união.

É impossível ainda ver as criações de Harada sem refletir sobre como a mulher vem sofrendo restrições ao longo de sua existência. Coube à estilista Coco Chanel, já no século XX, o mérito de abolir definitivamente o espartilho, que, consagrado pelas mulheres inglesas no século anterior, prendia os seios e as obrigava a encolher o abdome. Ela também criou o tailler, traje composto de casaco e saia, que permitia maior liberdade ao corpo, e popularizou a bolsa a tiracolo, libertando assim as mãos femininas.

Parece incrível, mas o simples fato de não ter as mãos ocupadas constitui um fator novo. É uma conquista de espaço perante um universo de opressão. Isso sem entrar em detalhes no direito ao voto, pois ações como a da socialista inglesa Sylvia Pankhurst, levada à cadeia por suas idéias feministas, permitiram que as urnas fossem abertas para a participação feminina em 1918.

E o cerceamento enfrentado pela mulher não pára por aí. Somente no início da década de 1930, o timbre rouco de Billie Holiday passou a ser reconhecido no mundo masculino como uma autêntica manifestação artística. E quinze anos depois, o biquíni movimenta o mundo. Pernas e barrigas à mostra, as mulheres começam a ganhar as praias de todo o mundo, conquistando o direito de exibir corpos que conviveram com anos de opressão.

O livro O segundo sexo (1949), de Simone de Beauvoir, marco contra a sociedade machista, torna-se uma referência obrigatória para apreender melhor o universo criado por Harada. As palavras diretas e bem fundamentadas da filósofa foram, em grande parte, motivadoras, por exemplo, da revolução feminista dos anos 1960, que levou inúmeras mulheres a tirar o sutiã em praça pública, queimando-o como símbolo da repressão exercida sobre o corpo feminino. Assim, o chamado sexo frágil estava cada vez mais pronto a reivindicar seu merecido lugar na sociedade.

Livre do espartilho, com direito a voto, aceita em seus biquínis e sem a prisão do sutiã, faltava apenas liberdade sexual, obtida com a disseminação da pílula anticoncepcional. Assim, a mulher ganhava, na segunda metade do século XX, controle sobre o próprio corpo e idéias.

No Brasil, em 1971, Leila Diniz comete a ousadia de ir grávida à praia de Ipanema. O escândalo é inevitável, mas a idéia passa, pouco a pouco, não só a ser aceita, como estimulada pelos médicos para que o bebê receba cálcio graças aos raios solares. Encerra-se assim um ciclo. Após libertar o próprio corpo dos grilhões do cinto de castidade, do espartilho e do sutiã, ocorre a maior liberdade: a de poder iluminar livremente o próprio filho ainda no ventre.

Assim, a mulher não só se liberta como ganha autonomia sobre a vida que carrega dentro de si. É verdade que ainda há muito a conquistar, principalmente na esfera das relações do trabalho, como a igualdade de salários, e do combate à violência doméstica, mas, do século XI ao XX, importantes passos foram dados e, como alerta Harada, para cada um deles, foi necessário se livrar de diversos cintos de castidade, que aprisionaram o corpo, a voz, a mente e as ações da mulher ao longo da História.

Harada, em seu trabalho, não só gera essas indagações como serve de alerta a mulheres e homens. Enquanto formos castrados, por qualquer tipo de instrumento, seja um objeto metálico ou um aparelho ideológico, seremos menos humanos e mais robotizados, menos livres e mais sujeitos às pressões da sociedade.

As esculturas de Harada indicam justamente isso: conhecer os cintos que nos prendem é o primeiro passo para se ver livre deles.

 


Oscar D'Ambrosio

O autor é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP, 1999).

 

 

 

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