por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

 

Stella Nanni

 

            O “osso” da composição

 

            Os artistas chineses costumam dizer que a composição é o “osso”  de um quadro, ou seja, no momento em que essa instância da imagem está resolvida, os outros elementos, como cor e forma vêm naturalmente. Essa concepção demanda do criador o desenvolvimento de uma educação visual, para poder, no instante da pintura, verificar qual o melhor caminho a seguir.

            A artista plástica Stella Nanni, nascida em Campinas, tem boa parte de seu trabalho associada aos retratos de cavalos, principalmente de saltos, embora tenha feito cenas de adestramento e de turfe. Amazona na juventude, tem nessa matéria-prima um universo conhecido, que desenvolve em cenas geralmente realistas, onde se vale dos fundos – ou da ausência deles – como eficiente recurso estético.

            Paralelamente a essa vertente vinculada ao mundo eqüestre, a pintura de Stella Nanni apresenta uma gama de obras ligadas a um certo expressionismo onde mostra com intensidade a máxima chinesa sobre composição. Seja a partir da evocação de figuras humanas, principalmente femininas, ou na criação de climas diversos, o seu talento oferece numerosas possibilidades de desdobramento.

            No díptico, em que mostra pessoas visitando museus, por exemplo, fica clara a percepção da artista do autêntico balé humano no ato de contemplar obras plásticas em espaços especificamente dedicados a isso. O resultado é extremamente eficaz para relativizar os próprios espaços expositivos enquanto locais sagrados, valorizando, sim, o público como o maior beneficiário de um trabalho artístico.

            Embora a técnica de ampla gestualidade e de largos movimentos com o pincel seja, num primeiro momento, oriunda do visceral ato de criar relacionado ao expressionismo e de suas múltiplas variantes, Stella Nanni não perde de vista a delicadeza, presente em cada uma de suas telas.

            Talvez isso ocorra pelo hábito de lidar com cavalos, animais de grande potência, como mostram ao saltar e correr, mas capazes de uma dinâmica marcada pela graça e precisão, realizada nos treinos e competições de adestramento. Essa ampla possibilidade de movimentos aponta um rumo na pintura da artista: a combinação da inquietação criadora com a construção de uma lírica poética.

              Ao realizar retratos de pessoas, Stella opta por uma linha monocromática, geralmente em tinta acrílica. O recurso permite uma nova combinação diferenciada de elementos. Por um lado, a fidelidade ao real; por outro, a liberdade no trabalho com a cor para representar uma psique por meio da imagem.

            Enquanto os trabalhos de cunho expressionista permitem o desenvolvimento de uma linguagem cada vez mais própria e original, aqueles realizados com cavalos e rostos humanos, se nada deixam a dever em termos de técnica, carecem da liberdade que traços mais vigorosos – mas nem por isso desprovidos de sutileza – podem propiciar

As imagens de Stella Nanni, de maneira primordial as expressionistas, quando a figura humana é colocada nas mais variadas situações, seja de exaltação ou de reflexão, transformam o “osso” da composição, valorizada pelos chineses, na matriz de um devastador potencial de gerar no observador densas emoções por meio da tinta.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

 

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At the museum
100x100 cm óleo sobre tela 2002

Stella Nanni

 

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