por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

Susan Sontag, a doença como realidade

 

            Ao falecer, em 2004, aos 71 anos, de leucemia, em Nova York, a ensaísta norte-americana Susan Sontag encerrava a sua própria batalha contra o câncer. Desde 1976, enfrentava a doença no seio, no útero e no sistema linfático, sempre levando publicamente uma mensagem: a de que a responsabilidade da doença não deve ser transferida aos doentes ou a um Deus onipotente.

Para ela, a doença precisava ser vista como fato biológico, não como destino ou expiação de alguma culpa. Em seus livros, mostrou como a medicina, em suas relações com a sociedade, interpretou, muitas vezes, a doença, como uma punição. Isso já vem do século XVIII, quando o pregador e escritor puritano Cotton Mather dizia que a sífilis era um castigo que o juízo justo de Deus reservava aos pecadores.

            A ensaísta estudou como as doenças foram romantizadas e demonizadas principalmente nos livros A doença como metáfora (Graal, 1984) e A AIDS e suas metáforas (Companhia das Letras, 1989). No primeiro, analisa a tuberculose, vista por muitos como metáfora da paixão, e o câncer, analisada como resultado da repressão da sociedade contemporânea sobre o ser humano. Estuda como elas são vistas pela sociedade como se fossem doenças provocadas pelo próprio indivíduo, como uma forma, respectivamente, de purgar pecados ou de reagir perante situações adversas.

            No segundo, mostra que, enquanto o doente de câncer se pergunta “por que eu?”, voltando-se contra um ser superior, o aidético é levado, pelo entorno que relaciona o doente ao homossexualismo e ao consumo de drogas, a questionar as próprias “fraquezas”, “irresponsabilidades” e “delinqüências” que o levaram a contrair a enfermidade.  Assim, o aidético seria estigmatizado e massacrado pelo argumento de que é culpado pela própria doença de que é vítima.

Sontag dizia que “(...) a doença é o lado sombrio da vida, uma
espécie de cidadania mais onerosa. Todas as pessoas vivas têm dupla
cidadania, uma no reino da saúde e outra no reino da doença. Embora todos
prefiramos usar somente o bom passaporte, mais cedo ou mais tarde, cada um
de nós será obrigado, pelo menos por um curto período, a identificar-se como
cidadão do outro país.”

A doença, assim, não deveria ser vista como uma metáfora, pois isso a tornaria uma fonte de preconceitos. O grande desafio estaria em enfrentar os males como problemas físicos, evitando assim que a pessoa se sinta responsável pelo mal que carrega, despertando em si mesma sentimentos de auto-rejeição e de punição merecida.

Sontag escreveu sobre um tema que conhecia bem. Conhecia o mundo das doenças como poucos. Sua mãe era alcoólatra e o pai  morreu de tuberculose quando ela tinha cinco anos e a família morava na China. Também escreveu uma peça, Alice in Bed, com base na vida de Alice James, a adoentada irmã de Henry e William James.

Da própria luta contra o câncer, elaborou uma crítica ao pensamento coletivo sobre as doenças como um mal social ou como a interpretação de uma punição ao ser humano. O seu discurso, portanto, ao valorizar a inteligência e o conhecimento, voltou-se, em um mundo povoado de metáforas sobre as doenças, para a realidade das coisas, dos homens e dos fatos.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

 

 

 

 

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