por Oscar D'Ambrosio


 

 



Süli András

 

O Rimbaud da arte naïf

       

O poeta francês Arthur Rimbaud (1854-1891) é um marco na história da arte. Autor de versos baseados na liberação do inconsciente, considerados precursores do surrealismo. Premiado aos 15 anos e considerado gênio aos 16, abandonou a poesia aos 20 anos, preferindo levar uma vida de aventureiro, viajando por Alemanha, Itália, Chipre, Arábia e Abissínia.

        Algo semelhante ocorreu com o pintor naïf húngaro Süli András. Ele apenas pintou de 1933 a 1938, mas, mesmo assim, tornou-se um dos artistas primitivos mais reconhecidos em seu país. A simplicidade de seus trabalhos, imersos numa atmosfera de pureza e composição harmônica e delicada, lhe concedeu, em 1969, a Medalha de Ouro do júri internacional da Trienal de Bratislava, na Eslováquia.

        Nascido em 30 de outubro de 1896, no povoado de Algyö, em uma família de camponeses pobres, András estudou apenas durante seis anos na escola primária. “Gostava muito de desenhar naquela época e essa faceta de minha personalidade foi ganhando tanta importância que comecei a dedicar todo o meu tempo livre à pintura”, afirmou.

        András nunca teve aulas regulares de pintura. Após ter prestado o serviço militar, retomou o desenho como passatempo e, segundo testemunhas, passava horas do dia realizando esboços num caderno que carregava consigo. Seu universo imagético era a cidade em que nascera, enriquecida com pombos, pássaros estilizados, bandeiras da Hungria, interiores de casas, objetos antropomórficos e figuras detalhadas de pessoas e animais.

        Campos floridos e árvores são constantes, mas nunca são representados de maneira naturalista. Linhas de salgueiros e folhas aparecem nos quadros de forma estilizada. O meio ambiente que cerca András é transposto para a tela pelo filtro da fantasia. As imagens reais são transformadas, como se observa nos quadros que mostram o interior das casas. Detalhes como enfeites caseiros ou sapatos largados pela casa dão aos quadros um frescor e naturalidade que poucos atingem.

        O artista revela amor pelo detalhe e, ao mostrar uma estação de trem, por exemplo, inclui um mapa da própria Hungria, além de placas que indicam a direção dos banheiros e o local de saída dos trens. Carros, locomotivas a vapor, linhas elétricas e postes são cuidadosamente retratados.

        Os rostos das pessoas seguem um padrão que impossibilita diferenciação individual, assim como ocorre nos artistas populares húngaros que fabricam cestas de vime ou esteiras de diversos tecidos. Esses seres humanos estão presentes nos diversos ambientes retratados por András: estações de trens, o quarto da irmã, as procissões de sua cidade natal e as imagens do rio Tisa, com seus navios e barcaças.

        A arte de András caminha no fio da navalha entre a alegria da arte infantil e a representação objetiva da realidade dos adultos. Nesse universo, surge uma arte que comove pela sua simplicidade, beleza e amor à vida. Cada tela, repleta de detalhes tem uma história para contar.

        Algyöi vsútállomás, por exemplo, reúne uma diversidade de elementos, que se conjugam numa composição horizontal. Na parte superior do quadro, pássaros negros voando em diversas posições. Um pouco abaixo, chaminés soltando fumaça negra e diversos prédios com a bandeira da Hungria. Ao centro, passa uma via férrea. Logo abaixo, quatro faixas verdes, com camponeses, um lago e animais domésticos. Há até uma estrada, representada por uma desproporcional faixa cinza, por onde passa um carro, que acabou de ultrapassar uma ponte.

        O retrato de Algyöi não podia ser mais preciso. Tudo está lá, visto pelos olhos de András e transformado em arte pelos seus pincéis. O mesmo ocorre em Pátio com galinhas. A camponesa, ao centro, parece um boneca típica do país e as galinhas e galos se espalham numa tela dominada pelo verde e vermelho, cores da Hungria. Um gato tentando subir num telhado, pombos num pombal e casas típicas, à direita, também compõem a tela, um documento criativo da vida numa comunidade camponesa húngara.

        A obra de András foi descoberta e popularizada por Balint Jenö, mas essa lua-de-mel do artista com o mundo da arte durou pouco. Ao não receber de volta trabalhos que enviou a uma mostra de novos talentos, ele se sentiu enganado e não pintou mais nada desde 1938 até 1969, ano de sua morte.

        Felizmente, a arte de András sobreviveu ao incidente. Ela se tornou um dos principais símbolos da arte naïf húngara, principalmente pela pureza de suas cores e pela estrutura simples e equilibrada de suas telas. Há nelas concisão de imagens. Embora existam muitos elementos, eles se articulam para transmitir determinada mensagem, numa composição semelhante à das canções populares, que fazem parecer simples versos que amadureceram durante séculos.

        András, assim como Rimbaud, praticou a sua arte por pouco tempo. Mesmo assim, foi o suficiente para que ele ganhasse destaque internacional. Seu trabalho se consolida como um dos mais importantes da arte naïf mundial justamente por ser puro, criativo, autodidata e comovente.

O pintor inclusive escreveu versos que confirmam que considerava a atividade artística algo que só podia ser praticada com um amor visceral: “Alguém só pode pintar um quadro/ se os pensamentos lhe brotam do interior”. Quando se sentiu manipulado pelo sistema de marchands, galerias e museus, essa energia vital se extinguiu, o que o levou a abandonar seu imenso e natural talento.

Mas as imagens que criou permaneceram. Uma prova disso é que um quadro seu, Halászok és vadászok a Tisza-parton (1934), foi escolhido como capa do livro As flores selvagens das Belas Artes: 100 artistas húngaros de características naïfs ou populares (1997), de Bánszky Pál. A imagem reúne uma longa linha de salgueiros, campos floridos, barcos, uma pessoa na água e caçadores em roupas típicas, numa composição marcada  pela presença poderosa do rio Tisa na parte central.

András fala do seu povo e da sua terra com a mesmo frescor revelado por Rimbaud nos versos que indicam os primeiros passos do surrealismo. O pintor e o poeta se assemelham por seguirem seus instintos, não se atendo a normas acadêmicos ou a crivos determinados pelo frio e cerceador crivo da racionalidade. Predomina neles, portanto, a liberdade, bem maior da arte, seja na literatura ou nas artes plásticas. Essa atitude, nos dois casos, durou pouco, mas produziu obras significativas, que engrandecem a humanidade.

        

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).      

 
 

 

 

 

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